Hell’s Angels – Dica de leitura

Por Redação Entrecultura - 12/07/2016 17h36

Como a ideia é partir do princípio de que sou eu o leitor e que, de repente, posso revisitar minha própria biblioteca, a indicação da vez é sobre um dos meus escritores favoritos. Por dois motivos: primeiro – na minha humilde opinião – ele foi um bom jornalista (morreu em 2005); depois, é que ele é tudo que eu queria ser, no sentido profissional, quando conseguiu mesclar o seu trabalho com sua vida – cheia de estilo, claro –, mas numa associação crucial e trágica, no final das contas.

O livro é Hell’s Angels (1967), do escritor e jornalista Hunter Thompson. O autor em questão já teve livro indicado aqui no nosso site – um muito bom também –, mas optei por esse por sua relevância dentro do jornalismo.

Na década de 60, quando os jornais vivam um enxugamento das suas páginas e os temas tinham uma exposição simples e superficial através da técnica de escrita do lead – termo específico para a prática do jornalismo em expor uma matéria nos jornais, com as informações necessárias e básicas ao entendimento de qualquer assunto – outros jornalistas surfaram um caminho inverso, justamente pela insatisfação com as regras de objetividade do texto, resultando em uma produção extremamente prolífica.

Hunter S. Thompson expandiu a prática jornalística em ascensão nas revistas e suplementos dos jornais americanos, o New Journalism. Nessa prática, jornalistas como Gay Talese, Tom Wolfe, Norman Mailer e, principalmente, Truman Capote, utilizavam técnicas literárias para escrever suas enormes reportagens, mas Hunter foi além, criando seu estilo próprio de escrever, o jornalismo Gonzo. Felipe Pena, em seu Jornalismo Literário (2008), diz que “jornalismo Gonzo consiste no envolvimento profundo e pessoal do autor no processo da elaboração da matéria. Não se procura um personagem para a história; o autor é o próprio personagem. Tudo que for narrado é a partir da visão do jornalista. Irreverência, sarcasmo, exageros e opinião também são características do jornalismo Gonzo. Na verdade, a principal característica dessa vertente é escancarar a questão da impossível isenção jornalística tanto cobrada, elogiada e sonhada pelos manuais de redação”.

 

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Hunter S. Thompson – “Um dos meus escritores favoritos”

O livro de Hunter extrapola os limites do simples colher informações sobre um tema, no caso, sobre a “gangue” de motoqueiros, os Hell’s Angels, que tiraram o sossego das pessoas, em estados e cidades dos EUA. O projeto inicial de Hunter era pesquisar sobre os motoqueiros com a finalidade de escrever artigos e enviar para os veículos de comunicação em que trabalhava. No final, depois de um ano e meio de convivência com os motoqueiros, dividindo espaços, badernas, cervejas, e todo o frenesi dos anos 60, foi concebido Hell’s Angels, seu primeiro livro, publicado em 1967.

Ele é o relato da sua convivência com os motoqueiros, acompanhando viagens por cidades americanas, quando saíam para comemorar e, obviamente, viviam momentos de excesso em álcool, algazarra e confusão. O livro é fruto de extensa pesquisa, leitura de relatórios, acompanhamento das notícias ruins publicadas pelos mais diversos veículos, mas, o mais importante é a atividade in loco do repórter, que retratou e viveu um lado brutal e marginal, seja nas ações, modo de vestir, comportamento, dessa parte suja e imunda – fedendo a sebo humano, como relata o próprio jornalista – da sociedade americana.

O livro não tem nenhuma obrigação em defender ou acusar seus personagens, uma vez que os Hell’s Angels eram socialmente condenáveis, pois fugiam completamente do padrão de vida adotado pela sociedade em que estavam inseridos. Não pertenciam ao chamado American Way of Life, dependentes de um status, do consumo, de um padrão. Ao contrário: o estilo de vida dos motoqueiros beirava a uma liberdade quase insana, estavam mais para o Sex, drugs and rock n’ roll.

Claro que foram violentos, claro que excederam regras, claro que cometeram atrocidades e tudo teve suas consequências: os Hell’s Angels foram acusados de estrupo (coletivo!), foram acusados de roubo, de destruição de patrimônio público e de assassinato (em 1969, no festival de música de Altamont (EUA), no Woodstock do Oeste, a banda inglesa The Rolling Stones contratou os Angels como seus guarda-costas, o que foi um erro. Os motoqueiros acabaram matando um espectador a pancadas).

Longe de fazer apologia à violência, o livro é a possibilidade de imersão em uma realidade completamente degradante e perdida. Num contexto maior, o livro é um soco na cara da sociedade conservadora americana, pós-segunda guerra mundial, e deixa bem claro que seus descendentes não davam a mínima para pátria, lar e família.

O livro é bem escrito (o que é isso? Hehehe) e segue mesmo a linha de Hunter, com frases curtas, em ordem direta, com metáforas sensacionais, com humor e ironia e sempre de forma pessoal, em primeira pessoa (é a sua marca: o Gonzo Jornalismo) e um chute no **** do jornalismo comedido e apático.

É um clássico, não só do Jornalismo Literário, ou seja, no uso de técnicas literárias para compor reportagens (o livro é isso mesmo: uma grande reportagem), mas também do movimento da contracultura já que tem como temas e personagens principais a marginalização, a sociedade esquecida, o quinhão ruim, a realidade nua e crua e com finais que nem de longe são felizes e flores.

 

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“Hell’s Angels”, pela editora L&PM Pocket

O livro é bem mais que isso. Aqui é apenas uma visão, um olhar, uma leitura, cabe ainda muitas interpretações.

É leitura obrigatória? Pergunte a um Hell Angel e ele vai mandar você engolir o livro. É isso!

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