“Que porra é essa”? Entrecultura entrevista Claúdio Prado

Por Joana D'arc - 06/06/2017 21h58

O sonho não acabou porra nenhuma! O Entrecultura conversou com o produtor cultural e teórico da contracultura, Cláudio Prado, que aposta no fim das caretices fundamentalistas e na liberação das energias utópicas.
Cláudio Prado está nas redes sociais com seu “Delírios Utópicos”, episódios audiovisuais através do Mídia Ninja, sempre com excelentes pautas. Confere aqui este papo cheio de delírios!

ENTRECULTURA: Como foi viver no Brasil na truculência dos anos 60? Foi o início de todo processo revolucionário?

CLÁUDIO PRADO: Por um certo lado sim! Mas como muita gente me pergunta sobre os anos 60, eu sempre digo que na verdade, as pessoas idealizam essa década no sentido da produção cultural que teve naquele momento, particularmente no Brasil. Mas as pessoas se esquecem que aquele momento foi terrível.
Na verdade, não só por causa da repressão, mas sobretudo pela falta de informação. Não existia a possibilidade de ficar sabendo o que estava acontecendo no mundo.  Não tinha comunicação, não tinha nada. Na verdade, era uma merda!
O telefone não funcionava. Para se fazer uma ligação para o Rio de Janeiro, levava o dia inteiro, tinha de pedir linha várias vezes para telefonista.
Eu lembro que a gente ouvia falar de alguém que tinha um disco que todo mundo precisava ouvir, um tal de “Jimmy não sei que”, tinha que achar o que é que era …Era tudo muito, muito, difícil.
Não adianta olhar para os anos 60 com um olhar saudosista. O que eu acho que aconteceu de uns tempos para cá é que aqueles ideais hippies daquele momento onde se buscava a liberdade de acesso ao conhecimento e de mais informação (se tornaram possíveis), isso era essencial. A possibilidade de todo mundo se comunicar com todo mundo sem barreiras, sem restrições. Hoje avançamos muito com relação ao que aconteceu naquela época, as condições de hoje são muito mais interessantes do que naquela década.

EC: A barra pesou e você saiu fora do país. Como foi dar de cara com outros movimentos, como a contracultura?  Despertou o que?

CP: Em 1965 me mandei para Europa e fiquei até 1971. Estudar fora já era uma coisa planejada, não foi especificamente por causa da ditadura.
Passei um ano estudando pedagogia com Piaget, que era o que me interessava e continua me interessando muito. Só que não gostei muito da abordagem, era muito “psicológica” e eu me interessava mais pela questão social. Então fui para Inglaterra e lá entrei na contracultura.
Descobri a contracultura, muito particularmente, através do LSD, do estado alterado de consciência, descobrindo que havia outro ângulo de percepção, de olhar para o mundo e para as coisas.
Um olhar sobre o processo civilizatório mais amplo, mais profundo, mais mergulhado dentro da consciência ou inconsciência coletiva. Aí sim, (essa) era a verdadeira rebeldia dos anos 60, com a necessidade de ter um outro olhar sobre o que estava acontecendo no mundo. Que a história que a gente aprende na escola, tanto faz ser no Brasil ou não, é apenas uma convenção, existem outras questões que as escolas não abordam.

 

EC: Gil e Caetano, juntos com vocês participando de festivais, novas possibilidades, invasão de palcos… e tudo isso tendo e fazendo um sentido político, com um território liberado para novas conquistas políticas. Como foi?

CP: O que o momento hippie estava dizendo é que era necessário um olhar político. Política e cultura são na verdade a mesma questão! Olhar para a questão cultural que é a somatória das maneiras e das formas, das manias e hábitos das pessoas, das questões sociais através da música – sobretudo através da música – sempre foram questões políticas.
Essa é a visão política mais ampla, muito mais do que uma “visão eleitoral”, da manifestação política através das eleições. Isso é o que ficou muito evidente para mim naquele momento. Olhar para a guerra do Vietnã como um olhar mais distante, poder parar e fazer um questionamento: “Que porra é essa”? O que está acontecendo?
(Ir) Muito além da questão econômica. Era muito mais sobre a hegemonia proposta por determinado expoente político, que naquele momento era U.S.A x União Soviética. Isso é o que era o importante. Observar essas duas grandes correntes de direita, que se convencionou a chamar de “direita” e de “esquerda” coincidindo nas questões.
O que a direita queria? A corrida industrial, ter a hegemonia industrial. A esquerda queria a mesma coisa, só que era a indústria privada e a indústria estatal. Corrida a lua. Corrida tecnológica. Quem iria dominar. Quem ganhava mais medalhas nas olimpíadas. Esse era os bastidores da guerra midiática travada entre U.SA x União Soviética.

EC: Atualmente a realidade política do Brasil é o caos. Como você entende e percebe a política brasileira?

CP: Eu acho que o que está acontecendo é pedagógico e extremamente importante. Sou muito otimista quanto a isso, porque as pessoas estão tendo a possibilidade de discutir, de poder fazer a pergunta: “Que porra é essa?”
Pra mim a pergunta: “que porra é essa?” não é apenas uma sacada de marketing, na verdade, é a pergunta universal que todos nós devemos fazer todos os dias sobre qualquer assunto. “Que porra é essa?” Querer saber o que está acontecendo na política brasileira no momento é muito importante, está na ponta da língua de todos os brasileiros. E isso é extremamente bom e interessante, porque neste momento é muito bom ventilar coisas novas, propor novas maneiras de olhar para essas questões e poder responder de uma maneira que satisfaça as pessoas. Ninguém está mais se convencendo com as respostas dadas antes de ontem.
Nesse momento, o “quadro” político brasileiro é extremamente confuso e está cheio de gente atuando para aumentar a confusão, mas ao mesmo tempo e por causa da maluquice que é a internet e a cultura digital como um todo, estamos diante de uma transparência óbvia e extremamente interessante, onde as pessoas podem perceber o que está por detrás das coisas. Isso é ótimo porque tem despertado um interesse político muito grande nas pessoas. Nunca houve, nos últimos tempos, tanto interesse político, sobre nosso destino e sobre a compreensão política brasileira. Isso é extremamente positivo.

EC: Os “delírios utópicos” são cabíveis ainda para humanidade realizar? É possível? Como?

CP: Mas é lógico. Eu sou totalmente otimista em relação ao que está acontecendo porque não é através da revolução que se avança, e sim através do processo revolucionário. Veja o movimento hippie que foi uma coisa muito forte, mas não teve revolução, não foi (o) resultado de uma revolução política, foi (na verdade o) resultado de uma compreensão coletiva de que estava tudo muito inadequado. As coisas que não são resolvidas vão para as catacumbas, mas voltam, estão reemergindo agora e través de um processo evolutivo. Os movimentos sociais hoje estão muito mais engajados, a molecada e as crianças são muito mais antenadas, falar com eles hoje é uma coisa extremamente prazerosa, eles estão prontos para entender outros patamares da realidade. Por isso as escolas estão inadequadas, porque não entenderam ainda e nessa altura do campeonato, que temos que falar de cosmologia, falar de coisa mais amplas.
No fundo é por isso que meus vídeos têm despertado interesse, porque eu estou falando coisas que estão fora daquilo que as pessoas comumente ouvem por aí, nas escolas e nos círculos culturais que estão envolvidos. Abordo temas por um ângulo inesperado e essa atenção para essa nova perspectiva é o que interessa.

EC: Qual a “fina flor da loucura” de hoje no Brasil de junho de 2017?

CP: A fina flor da loucura para hoje é o processo de diretas já. Essa compreensão das “Diretas já”, sintetiza na verdade, uma discussão extremamente importante e no sentido de que nós temos que ser responsáveis pelo congresso que a gente tem. Eles foram eleitos por nós, então discutir essa questão e quem vamos eleger na próxima eleição é certamente a coisa mais importante que temos. Como vamos escolher os nossos candidatos e quem vai se candidatar? Em “nome do que”?
Ainda vamos ter que nos virar com a democracia representativa por algum tempo ainda, só que temos que melhorar a qualidade dos nossos representantes. É isso!

EC: Qual o caminho para sustentabilidade do processo civilizatório  no Brasil? Temos saída? Existem alternativas?

CP: É claro que tem saída. De qualquer jeito a saída existe. A Terra vai continuar rodando ao redor do sol por alguns meses (risos). As coisas vão continuar acontecendo e a saída existe de um jeito ou de outro. Eu sou otimista em relação a essa saída, eu vejo gente discutindo e interessada em coisas que antes era considerada apenas “porraloucura”. Há 15 ou 20 anos atrás, as minhas ideias eram sempre apontando para o “lado B” das coisas, pela vertente do social. Meu pensamento era considerado uma “porraloucura”. Só que agora não. Agora a própria ciência mergulhou nas coisas improváveis e isso é a grande sacada.

REDAÇÃO ENTRECULTURA

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