“Renato Russo – O Filho da Revolução” Leitura Recomendada

Por Redação Entrecultura - 05/07/2016 15h02

A verdade é que terminar de ler a biografia do Renato Russo foi quase uma vitória para mim, pois os tantos compromissos, de uma forma ou de outra, consumiram meu tempo. Além do mais, a leitura acelerada foi incentivada, em primeiro lugar, pelo cansaço de andar sempre com o livro debaixo do braço – mais peso, mais volume – e a angustia de ler uma página a cada três dias; outro motivo foi aproveitar o “retorno” da Legião aos palcos, numa turnê de trinta anos do primeiro disco.

Discussões à parte, eu considero a turnê legítima, ainda que os fãs jamais verão Renato cantar novamente, mas é válido que os outros integrantes voltem aos palcos, toquem as músicas que ajudaram a compor e, óbvio, ponham ainda alguma grana no bolso (eu faria isso, sem pestanejar). Pois bem, vamos ao livro…

O autor é Carlos Marcelo, jornalista, repórter de cultura e música, tendo trabalhado em diversos veículos de comunicação no país. Além da biografia “Renato Russo – O Filho da Revolução” ele escreveu também “Nicolas Behr – Eu engoli Brasília”. O melhor é que o autor reside na capital federal desde 1985, o que contribuiu para enriquecer sua pesquisa, além dele ter vivenciado todo o movimento das bandas que surgiram em Brasília na década de 80.

O livro, de forma geral, fala da formação da criança/jovem Renato Manfredini Junior – o que inclui sua chegada a Brasília, sua convivência numa cidade recém-nascida e de futuro incerto e sua relação com os amigos, também futuros astros da música brasileira – no cantor, compositor idolatrado Renato Russo. Longe de ficar na mera reverência e na admiração, apesar de ser impossível tal desvinculação, o livro é bem preciso quando, ao invés de mostrar só a personalidade cult de Renato, traça o perfil de alguém extremamente frágil, contraditório, às vezes decidido sobre seus planos e futuro e às vezes descrente sobre a vida (o que fica claro em sua tentativa frustrada de suicídio, quando adolescente) e sobre o momento cultural em que está inserido,  principalmente a música do Brasil de então, a MPB.

Renato curtia cinema, teatro (foi ator), literatura e a música, principalmente. Assim como muitos outros garotos e garotas de Brasília ele possuía uma família classe média alta. É interessante frisar que muitos dos músicos de Brasília, de bandas como Capital Inicial, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, entre outras, possuíam uma condição financeira favorável. Eram filhos de pais Militares, Engenheiros, Professores Universitários, etc. No meu ponto de vista, essa “boa condição” ajudou na formação cultural desses jovens, em Brasília, que tinham um pé na formação Americana, podiam viajar para outros países em busca de informação, aventura, ou coisas assim (não que isso seja pré-requisito de uma “boa formação” ok?). O próprio Renato foi aluno da Cultura Inglesa e futuro professor de inglês na mesma escola.

O livro é muito bom quando explora bem a formação musical do então jovem Renato. Tem uma lista enorme de referências a bandas e discos (vale a pena conhecer e ouvir cada um), mostrando o lado eclético do futuro cantor. De certa forma, ele teve uma formação Punk. Bebeu na fonte de bandas inglesas e americanas, do movimento Punk, como Ramones – claro em suas roupas rasgadas e jaquetas de couro, na adolescência – e do movimento Pós-punk. Era fã assumido de The Smiths, por exemplo. Sua formação punk também é revelada em sua postura agressiva, de contestação, de revolta com o momento social e cultural de Brasília, quando participava de manifestações e de quando montava seus shows com seus colegas na base dos condomínios e blocos residenciais em que moravam, na asa sul. É até engraçado notar a contradição de Renato Russo, já então cantor da Legião Urbana, já reconhecido no país, quando diz que muito do que fez foi despretensioso, o que não é verdade. Renato tinha muita pretensão em ser quem era e isso nota-se pelas suas escolhas, pela sua postura, pela luta que teve em formar a banda que lhe traria estrelato.

O livro foca do nascimento à morte do cantor, ou seja, de 1960 a 1996. Tem muito contexto histórico, principalmente o período pós-ditadura. Mostra Brasília como um centro cultural crescente e efervescente, uma cidade para onde convergiam artistas de diversos segmentos, entre escritores, arquitetos e músicos. No entanto, o destaque maior é para a formação de sua primeira banda, o Aborto Elétrico, a formação da Legião Urbana e da gravação do primeiro disco, “Legião Urbana”, em 1985. Desse momento para o estrelato foi como a queda de um avião, tudo muito rápido. A banda viajou para São Paulo, onde manteve contato com outros grupos, como Titãs, além de começar todo o processo de transformação de um grupo que se dizia Pós-punk, para uma vertente mais Pop, caso do segundo disco. Hoje, o primeiro disco da legião é considerado um dos melhores já gravados no ano de 1985. O foco narrativo tem seu fim na gravação do terceiro disco “Que País é Este”, de 1987.

 

Disco Legião Urbana, de 1985. "O meu já está bem surrado".
Disco Legião Urbana, de 1985. “O meu já está bem surrado”

A partir do quarto disco, “As Quatro Estações”, de 1989, o autor dá uma enxugada na história do cantor (tipo quatro anos de vida e carreira em cinco páginas, sabe?). Alguns assuntos foram deixados de lado ou pouco abordados, como é o caso do uso de drogas (há referências ao vício em álcool, cocaína e heroína), o fato de ser assumidamente gay e de quando ele contraiu o vírus HIV, causa de sua morte em 1996. Mas, isso não impede de vermos um Renato Russo como ser humano, ator e vítima de seu sistema social, com seus temores, amores e outras coisas. O livro fala também do desejo do cantor em ser idolatrado, de sua postura de megalomaníaco, da raiva de falta de reconhecimento.

O livro começa e termina com um fato interessante: um fã ataca Renato Russo em um show em Brasília, em 1988. A banda estava em turnê de lançamento do seu terceiro disco, e fizeram um show ímpar em Brasília, numa mistura de êxtase e confusão. O cantor, depois de incitar e estimular uma plateia imensa e depois da banda atrasar por quase duas horas para iniciar o show, ainda desferiu ofensas e críticas a um público tão ávido quanto ele por merecimento.

Certo é que o fato desestabilizou o cantor e banda e o show teve fim com menos de uma hora de duração. O resto foi quebradeira, depredação, prejuízo milionário, fãs enraivecidos, queima de discos em praça pública, pichações em muros com a frase “Legião, não voltem mais” e um processo da cidade de Brasília à banda Legião (ironicamente, sua filha mais amada). Pode-se dizer que a banda viu sua ascensão e queda em Brasília, o que também é meio irônico, pois o grupo ainda é uma das bandas de rock mais sucedida do Brasil – em quatorze anos de banda, o Legião vendeu vinte e cinco milhões de discos, por exemplo, e continua a vender bastante.

Não vou dizer que é leitura obrigatória, já que ninguém é mesmo obrigado a ler nada, mas para quem quiser conhecer o outro lado da banda e do seu líder, Renato Russo, é uma boa indicação.

Espero que tenha ficado bom… E prometo não escrever tanto, na próxima vez.

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