Desenhos – Sylvia Plath

Por Redação Entrecultura - 24/04/2016 22h49
    Acreditando na fantasia de existir hora certa, algo meio astrológico, momento que Plutão se alinha com o Sol, Lua e com a nossa altura; procrastinei ler Sylvia Plath. Porém, seu guarda-chuva onipresente sabia que deveria me proteger das chuvas de janeiro e um mês antes do necessário já estaria em minhas mãos em forma e ato de presente.
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     O primeiro livro que abro e leio trata-se de “Desenhos” em uma linda edição capa dura publicada pela Biblioteca Azul com prefacio de Frieda Hugues, filha da escritora. O livro é composto de cartas, notas, uma poesia e desenhos da ganhadora do Prêmio Pulitzer póstumo de 1982. Desenhos revela um panorama dos processos criativos de Plath. As ilustrações são divididas em 4 sessões: desenhos da Inglaterra, desenhos da França, Desenhos da Espanha e desenhos dos EUA
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Plath nasceu em 1932- Massachusetts. Sua bussola de paixões e desejos sempre apontavam para algo além do norte ou sul: apontavam para a arte e assim viveu intensamente mergulhada na literatura e nos cadernos de esboços. Desenhar era para Sylvia conectar-se com a paz, nos traços que criava no papel perdia-se num mundo do esquecimento de tudo mais que não lhe interessava. No contado da caneta, naquin e papel ela não só desenhava, vivia um mundo ideal, sua solidão ali era criativa e produtiva. A escritora gostava de estar só, talvez por isso ofício do desenho fosse tão prazeroso, ele, ao contrario das poesias que eram publicadas e a aproximava de fãs e críticos, os desenhos eram tarefa solitária, a calmaria de sentar-se em um local desejado e entregar-se a observação e construção de um outro mundo. Rabiscar em papeis não demandavam conversas e conhecer pessoas.
“Uma coisa é certa, seguramente eu prefiro estar só; evito as pessoas como veneno; simplesmente não as quero; me sento e respondo às infinitas perguntas das novas garoras na mesa; me pego sendo engraçada e fazendo-as rir com descrições de pessoas & acontecimentos, e imagino que possa agir de maneira tão mecânica, com tão pouco sentimento e ainda assim mantendo os hábitos de uma pessoa sã, sem ser descoberta.” (Desenhos; página 15)

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O livro remonta um período feliz da vida de Sylvia, época de viagens, começo de um casamento com o também poeta Ted Hughes e uma proveitosa produção em naquin, algumas de suas ilustrações e artigos chegaram a ser vendidas e publicadas no mesmo ano que foram produzidas. Seus feitos no papel pareciam tira-la do ar depressivo que tinha muitas vezes.

“Da minha caminhada de ontem eu trouxe comigo um cardo-roxo e um ramo de dentes-de-leão, e desenhei-os com grande e amoroso detalhe; também fiz um desenho bastante ruim de um bule e de umas castanhas, mas irei melhorar com a prática; desenhar me dá uma sensação de paz tão grande; mais que a oração, os passeios, qualquer coisa. Consigo fechar-me totalmente na linha, perder-me nela…”  (Desenhos- página 16)

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Desenhos é uma boa iniciação ao universo da escritora e desenhista Plath. O livro monta um ótimo panorama dos processos criativos da autora. É uma das poucas obras traduzidas para o português no Brasil e chega às mãos de quem acompanha a carreira de Sylvia como um verdadeiro presente ao trazer registros de mais de cinco décadas passadas. Aos antigos amantes e aos iniciantes é uma obra que merece ser saboreada.

Fotos: Romario Farias

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