Melancolia

Por Redação Entrecultura - 25/08/2016 16h32

 

 

 

MELANCOLIA

 

Passo na rua onde convergem as sombras
E os sapos, boquiabertos, engolem o relento.
Sozinho estou, dentro de mim, desde que vim ao mundo.
Palavras criptografadas batem nas grades do meu peito.
A rua é deserta, como é deserta a vida
De quem acorda e não vê nada além de horizontes,
Frutos que as mãos não podem alcançar, sementes
Que o verão não pode semear, flores
Que a primavera, com seus dedos coloridos,
Se esqueceu de despertar. Somente o inverno
E a fria luz dos astros à distância
Embalam os versos dessa valsa dolorosa.

Bebo do vinho amargo e quedo nas calçadas,
O corpo contorcido de tristeza e álcool.
Não sei se eles dormem ou se eu sou o sonâmbulo,
Apenas sei que esquecer-me da saudade é esquecer-me de mim mesmo.
Um acorde faz verter a dura lágrima de ferro,
Na esquina alguém sorri entre dois goles de cerveja,
Carros, rock n’ roll e fumaça de cigarro
Preenchem o vazio da noite desolada.

Aos poucos as lembranças vão me abandonando
Como pássaros afugentados pela aurora.
A alma, isenta de alegrias, arrasta o corpo hirto
Por paisagens que não tem nem sul nem norte.
Já não sei mais quem sou, o espelho é mudo,
Não consigo mais ouvir meu coração.
Eu me torno uma máquina, jogo passos a esmo,
Mas a fortuna se recusa a me dar seus frutos.

Os homens, como insetos, se despedaçam contra a luz
Dos postes, que são flores de concreto e neon,
Enquanto o olhar que nada enxerga além de escuridão
Chora sobre o cadáver ainda morno da esperança.
De que nos valem os sonhos, se não mais nos movem?
De que nos valem os beijos, se não são mais doces?
De que nos vale a vida, se, de tão entregue
Que está à eterna provisão do dia-a-dia,
Nela não sobra mais espaço pra poesia?

O vinho borda o sono nos meus olhos, mas
Infelizmente não era o sono que eu queria.

 

 

Texto – Igor Roosevelt

Som – Ludovico Einaudi; Monday

Imagem – Vieux Guitariste Aveugle; Pablo Picasso

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