Entrecultura conversou com a artista Fátima Campos. Confere aqui!

Por suporte - 09/01/2018 11h32
Porque cada obra de Fátima Campos, por mais pequena, por mais simples, modesta que ela seja será sempre um pequeno alimento para minha alma.
Liberdade de expressão, instinto a solta, evasão do gosto e do gozo das cores . Efeitos cromáticos e de formas exuberantes que tomam conta de todas as minha sensações quando observo com atenção e intenção os trabalhos da Fátima.

Artista plástica Fátima Campos, mora em Teresina e tem sua arte reconhecida dentro e fora do Brasil.

Entrecultura veio bater um papo com a artista.

Confere aqui!

Entrecultura: surgiu seu interesse pelas artes? Teve educação artística? Artistas na família?
Formação academia ou autodidata?
Fátima Campos: Na década de 70,  no Rio de Janeiro , iniciei meus estudos no inovador Centro de Pesquisa de Arte ,do renomado artista plástico Ivan Serpa , desenvolvendo ali, com uma abordagem contemporânea, trabalhos em desenho e pintura.

Em 1982, morando em São  Paulo  participei de exposições com  desenhos, tendo como destaque, o Festival das Mulheres nas artes e no Salão de Arte Contemporânea do Museu de Arte Contemporânea -SP , no qual recebi um prêmio aquisição.
Na mesma época conheci a artista e ceramista Ofra Grinfeder ,  fazendo parte do seleto grupo de estudo no ateliê da artista,  pude desenvolver minhas esculturas .
 EM 1983, retornei para Teresina com a intenção  de montar um ateliê de cerâmica e continuar minhas pesquisa. Pude então desenvolver meu trabalho utilizando a cerâmica como linguagem para minhas esculturas e instalações   adaptando os materiais disponíveis no nosso solo.
Montei meu ateliê  em 1984, tendo que importar fornos e equipamentos apropriados para alta temperatura e
como nessa época. Ninguém trabalhava com esse tipo de cerâmica por aqui, não  foi uma tarefa muito fácil ,pois precisava usar uma argila especial, que tivesse um teor muito baixo de óxido de ferro.
Desta forma, tive que dispor de grande parte do meu tempo pesquisando  as argilas, nos barreiros dos arredores de União ,onde tínhamos um sítio . Tive que adaptar meus conhecimentos adquiridos em SP aos materiais encontrados no nosso solo.
De uma certa forma tenho isso como um ganho, pois foi uma oportunidade de aprender profundamente, pesquisando as argilas e desenvolver uma forma particular de aplicá-las, produzindo texturas novas , aprendendo enquanto experimentava.
Entrecultura: Quem são seus mestres nas artes? Você é uma artista aberta a todas as influências?
Fátima Campos: Além  de ter tido grandes mestres na minha formação, como Ivan Serpa, Geny Marcondes no Rio de Janeiro ,Ofra Grinffeder, Jacy Takai em São Paulo, leio muitos livros , revejo os “grandes mestres”, releio sempre a história  da arte com  um olhar novo  e atemporal.

Alguns artistas sempre me tocaram de maneira especial ,e portanto continuo aprendendo com eles.
 Entrecultura: Você é uma artista aberta a todas as influências?
Fátima Campos: Sim sou aberta as influências  desde que  elas  sirvam como ponto de partida para o entendimento  de uma linguagem  nova, mas acho que ao mesmo tempo,  o artista deve aprender a reconhecer o seu “fio condutor” e não  se perder em novidades improdutivas. Dessa forma,  sabendo separar o que há de real em sua linguagem.
Entrecultura: Você só consegue pintar ou reproduzir “um tema” quando ele já faz parte de você ou é puro exercício de intelecção?
Fátima Campos: Não  penso o que eu faço (seja uma pintura , escultura, instalações ou qualquer linguagem) como dependentes de um tema, ou tampouco como puro exercício  de intelecção. Sinto que o que vem a mim quando trabalho, faz parte de um “universo  paralelo”, que foi desenvolvido ao longo das minhas vivências, quer sejam atuais ou longínquas, reportando inclusive a minha formação  genética.
Dessa forma procuro me reconhecer, evitando  racionalizar enquanto busco o reflexo do que sou e no que faço.

Entrecultura: Cada trabalho corresponde a uma ideia?
Fátima Campos: O trabalho é instigante quando traz no seu bojo não uma” ideia” mas  uma procura com uma porta para o inusitado ,um caminho desconhecido para o próprio artista, onde ele é guiado pela intuição. A razão  tem um papel secundário quando se busca uma solução  técnica, sem prejudicar o lado lúdico,o onírico, aquilo que serviu de impulso, de mola propulsora.

Para mim nada é mais inspirador do que uma tela em branco, o próximo passo é esvaziar a mente, esquecer qualquer  “ideia” ,partindo de um nada absoluto .
A matéria é outra grande fonte de inspiração  ela segrega suas vontades.
Assim as  formas se apresentam em sequências espontâneas,  e dificilmente  uma tela só ,  uma só  escultura ,ou um objeto é suficiente para uma exploração  satisfatória e por isso sempre produzo em série.
Entrecultura: Percebo uma grande liberdade de expressão e de independência nas obras. A construção da artista Fátima teve que por algum momento passar pelo processo de “desconstrução e insatisfação” para se tornar o que é hoje? Como ? Por que?
Fátima Campos:A insatisfação  é uma ferramenta preciosa, uma bússola , nos ajuda a ir a procura de novos caminhos. Por outro lado, a desconstrução é um exercício  necessário, como um contraponto ,um caminho de volta para oxigenar o trabalho e muitas vezes lhe dar sentido .
Entrecultura: E o processo criativo acontece como? A inspiração da escolha do tema, da composição, da escolha de material e porque não, do discurso, vem de onde?
Fátima Campos: Para mim nada é mais inspirador do que uma tela em branco,o próximo passo é esvaziar a mente, esquecer qualquer  “ideia”  ,partindo de um nada absoluto .

A matéria é outra grande fonte de inspiração  ela segrega suas vontades.
Entrecultura: A sua obra constitui uma necessidade, vocação ou exigência? Por que?
Fátima Campos:  É o que sei fazer, não  saberia viver de outra forma. De resto é preciso muito trabalho,estudo e disciplina
Entrecultura:  Quais reações as suas obras despertam nas pessoas? Quer dizer, qual sua percepção sobre isso?
Fátima Campos: Das reações as quais posso me lembrar e que me tocaram profundamente foram duas. Uma vez estava pintando um muro em uma praça ,usando uma cor azul  e eu queria que o “meu azul” se confundisse ao céu local dando uma sensação  de continuidade . Muitos adultos passaram e pediam explicações para a pintura. Então  apareceu uma turma de crianças vindo da escola e uma delas olhou e disse:”Olha!…É o céu!”

Da outra vez , tinha um rapaz do interior sem nenhuma formação, que me ajudava na cerâmica  e não  entendendo nada do que eu fazia dava muito pouca atenção ao que via. Um dia então, ele foi me ajudar a montar uma escultura na parede em uma exposição e depois de pronta ele parou, olhou e disse : “Hem…heim!”… Como se estivesse vendo aquilo , pela primeira vez, naquele momento.
Reações  desse tipo me emocionam, de pessoas com o olhar puro,descompromissado.
Entrecultura: Como artista, você conseguiu o que muitos desejam, que é o reconhecimento na sua comunidade, da cidade onde vive. O que pensa sobre isso?  Qual a importância dessa premissa para o seu trabalho?
Fátima Campos: É importante  para o artista  ser reconhecido, pois precisa vender  e viver do seu  trabalho. Só  dessa forma consegue se emancipar.

Mas para que isso ocorra precisa ter um trabalho maduro , fruto de muito estudo, pois assim como todo bom profissional ,necessita de um tempo para se aprimorar. Infelizmente a grande maioria acha que arte é fruto de uma “inspiração  divina gratuita”  e perde muito tempo numa boemia improdutiva e se não  consegue vender se sente  injustiçado. Isso é  um tremendo  equívoco!
A arte precisa de uma boa dosagem de irreverência , precisa surpreender. Só se consegue isso saindo do lugar comum. Enquanto  não se  levar a arte a sério  e ter   humildade, fica difícil.
Entrecultura: Particularmente amo as “DUCARMOS”. Conta um pouco dessa fase, desse trabalho.
Fátima Campos: O meu grande desafio no momento é poder desenvolver uma linguagem partindo do corpo , esse novo olhar me aproximou da forma feminina na qual me reconheço  e também  reconheço  a imagem da minha avó, por isso  passei a chamá -las ” As Ducarmos “.
Estas esculturas refletem uma imagem forte de mulher provedora,  uma figura marcante e arquetípica da grande mãe, resumindo todas as mulheres em uma só, como Cora Coralina, em seu poema “Todas as vidas”.
Entrecultura: Você pensa em se apropriar de novas linguagens, como a digital, por exemplo?
Fátima Campos: Até  agora só  usei a linguagem digital quando produzi os desenhos para os Vitrais do novo Santuário de Santa Cruz dos Milagres . Na verdade, foi surpreendente poder lançar  mão  aos recursos do computador para elaborar uma obra tão complexa como um vitral.
Foi  um grande desafio fazer os desenho com uma rigorosa precisão, para serem posteriormente plotados em grandes dimensões  e em seguida serem  recortados em milhares de pedacinhos de vidros coloridos onde todos os formatos  e cores eram definidos com antecipação .
Depois todo esse material foi montado em perfis  de chumbo para enfim serem encaixados em uma estrutura de ferro. Foi realmente  um trabalho de Titãs ! Dois anos de incansável trabalho, mas valeu a pena  esse aprendizado.
Entrecultura: Qual a encomenda que mais mexeu com o seu ego?
Fátima Campos: Acho que de uma certa forma foram os Vitrais de Santa Cruz dos Milagres. Me sentir capaz de produzir uma obra de tamanha grandeza, com um nível de complexidade em detalhes. Foi realmente um verdadeiro milagre.
Entrecultura: O momento político do Brasil é bem instável e a cultura passa por transformações. Você defende que os artistas devam participar mais das questões sociais e ter mais participações nas questões políticas?
Fátima Campos: Realmente o momento politico  que estamos vivendo  é um verdadeiro absurdo!
Chegamos a um ponto que não  temos mais em quem e no que confiar. Acho que não  só como artista, mas como qualquer brasileiro, devemos estar bastante atentos ao nos posicionarmos.

Quanto a arte, apesar de historicamente refletir o seu tempo , não  deveria ser usada como panfleto, nem os artistas como formadores de opinião, devam lançar mão  dessa premissa para impor opinião própria. Nessa hora temos que ter discernimento e agir de acordo com nossa consciência.
Entrecultura: E os projetos para 2018?
Fátima Campos:  Na verdade são abordagens novas para antigos projetos. Quero  me dedicar mais a pintura (pois em 2017 pintei muito pouco ) e em relação  as esculturas ,fazer novas Ducarmos.
Continuar desenvolvendo minhas louças. Também  quero em 2018 realizar um sonho antigo de formar uma turma para ensinar cerâmica e um grupo de discussão sobre arte.

Comentários

cineas santos

Fátima campos, já afirmei em outras oportunidade, é uma usina de produzir beleza. Extremamente versátil, está sempre atenta aos rumores da vida e tira proveito de tudo o que possa resultar em beleza.
Uma artista na acepção plena do termo

17 jan, 2018 Responder

Lúcia Pinheiro

Fatima tem um trabalho belíssimos, não me canso de aprecia-lo quando tenho oportunidade de visita-la aí no Piauí. Sou sua fã de “carteirinha”.

09 jan, 2018 Responder

Naza

Excelente reportaggem. Texto profundo e inteligente. A genialidade de Fatima Campos é mais que impressionante.

09 jan, 2018 Responder

Haka Neto

Sem dúvida, uma referência nas artes do Brasil. A cada pequena obra, uma grande arte.

09 jan, 2018 Responder

Romélia Saboia

Uma artista cinco estrelas. Tem uma sensibilidade vinda das entranhas e sabe com maestria transformar o simples no belo. Parabéns ao Piauí por esta jóia preciosa chamada Fátima Campos.

09 jan, 2018 Responder

Bethpaz

Fátima Campos é a maior artista visual do Piauì e uma referência nacional. Seu trabalho é de uma força imensa, instigante, minuncioso, rústico ao mesmo tempo bem acabado. Brinca com as formas e navega entre as cores terrosas, frias, se aventurando também com maestria com as cores quentres.
Pinta em grandes formatos e suas cerâmicas em paineis são um exercício de paciência, composições perfeitas e beleza! TATA é a própria ARTE, em pessoa!

09 jan, 2018 Responder

FatimaCampos

Obrigada querida amiga,pelo lindo comentário.

09 jan, 2018 Responder

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