Aldir Blanc, um dos mais importantes compositores do Brasil, conversou com o entrecultura

Por Redação Entrecultura - 01/08/2017 11h53

Aldir Blanc é um dos mais importantes compositores do Brasil.
Cronistas dos bons, sabe e entende exatamente o que acontece dentro dos melhores sentimentos. Certeza entender de todos os rebuliços que moram dentro da gente.
Autor de belíssimas e intensas músicas, fez parceria constante com João Bosco e dentre outras qualidades é médico psiquiatra.
Bom, mesmo sabendo que essa deve ser a informação de menor importância, Aldir faz parte da minha vida inteira. Tive o privilégio de crescer escutando com muita intimidade as letras e sons desse artista, que pra mim é um dos mais especiais do mundo. 

Foto: Internet

Entrecultura:  Li você contando que visitava com sua avó terreiros de umbanda e que desde os 7 anos cantava não os pontos que eu ouvia por lá, mas os meus próprios pontos. Que você já compunha com essa idade e que achava ser uma coisa patética porque misturava exu com inhambu e com tudo que rimasse com urubu, e que ouvia a empregada dizendo “o garoto tá possuído”.
Disse que o seu primeiro canto, o “canto essencial” veio daí, da forma como a sua voz era solta dentro do terreiro de macumba.
Como você entendia a música nesta época? A música já fazia o sentido que tem hoje na sua vida?

Aldir Blanc: Não fazia TANTO sentido como hoje mas a sementinha tava lá e começas a batucar pontos de macumba compostos por mim ainda na infância foi muito importante porque me levou a tocar bateria e a ter grande facilidade em destrinchar o nota por nota de melodias intrincadas mais tarde como letrista.

 

Entrecultura:  Como letrista você produziu algumas das obras mais importantes da música brasileira. Tais como “O bêbado e a Equilibrista”, “O Mestre-sala dos sete Mares”,”De frente para o Crime”, “Dois pra lá,Dois pra cá” com João Bosco e “Reposta ao Tempo” com Cristóvão Bastos.  Como vem a inspiração?

Aldir Blanc: Das formas mais estranhas.  Já letrei de cabeça em táxi, sonhando e a letra tava certinha, ouvindo durante muito tempo ou matando logo na primeira audição. É imprevisível.

 

Entrecultura: Li você dizendo que o álcool prestou um “auxílio luxuoso” para você enfrentar com mais inspiração a rotina de uma época bem difícil de repressão e ditadura política. Como foi esse momento? Como foi “ser” artista no Brasil nos anos 60/70? Como transformar a suposta frustração sentida em poesia?

Aldir Blanc:  Pergunta difícil.  Se eu soubesse como frustração se transforma em poesia, talvez não conseguisse escrever mais.  Ser letrista durante ditadura foi brabo.  Tínhamos que driblar aquele processo de censura aleatória, ir enfrentar, depois da D. Solange no MIS,  policiais racistas no palácio do Catete.  Foi uma barra pesada mas havia união, o que não vejo nessa zona do desgoverno golpista de hoje.

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Entrecultura:  Você escreveu um conto sobre Vila Isabel e fez reflexões sobre o que está “acontecendo” com a música brasileira. Fala de um possível recomeço e do que a indústria fonográfica traz como novidade e o que nos empurra goela abaixo.
Enfim, como avaliar o cenário da atual musicalidade brasileira?

Aldir Blanc:  Isso realmente eu não consigo fazer.  Do direito autoral à produção fonográfica, a zorra é total,  um momento de transição que não tenho a menor ideia de onde vai dar – mas a roubalheira continua impávida.

 

Entrecultura: Sua assinatura musical é reconhecível já a partir da primeira frase. Letrista-compositor que mostra saber a diferença que existe entre os textos que escreve para as canções com a poesia e que também muito contribui para a música de seus parceiros. É isso mesmo?

Aldir Blanc:  Minha produção como letrista é 80 % colocar palavras em cima de notas musicais de melodias já existentes.  Assim, sinto como minha primeira obrigação, tentar dizer aquilo q o músico gostaria se soubesse letrar.

 

Entrecultura:  Em comemoração aos seus 70 anos, amigos decidiram reeditar três títulos e lançar mais dois inéditos. E para isso organizaram um financiamento coletivo que premia os apoiadores, a depender do valor, inclusive com livros autografado. Como foi essa experiência? Como avaliar a cultura brasileira?

Aldir Blanc:  Acompanho até onde a grana permite ou através dos livros recebidos. A Editora  Mórula faz um grande trabalho. Há escritores como o L.A. Simas e o Alberto Mussa que são grandes. Também surgem letristas como a Manuela Trindade, a Manu, que é a melhor letrista brasileira desde Fátima Guedes. Há cronistas magníficos como Arthur Dapieve, também  grande escritor. Outros como Marcelo Mirisola e Paulo Roberto Pires não têm as oportunidades que merecem.  Sou normalmente  pessimista mas não quanto à renovação em nossas letras.

 

Entrecultura: “O Gabinete do Dr. Blanc” é uma reunião de textos sobre jazz.  Há duas décadas exite um projeto de um livro policial e que você interrompe com frequência.
O que o seu leitor pode esperar dos seus livros, do escritor Aldir?

Aldir Blanc:  Bom, pode esperar entrega e a tentativa de ser íntegro. Por exemplo, o livro policial citado continua a ser escrito. Vai ser obra póstuma, ou jogado fora?  Não sei.

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Entrecultura: Você se declara, antes de tudo, compositor popular, e quanto mais cantado, mais verdadeira será sua “modesta” herança. Que música anda emocionando você ultimamente?

Aldir Blanc: Se estamos falando de música minha, ouço muito o CD “Vida Noturna” onde me mostro mais do que em qualquer outro disco.  Também ouço muito jazz e sempre me emociono.  Nei Lopes é referência e procuro ouvir tudo q ele faz.

 

Entrecultura: É de autoria de Chico Buarque o texto “Aldir Blanc é uma glória das letras cariocas. Bom de ser ler e de se ouvir, bom de se esbaldar de rir, bom de se Aldir”.Sempre que penso nas suas músicas, imagino isso, desse jeitinho dito por Chico. Procede? Como se definir aos 70 anos?

Aldir Blanc: Bom, ler esse texto do Chico Buarque é um baita incentivo pra continuar. 70 anos é viver um dia depois do outro e curtir muito netas, netos e o bisneto. Espero que cheguem outros.

 

Entrecultura: E a situação política brasileira?

Aldir Blanc:  A maior desgraça corrupta e suja que testemunhei em toda minha vida.  Temer é um criminoso que oferece enorme perigo para a sociedade brasileira, institucionalmente ele é muito mais bandido do que Fernandinho Beira-Mar.

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Entrecultura: Para encerrar e antes de agradecer, quero mesmo é uma boa história de bastidor. Sou nostálgica e tenho saudade do que não vivi (rsrsrsr) e morro de curiosidade para saber das boas farras etílicas que renderam belas canções. Pode ser?

Aldir Blanc: Eu não tenho tantas farras etílicas quanto o folclore em torno de mim diz.  Para citar Paulo Mendes Campos, minha fama de bêbado me fez muito mais mal do que a bebida, mas vivi um momento legal quando cantei “Mestre-sala dos Mares” pra um grupo num pé-sujo e um cara disse que o samba não era meu, que era do amigo dele Valdecir Branes que morava  lá por perto. Tive q mostrar carteira de identidade, papéis na bolsa e quase que  o pau quebra.

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