O Fio da Navalha – o primeiro rasgo

Por suporte - 14/11/2016 17h34

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Aqui estreia uma coluna. Uma coluna precisa de um nome. Mas que nome? Um nome é uma palavra e uma palavra é um universo. Um universo que se abre em incontáveis outros universos. Que nome escolher para uma coluna ainda sem corpo? O corpo se faz aqui, na expressão. Eu ainda não sei o nome desse corpo que é essa coluna, mas não poderia começar sem antes nomeá-la.

Então, vamos lá. Você precisa de um nome, pequena janela que vai morar dentro de um portal. Seu primeiro sopro vital será o encontro com o seu nome. Que nome você quer ter? Você poderia se chamar inominável. Mas acho que esse não é o seu nome, já tem outro com esse nome. Pensei que talvez pudéssemos falar sobre essa confusão que nos rodeia. Esse monte de vozes, essa bagunça que parece ser o nome da vida em certos momentos. Ainda mais no espaço virtual, cheio de imagens e opiniões e matérias sem corpo e verdades e certezas que estão à beira de um colapso babélico. Babélica? Que energia você terá chamando-se babélica?

Pensei no susto do tempo. Isso que todos nós ganhamos em algum momento da vida. Em vários momentos, eu ousaria dizer. Não sei se todas as pessoas mantêm em sua alma essa possibilidade do espanto. Eu mesma já desejei não tê-la. Mas aí eu não seria essa pessoa envolvida com o universo das palavras. Descartei essa possibilidade de mim. Joguei pro alto. Mandei prum navio, pra Portugal, pra qualquer canto longe daqui. Susto do tempo. Você gosta desse nome?

Que outro nome pode abraçar essa possibilidade de falar de qualquer coisa inútil, de escrever versos em prosa, de divagar sobre uma folha que cai ou sobre o barulho de uma tempestade que chega? Não sei. Ainda não sei. E não saber tem sido o seu trabalho de parto. Precisamos de um fórceps. Fórceps? Parto à fórceps? Achei feio esse nome. Melhor não.

Outro. Incansável. Azul. Brilhantina. Echarpe. Persona. Mergulho. Fantasma. Ilusão. Gosto de chuva. Saudade do mar. Canto do vento. Mais que uma pedra. Drone.

Eu adoro as palavras, elas são um labirinto.

Labirinto não, é muito clichê chamar você de labirinto.

Nuvem de fumaça? Pra sumir? Não, não dá, você nasceu para aparecer. Você quer ser um espelho? Um olho d’água? Acho bonito olho d’água.

Olho d’água. É um olhar que vai ser descrito, vindo do rio dos sentimentos. Poderia ser, mas parece muito enigmático, profundo. Estamos à procura de um nome simples. Sem muitos mistérios. Sem palavras difíceis que precisem de dicionário. Sem palavras que segreguem você. Sem lauréis, lampejos, paquidermes descalços, sem brumas, sem tétricos estéticos. Senão você vai estar fadada a ser lida apenas por entendidos ou amigos. E eu também não quero isso. E é estranho dizer, mas você me pertence e o poder da escolha é meu.

Por mim, eu escreveria sem nome e sem assinatura. Mas estamos dentro do mundo, convenhamos. Esse mundo que virou vitrine, prédios, construções e nós também estamos quase lá, quase virando concreto. Vitrinismo. Podre. Odeio essa realidade vitrine. Tenho que aprender a não odiá-la nem amá-la.

Ah, se você coubesse num nome qualquer, de pessoa. Mas mesmo isso não seria fácil, me lembro da epopéia que foi escolher o nome da minha filha. Ainda hoje abro cadernos e me deparo com enormes listas inteiramente descartadas.

Tá bom, vamos logo com isso, temos algumas opções e não muito tempo. Eu vou tomar um chá e escolher um nome bonito pra você. Sim, bonito. Eu acho que tem que ser bonito. O mundo precisa de beleza. Mesmo que seja uma beleza caótica, exagerada ou distante.

Navalha. Seu nome será “O Fio da Navalha”. Porque um poeta não se faz com palavras, se faz com sangue. Porque Belchior já sabia disso e, não obstante, quis sumir. Porque é bom que você corte as coisas e que elas cortem você.

Então é isso. Sejam bem-vindos e eu não sei de nada, qualquer coisa acontece, qualquer coisa pode acontecer.

Comentários

Carol Jericó

Linda.Palavras são assim,ou toca ou não toca.Essas aí tocaram nas entrelinhas. Massa!

14 nov, 2016 Responder

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