Convite ao céu aberto

Por suporte - 30/11/2016 16h37

Foto: Arianne Pirajá

Era céu aberto. Desses que quase não se vê na correria dos dias. Numa cidade até que grande, é preciso estar longe pra se deliciar com estrelas. Mas estávamos em casa, debruçadas sobre a janela e o céu estava aberto. Era um convite. Ela perguntou:

– Já parou pra pensar que existe uma linha reta entre cada um de nós e cada estrela dessas?

Eu respirei fundo e vi o mundo todo conectado por linhas retas. Uma grande teia. Isso despertou em mim alguma coisa oculta. E fiquei me perguntando por que estávamos tão próximas uma da outra, e há tantos anos compartilhando nossos passos, nossas batalhas. E por que tão longe das estrelas. Ela respondeu que só daqui, de longe, as estrelas eram nossas estrelas.

Ontem vi duas estrelas cadentes. Para uma eu pedi que tudo fosse o que tivesse de ser. Que tudo acontecesse da melhor maneira. A outra eu só admirei por cair tão macia.

Quantos dias passamos sem escolher o que olhamos? Dentro dos horários, consultas, trabalhos, reuniões. Dentro das telas, janelas, abas. Lembro que no livro “As Valkírias”, do Paulo Coelho, ele discorre sobre a necessidade de olharmos além. De fitar o horizonte. De passar mais tempo olhando pra longe. Pra alargar a vista interior. Sair dessa caixinha pequena do mundo palpável.

Eu sempre gosto de ler os livros do Paulo Coelho. Tem gente que se incomoda com ele. Mas ele fala numa boa, ali. Qualquer um que lê, entende. E é tão simples, rapidinho você termina o livro e se sente um pouco mais perto da natureza. Essa natureza mística interna que a gente tem e que se perde tantas vezes. É uma pena que isso morra à míngua. E a gente fica meio defunto sem isso.

Alguns anos depois eu disse a mesma coisa pra uma outra amiga. Roubei a fala, porque o céu pediu. Estávamos em cima do Gritador, em Pedro II. Madrugada, sol quase chegando, estrelas, tempo de bruxa solta. Vimos uma porção de triângulos no céu. De novo eu pensei nessas linhas. No quanto algumas estão tão distante de nós. E como essa distância é relativa.

E daqui eu só tiro a mesma conclusão que a do texto anterior. Que eu estou morrendo de saudades da floresta, do céu aberto, do barulho das árvores dançando o rufar do vento, de molhar a alma num lago frio.

A vida nas cidades é sufocante. Somos carcaças, escravos de um tempo que não existe. E isso é ridículo.

 

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