Financiamento coletivo: um caminho

Por Redação Entrecultura - 18/11/2016 14h47

Não seria nenhuma novidade falar o quanto é difícil se viver de arte no Piauí ou no Brasil. Inúmeros especialistas no assunto apontam explicações para essas dificuldades, outro número maior ainda dizem apenas que artistas são do mesmo tipo de gente que filósofos ou sociólogos: pessoas que nunca teriam trabalhado de verdade. Não vamos entrar aqui no mérito desta questão (até porque nem vale a pena). O que me deixa incrivelmente fascinado hoje, e que será pauta deste texto, é o número de projetos que se realizam através de financiamentos coletivos (crowdfunding) na internet, o que seria um caminho contra as adversidades citadas no início deste parágrafo além de um catálogo ou termômetro para se avaliar muito da arte que se produz atualmente.

Resumidamente, pra você que não sabe o que é um crowdfunding, os sites de financiamento coletivos são espaços onde um proponente disponibiliza um projeto para apreciação do público. Esse projeto fica determinado tempo no ar e, caso as pessoas se interessem de verdade, elas vão apoiá-lo, financeiramente, para que saia do papel e torne-se real. O autor do projeto, normalmente, oferece recompensas que variam de acordo com o valor investido pelo apoiador. Na maioria das vezes, quando o projeto visa a confecção de um produto específico, a campanha funciona como uma espécie de pré-venda que permite a captação do recurso inicial para realizá-lo. Permitam-me exemplificar: atualmente existem dezenas de projeto no ar no site catarse.me, um deles é para a produção de uma história em quadrinhos chamada Super Ego.

caio-super

 

Super Ego é um quadrinho de Caio Oliveira, autor de outras obras financiadas anteriormente através de projeto no site Catarse (Panza, All Marvel Hipster e Alan Moore – Mago Supremo). Este seu novo quadrinho, na verdade não é tão novo assim, está pronto há mais de 3 anos. Nesse período, o autor encaminhou o gibi praticamente pronto para apreciação de grandes editoras do Brasil e dos Estados Unidos, mas infelizmente não obteve retorno. O quadrinista tem sonhos de trabalhar para o mercado norte-americano, provavelmente o maior do mundo no segmento, por isso divulga seu trabalho onde pode, como em fóruns internacionais de autores conhecidos do meio. Foi em um desses fóruns que conheceu Mike Kennedy, um editor gringo independente que decidiu lançar Super Ego nos EUA e deu certo. O caminho escolhido foi o do financiamento coletivo (lá nos States, é mais conhecida a plataforma Kickstarter, que é basicamente a mesma ideia do Catarse e dos demais sites do tipo).

Super Ego arrecadou os dólares necessários e o quadrinho do piripiriense (o autor é de Piripiri, cidade a 165km da capital do Piauí, Teresina) foi lançado, originalmente, em terras ianques. Esse é o poder da internet e do financiamento coletivo. Nenhuma empresa quer financiar seu projeto? Você não consegue patrocínios para realizar sua obra de arte e disponibilizá-la para o mercado?  E você não tem a grana disponível em seu bolso? Provavelmente, o melhor caminho para você é o dos financiamentos coletivos.

Agora que o gibi do Super Ego está disponível nos EUA, chegou a vez de trazê-lo de volta para cá e o autor lançou a campanha nacional pelo Catarse. Obviamente, não trata-se de mágica. Não é como se, simplesmente, explicar o projeto em um site fosse convencer dezenas, centenas ou mesmo milhares de pessoas a compra-lo. O projeto é também um produto e você precisa saber vende-lo. É preciso estudar aquelas propostas semelhantes à sua e que foram bem sucedidas, observar as falhas dos outros e procurar não incorrer nelas. Existe muita concorrência e cada vez mais autores notórios, reconhecidos no meio, recorrem ao financiamento coletivo e poderão ser seus concorrentes, além disso, sempre existe um bom número de projetos no ar, paralelamente ao seu.

Permitam-me voltar para o exemplo de Caio Oliveira: atualmente ele concorre contra 35 projetos on line no Catarse na categoria de quadrinhos e, entre seus concorrentes estão pessoas como Klebs Júnior, Diego Sanches e Gustavo Borges, nomes relativamente conhecidos no mercado. Ou seja, para um projeto ser bem sucedido no Catarse é preciso trabalhar muito bem sua campanha para convencer o apoiador. Posso destacar três pontos fundamentais nesse processo: 1) a qualidade da natureza da sua proposta; 2) a relação entre o valor investido e a qualidade das recompensas e 3) redes sociais.

Em relação ao primeiro ponto, é muito simples: seu projeto deve ser bom. Você precisa vender algo de qualidade que interesse aos apoiadores. Não vou incorrer aqui na tentativa de explicar ou definir o que é “bom”, afinal existe gosto para tudo, mas você precisa ser dono de uma autocrítica capaz de lhe dar ciência de que sua proposta tem méritos, que não é simplesmente mais do mesmo ou que, simplesmente seja “bom” e atinja diretamente seu público alvo, levando em conta o que ele quer e gosta. Existem inúmeros projetos no Catarse que não chegam perto dos 10% do valor necessário para viabilizá-lo e “n” fatores podem explicar o porquê desse fracasso, mas, com certeza, um dos principais é: seu produto não estava pronto. Não era, realmente, bom o suficiente para merecer o financiamento do público. Quer dizer, esse é um momento para você aprender algo, reavaliar seu produto ou criar um novo projeto posteriormente.

O segundo ponto é curioso, pois demonstra a variedade do público financiador. Alguns deles apoiam e decidem que não querem nenhuma recompensa em troca, nem mesmo o mérito de serem citados como financiadores, solicitam permanecerem ocultos: isso pode significar que seu ponto 1 foi muito bem avaliado, ou seja, seu projeto é bom, mas vamos adiante: muitos projetos tem como recompensa inicial e mais barata a simples citação do nome do apoiador, um valor mínimo (no Catarse, esse valor é de R$10,00). No caso do Super Ego, apenas apoiando com R$30 ou mais você terá acesso ao produto final, que é o gibi impresso com cerca de 120 páginas, capa cartão e miolo preto e branco.

Aqui vale um novo parágrafo, pois a campanha do Super Ego tem o que chamamos de metas estendidas: inicialmente o projeto precisa de R$10mil para fazer o gibi com páginas preto e branco, mas, caso a campanha atinja os R$18mil de arrecadação, o livro terá todas as páginas coloridas. Ou seja, o projeto vende um gibi preto e branco por R$30 mas você pode receber, pelo mesmo preço, uma publicação totalmente colorida e, caso o valor arrecadado chegue aos R$20mil, praticamente todos os apoiadores receberam um gibi extra, uma nova revistinha com tirinhas do autor.

A questão é que a relação entre o valor do incentivo e a recompensa ganha é fundamental. Quando Caio Oliveira lançou a campanha do gibi Panza no Catarse (em setembro de 2015), ele pediu R$4mil e arrecadou mais de R$16,7mil. 407 pessoas de todo o Brasil financiaram. O projeto tinha metas estendidas e a maioria dos apoiadores receberam brindes extras pelo sucesso. Super Ego é do mesmo jeito. A diferença é que o gibi do Panza era mais barato e com apenas R$12 você já garantia seu edição impressa, para Super Ego são necessários R$30.

Observe bem o que você oferece para os possíveis apoiadores. Eles não são bobos, pois adquirir um produto antecipadamente e esperar meses para recebe-lo, afinal algumas campanhas duram 60 dias de arrecadação e depois disso vem boa parta da produção ou pós-produção do projeto, e se você ainda cobrar um preço acima da média do mercado seria exigir demais da boa vontade dessas pessoas.

Ainda com relação ao ponto 2, é muito importante a variedade de opções de recompensa e valores nos apoios. Super Ego, por exemplo, varia de R$10 a R$150 numa escala bem fracionada, oferecendo vários pacotes de gibis diferentes com preços bem especiais até a venda de artes originais do autor, passando por crédito, no mesmo valor investido, em livraria especializa em quadrinhos da cidade (a Quinta Capa Quadrinhos).

Com relação ao ponto 3 não há mistério: o projeto precisa ser bem divulgado e para isso as redes sociais são extremamente necessárias. Não dá para contar apenas com o boca-a-boca entre amigos e família (uma pesquisa do próprio Catarse aponta de apenas 16% dos projetos bem sucedidos apontam a família e os amigos como principal sucesso da campanha. Até porque, boa parte das pessoas que realmente admiram seu trabalho e pagariam por ele estão fora desse ciclo, ou você, artista, nunca ouviu um “dá um desconto aí, sou teu amigo”?). Caio Oliveira, para citar novamente, tem uma página no facebook chamada “Cantinho do Caio” e que possui mais de 25mil curtidas de pessoas que estão acompanhando seu trabalho, que é publicado diariamente. Suas campanhas no Catarse são sucessos construídos paulatinamente, por isso, siga essa ideia, construa uma boa base de operações antes de simplesmente lançar-se nesse mundo de competição de público pagante.

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Em tempo, o apoio da família e amigos é o segundo ponto mais importante de sucesso, de acordo com a pesquisa do Catarse, perdendo apenas para uma “boa campanha de divulgação”. Longe de mim ignorar isso. Apenas observo que o número de apoiadores deve superar em muito seu núcleo familiar e de amigos, sendo este grupo muito mais importante como ancora de divulgação do seu projeto, criando uma corrente de publicidade e compartilhamento on line.

Se você já tentou um projeto no Catarse e não atingiu sua meta, não desanime. Reavalie seu produto ou seu projeto. Corrija-o e tente novamente. Eu mesmo já tive uma campanha mal sucedida que atingiu apenas a casa dos 40% e, meses depois, observando o produto que estava oferecendo e as respectivas recompensas, reestabelecendo metas e produto final, ultrapassei os 300% do novo valor solicitado.

O Catarse é uma ferramenta incrível para tornar projetos reais, aproximando o realizador do público, quase nulificando a participação do atravessador. O valor arrecadado pelo site já chegou na casa dos vários milhões, só em 2014 foram R$1,4 milhão de 15mil apoiadores apenas na categoria quadrinhos. Por conta disso, naquele ano, o site ganhou o prêmio HQMix de “maior contribuição ao quadrinho nacional”. Se ainda não conhece, procure o site, pois ali há uma variedade enorme de projetos nas mais diversas áreas. Com certeza você poderá encontrar um projeto que lhe deixará feliz em participar.

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