Resistência, política e elegância: O empoderamento através do turbante

Por Camila Fortes - 11/08/2016 13h17
Mona Lima (Foto: Tássia Araújo)

Resistência, sabedoria, política e elegância. O turbante surge para o movimento negro como um resgate da cultura dos ancestrais e da estética. Simboliza, politicamente, a resistência cultural dos descendentes dos africanos escravizados em seus costumes originais.

Como forma de valorização da história, cultura e estética africana e afro-brasileira, o uso do turbante é uma maneira de empoderar as mulheres negras e apresentar outras belezas que não as que a moda impõe como ideal e torna por vitimizar.

Para os seguidores das religiões de matriz africana, o turbante é usado para proteger o “ori”, que significa cabeça, na língua yorubá. Além do significado religioso, o ornamento ganha cada vez mais espaço nas ruas como forma de reconhecimento da cultura negra ou como um simples acessório – quando usado sem conhecimento de causa – , apresentando-se em diferentes tipos de tecidos, estampas e amarrações.

Mona Lima, integrante do Corpo de Assessoria Jurídica Estudantil, militante do Movimento Popular [Cultura, Periferia]; integrante do Movimento Negro Local [Negras Mulheres e Juventude Preta #Quer_Viver]; e pesquisadora em Direitos Humanos, afirma que o turbante é muito além de um pano estampado ou um ítem da moda, e nos ajuda a compreender como se dá esse processo de empoderamento através desse símbolo.

“O turbante trata-se de um símbolo de resistência do povo negro [luta, empoderamento, identidade e especialmente ancestralidade], sobretudo para as mulheres negras e a medida em que esse sujeitx conhece sua história e o real significado desse símbolo, o mesmo transforma-se em algo para além de um pano florido e ou mais um item da moda, que a mídia e o sistema capitalista tentam pregar, mais não é isso. Inclusive essas concepções equivocadas, servem para demonstrar o racismo e a falta de compreensão sobre as religiões afro presente na sociedade, no qual o turbante sempre foi associado à coisas negativas e olhares atravessados, “escuramente” visível no momento em que uma mulher negra usa-o, sendo imediatamente tida como “macumbeira” e ou também “exótica”, enquanto a mulher branca ao usar essa ferramenta de empoderamento negro, é elogiada tida como “cool”, “trend”, “style”. Percebemos ai a seletividade nas percepções acerca do turbante, usá-lo nessa sociedade padrão e eurocêntrica, e logo racista, é uma forma de lutar e resistir todos os dias, para uma conscientização racial e ancestral de um povo que tanto influenciou e influencia todos os espaços da sociedade, mais é muito invisibilizada e criminalizada, sofrendo preconceitos de várias formas”.

Há séculos a cultura europeia e seu padrão estético ocidental e branco é dominante e imposto no mundo em que vivemos. Isso faz com que haja um eterno processo de embranquecimento, elitização e exclusão dos costumes originais de uma sociedade. A amarração de um pano na cabeça que sua empregada fazia não parecia interessante até sair – na cabeça de uma branca – numa revista. Essa mesma exclusão vem quando a tradição se torna uma tendência da moda, ou seja, um bem de consumo caro e de acesso restrito.

Não é o ato de usar um turbante que ofende x negrx, mas sim usar sem ter consciência de seu valor para as comunidades tradicionais. Tente perceber a diferença entre um branco e um negro usar turbante. Os olhares são outros porque quando usado pelo protagonista daquela tradição, o símbolo ganha outro significado: se torna político, de resistência e empoderamento.

 

#meuturbanteminhacoroa

Na internet, hastags como #meuturbanteminhaacoroa vem tomando espaços importantes para o empoderamento através dessa representatividade. O objetivo é mostrar principalmente para as mulheres o poder e a política através do uso do turbante, afastando qualquer possibilidade de opressão e inviabilização.

“Se tem algo que nós, mulheres negras reivindicamos é representatividade nos espaços, e esses espaços tem a nossa cara, cor e voz, e são pontes de informação e formação política, que vai de encontro com o fortalecimento de um povo que há muito já veio/vem sendo invisibilizado e marginalizado. É “nós por nós”, pois quem melhor para falar por/para nós do que nós mesmas, uma vez que temos história semelhante de superação e empoderamento, diante do apagamento de nossas raízes? Afinal, o que todas buscam independe da idade é ferramentas que possam nos libertar do padrão “globo” de ver a negra, e já que não existem, a gente cria. “Uma sobe e puxa a outra””.

Dessa forma, é necessário que o empoderamento aconteça dentro de cada negrx para que a força se multiplique e se torne coletiva. Como sujeito político no mundo em que vivemos, é preciso que o poder da voz legitime o\a protagonista e reforce o poder da identidade construída ao longo de tantos anos.

“O empoderamento é um processo individual, coletivo, longo e também doloroso. Não encerra em uma “transição”, ou em usar turbante, ou ouvir rap, por exemplo. É mais profundo, vai na raiz da nossa história enquanto mulheres negras, enquanto povo preto. É um processo de re(ex)istência e resiliência e requer sim ajuda em seu processo de libertação. É a partir daí que compreendemos o nosso papel enquanto sujeitx político na história, pois “nossos passos vêm de longe”, a luta é nossa constante e o empoderamento sem conhecimento é vazio”.

 

 

Apropriação cultural não é globalização
O termo “apropriação cultural” se refere ao momento em que determinada cultura adota alguns elementos específicos de pessoas ou de um outro grupo cultural diferente. Isso se torna uma relação de privilégio de uma cultura em relação à outra, se tratando de um processo que envolve desigualdade e desrespeito.

“Sobre apropriação cultural “é a adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. ” Sendo importante frisar que essa discussão é bem mais ampla do que somente problematizar “quem pode ou não usar turbante”. Primeiramente que esse termo diz respeito a “dominação” de várias formas sofrida por um povo e que teve toda sua cultura criminalizada, estereotipada e quando necessária e interessante apropriada e esvaziada em seu significado e história em prol do mercado, ou seja, transformando em mercadoria “acessórios” tidos sim como símbolos de luta e resistência. Então temos ai desrespeito. Mesmo que estejamos vivenciando um momento no mercado em que “está na moda ser preto, desde que você não seja preto”, temos de problematizar sim que o que está na moda é o racismo, e sempre esteve; e ter uma amiga ou alguém na família que seja negro não exclui ninguém a ser racista e ou praticá-lo, mesmo “sem intenção”. Um/uma brancx usar turbante é uma contribuição/reprodução à apropriação cultural praticada pela indústria, e se essx brancx tiver laços parentescos, não há proibição, pois, essa discussão trata muito mais sobre Respeito e Reconhecimento do que “quem pode ou não”. É sobre identidade, pois a negritude não pode ser abraçada só quando convém, pois somos pretxs sempre. E o movimento negro não tem como prioridade ser fiscal de turbante, mais sim a conscientização da reprodução do racismo “sutil”, afinal, sempre houve uma investida enorme de negar toda contexto histórico de luta que engloba a cultura negra. “É assim que a apropriação acontece, tornando uma cultura combativa em algo que não incomode o status quo”. E essa apropriação tem sido feita a séculos, desde o samba até os dias de hoje com turbantes, tirando a visibilidade e protagonismo dxs pretxs e quando temos poder sobre esse protagonismo, somos chamadas de “metidas””.

O conceito de apropriação cultural passa por uma reflexão política: esse uso tem uma conotação negativa, especialmente quando a cultura de um grupo que foi oprimido é adotada por um grupo de uma cultura dominante.

“A globalização através do comércio e comunicação entre países, traz a consequência que é a intensificação dessa apropriação, não sendo a única responsável por algo que se iniciou lá atrás, com a dominação de vários povos pelo continente europeu/ocidental. Sem racismo não existe capitalismo, portanto temos nesse sistema desleal a banalização e mercantilização da cultura de povos que, no momento atual estão tomando para si suas afirmações de identidades como forma de resistir e re(ex)istir, e que ao mesmo tempo veem seus símbolos sendo tomados pelo elemento dominante, tornando uma relação de privilégio de uma cultura em relação a outra. Temos então um processo que envolve desrespeito e desigualdade. “A cultura negra é popular, pessoas negras não são”, como diz Sthephanie Ribeiro em seu artigo ‘o que é apropriação cultural’: “Não se pode ver a apropriação de culturas marginalizadas com bons olhos, porque quem marginaliza é o mesmo que se apropria, é algo muito mais amplo que mera globalização, é um processo para manutenção das mazelas””.

Essa mesma cultura apropriada por uma cultura dominante, se estende e é apresentada como uma tendência da moda, deixando pra trás toda uma política e resistência. Mas tendência para quem? As capas de revistas com mulheres usando turbantes já se exclui a verdadeira protagonista. E isso está bem longe de ser globalização. É um processo onde agora a moda é negra, mas o negro não está na moda, porque ser negro continua sendo ruim. Agora, representado por um branco, perde seu protagonismo.

Quer dizer então que eu, brancx, não posso usar turbante? Você pode o que você quiser. Mas saiba que esse pano é mais do que um símbolo, é resistência que passou por centenas de anos, é história cheia de sangue, é luta pra quem ainda hoje, em 2016, é vítima de um julgamento por ser preto.

 

Comentários

Na minha cabeça – InspiraTerapia

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05 jan, 2018 Responder

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