Um novo encontro: o teatro e eu, o espetáculo ELEGBARA

Por suporte - 06/08/2017 23h39

Um novo encontro: o teatro e eu, o espetáculo ELEGBARA

“Quanto a fase nacionalista do teatro foi sucedida pela nacionalização dos clássicos, o teatro chegou ao povo, indo buscá-lo nas ruas, nas conchas acústicas, nos adros de igrejas, no Nordeste e na periferia de São Paulo”.

Augusto Boal

Confesso que durante toda minha trajetória de vida tive pouca inserção no universo da 2ª Arte, o bom e velho, milenar, arte do teatro. Confesso que não por falta de interesse, mas por falta de oportunidade. Confesso que não tenho autoridade pra descrever tecnicamente o espetáculo ou algo assim, mas como morador da Grande Pedra Mole e telespectador, o sentimento extrapola as linhas da tecnicidade ou criticidade, vai além e chega na linha da emoção.

A arte torna-se um privilegio, numa sociedade opressora e desigual, ainda mais restrita a algumas camadas sociais quando o país é tratado como “margem”, como acontece com o nosso país. Para quem vive na periferia do mundo, na periferia do país e ainda mais, na periferia da cidade de periferia, a arte acaba por nos ser negada. O acesso a shows, espetáculos de teatro, cinema, exposições, bibliotecas são artigos de luxo.

Com o aumento do acesso da internet e principalmente a pirataria, as possibilidades de ter um maior contato às músicas, filmes, fez com que a inequidade do consumo de arte fosse ampliado. Mas atentem bem, acesso ao conceito higienizado de arte.

O povo sempre resistiu em torno da arte. Nossos antepassados, mesmos negados do acesso formal a arte, sempre construíram suas próprias manifestações culturais, mesmos sendo silenciados com suas próprias heranças, camuflaram-se, misturaram-se e assim foram resistindo.

E assim foram, seja criando culturas e artes, que na sua maioria das vezes criminalizada e rechaçada pela hegemonia artística e cultural.

Confesso, e me orgulho em cada letra na qual estou digitando que realmente me apaixonei pelo teatro após o contato com meu amigo Arimatéia Bispo e o grupo de teatro COTJOC, o teatro mesmo com os avanços tecnológicos ainda torna-se algo presencial, dificultando sua disseminação no seio popular. Os preços elevados, a mobilidade, as duras jornadas de trabalham afastam o “povão” de imergirem na fantástica magia do teatro. Foi através de uma parceria em prol de atuarmos mais ativamente em nossa comunidade que tive esta privilegiada imersão.

Lembro-me bem, ao assistir ao primeiro ensaio, aquela expectativa do que viria a acontecer, que passos viriam desenrolar? Que caminhos serão trilhados? Com apenas dois atores, minha imaginação tentou apontar algum rumo, mas sem sucesso.

O contato com os camaradas do COTJOC abriu meus olhos para o poder do teatro popular, organizado pelo próprio povo, com o real compromisso de ser do e para o povo tem em disseminar lutas entre a juventude e como forma de dialogo entre os nossos. A importância do teatro para os oprimidos, como diz Augusto Boal “atores somos todos nós, e cidadão é aquele que vive em sociedade: é aquele que transforma” ou seja, algo realmente preta, indígena, operaria, suburbana e camponesa.

No dia da pré-estréia, confesso, fiquei bem ansioso. Como será que ficou o final? Será que eles vão desenrolar bem? Arimatéia, em algumas conversas havia me cedido uns pequenos spoilers: o racismo, a violência, uma releitura negra e cabocla de Edipo. Fiquei bem apreensivo.

A cada cena, sentir o nervosismo de todos e ver o desenrolar de toda trama, cada arrepio em lembrar de quantas histórias dos nossos, seja de um familiar, um amigo, um vizinho. Toda a raiz do racismo, o conflito de classes, a opressão de gênero, a materialização da luta de classes. A plateia, todos moradores da Grande Pedra Mole, manifestando toda a satisfação e gratidão pelo espetáculo apresentado.

O auge vem no dia da estreia oficial no Teatro 04 de Setembro. A apresentação no Coliseu do Teatro piauiense, trouxe uma magia a mais. Cada cena repetida e assistida trazia um povo arrepio, uma nova sintonia e novas reflexões. Imersos estamos na dura realidade da desigualdade social e do racismo institucionalizado no Brasil, numa terra de “Rafaeis Braga”, a peça ELEGBARA toca na ferida, numa terra de “Negros Drama”, a peça ELEGBARA dá um tapa no comodismo e no silenciamento em torno da realidade de milhares de mães pretas e solteiras, a sexualização das mulheres pretas, a violência policial e os privilégios brancos sobre os pretos.

Confesso, além de trazer o teatro popular pra minha vida, o espetáculo ELEGBARA trouxe a representatividade classista do próprio povo para os palcos. Construído e organizado pelo próprio povo, criticando todo status quo que nos oprime. Arrepiando, emocionando e trazendo um gosto de indignação que deve nos alimentar todos os dias pra que consigamos muito mais do que migalhas.

Confesso, a todos que contruíram a peça, atores, roteiristas e toda equipe técnica (luz, sonoplastia, fotografia, cenário e figurino), devo a todos vocês um muito obrigado, que os caminhos se abram e que os nossos em vários cantam tenham a mesma oportunidade que eu tive em prestigia-los e se arrepiarem com nossas dores.

Miguel Coutinho Júnior – Morador do bairro Pedra Mole

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