O bloco afro cultural Coisa de Nêgo abre o hoje, sexta-feira (09), o carnaval de Teresina na zona norte da cidade

Por suporte - 09/02/2018 15h46

O bloco afro cultural Coisa de Nêgo abre o hoje, sexta-feira (09), o carnaval de Teresina na zona norte da cidade. Em 2018 o grupo terá como tema “Tambores Por Esperança”, um protesto contra “perdas de direitos” e “desesperanças” das comunidades.

Entrecultura conversou com o Assunção Aguiar que é coordenadora de formação do Grupo Coisa de Nêgo e coordenadora estadual  de promoção da igualdade racial  do Governo do Estado do Piauí.

Confere aqui!

 

 

Entrecultura: Como você avalia as conquistas do movimento negro e, mais especificamente, do movimento de mulheres negras no nosso país? E aqui no Piauí, pior ou melhor?

Assunção Aguiar: Ao longo dos anos, as conquistas que nós mulheres tivemos são positivas, avançamos muito e precisamos avançar sempre e ainda mais. Chegamos até uma presidência da república, e essa presidenta honrou muito a oportunidade. Tivemos ainda o ministério das mulheres que realizou várias políticas públicas, estimulou a criação de departamentos e secretarias nos Estados. Olhando do ponto de vista da segurança pública temos mulheres delegadas, empoderadas em vários espaços.

Quando pontuamos esses avanços  nós também percebemos a necessidade da continuação desses mesmo avanços. É importante saber que precisamos atentar para o aumento da violência doméstica, tanto no campo urbano, como no rural. A violência sexual contra meninas tem sido bastante crescente e o índice de mulheres que se envolveram com o tráfico de drogas.

 

 

 

Entrecultura: Levar o Brasil a refletir sobre o racismo e questionar o mito da democracia racial brasileira, foi uma conquista? O que ainda não é dito?

 Assunção Aguiar: Foi uma conquista muito grande. O Brasil e o Piauí, a negritude brasileira, precisavam visibilizar essa que uma das nossas maiores inquietudes.  A partir do momento que começamos a questionar esse mito da democracia racial, a partir do momento que começamos a questionar o racismo institucional, o racismo social, tudo isso passa a ter uma relevância grande.

Sabemos o quanto é desafiador ser negro no Brasil e colocar o nosso país para refletir sobre o racismo e sobre o mito da democracia racial é um ganho enorme.

Claro que isso advém do investimento nas políticas públicas. O estatuto da igualdade social foi algo muito importante… o estatuto ainda não é o instrumento dos nossos sonhos, mas é instrumento que tem diretrizes para que nós possamos aplicar de fato a política pública no cotidiano.

 

 

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Entrecultura: O Brasil é um país racista não assumido?

Assunção Aguiar:  Sim, o Brasil tem esse desafio a cumprir. Precisa assumir que é racista para que nós possamos fazer esse enfrentamento de maneira  direta. Nós temos aí e sem dúvida nenhuma, uma situação bastante constrangedora. O racismo no Brasil é tão nítido, que a gente percebe isso em todos os lugares…Aeroportos, shoppings, nas grandes lojas, na segurança pública do Estado…

 

 

Entrecultura: Qual a importância de resgatar a memória dos negros como protagonistas da História do Brasil?

Assunção Aguiar: Esse resgaste é importantíssimo! Nossas crianças não tem referências, ou pelo menos, tem poucas referências. Precisamos fazer com o que nossas crianças conheçam histórias de heróis e heroínas que fizeram a diferença na luta contra a escravidão, negros e negras que assumiram o protagonismo da história.

Dandara, Zumbi, Esperança Garcia, Francisca Trindade… Heróis e heroínas. Os negros e negras sempre tiveram coragem e competência, mas o racismo torna essas personalidades que invisíveis.

 

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Entrecultura: Como você avalia o ativismo negro em Teresina?

Assunção Aguiar: Em Teresina, temos um cenário bastante positivo, do ponto de vista do protagonismos do movimento negro no estado do Piauí.

Na capital de Teresina nós temos um conselho de igualdade racial, nós temos grupos que fazem debates nas duas universidades públicas, grupos de intelectuais e pensadores que promovem questionamentos.

Vários movimentos negros do Piauí… O “Coisa de Nêgo” que tem 27 anos de história, que não deixa a bandeira cair, continua fazendo o diálogo contra o racismo, sobre o preconceito, a importância da implementação de políticas públicas, a importância do negro na universidade, tanto fazendo ser ela pública ou privada… O debate da cultura negra, o afoxé, o cantar, a dança, letras e composições.

Nós entendemos que a luta no movimento negro na capital de Teresina é forte, mas precisamos nos fortalecer mais. Ainda lembro a história dos movimento e das comunidades quilombolas ,temos  hoje mais de 170 comunidades quilombolas mapeadas.

 

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Entrecultura: Quais os novos desafios impostos aos negros atualmente?

Assunção Aguiar: Os novos desafios não são  “tão novos” assim!

São desafios que precisamos colocar na rotina. Precisamos pensar estratégias para manutenção dos jovens negros na escola.. Existe um grande índice de desistência e de repetência.

A partir dessa ausência na escola, nossa juventude está indo para o mundo do crime. Temos um índice alarmante de assassinatos de jovens negros!

Precisamos ainda de mais implementações de  políticas públicas para serem aplicadas nas comunidades quilombolas. Precisamos  ainda fazer o enfrentamento contra a intolerância religiosa negra , aqui no Piauí, temos mais de 06 casos terríveis e com requintes de crueldade.

 

 

 

Entrecultura: Certos setores da sociedade brasileira consideram a luta pela igualdade étnica e racial como “vitimismo”. É isso mesmo? Por que?

Assunção Aguiar:  Achar que nossa luta por direitos e por igualdade é uma situação de “vitimismo” é a melhor forma que a sociedade racista consegue dialogar… Nesse momento é tirado a responsabilidade de que é um problema de Estado,  de que é  uma situação que precisa ser combatida e enfrentada.

Quando se diz que o problema é do negro, que o negro é que tem mania de inferioridade, você tira uma responsabilidade que é sua e joga para o outro. Precisamos entender que essa fala não é do movimento negro,  essa fala é da nossa sociedade que nos oprime. Os colonizadores de ontem são repressores de hoje. Isso é muito presente e muito real.

É bem mais fácil culpabilizar o negro pelas suas não ascensão, do que assumir que tem aí uma questão história advinda da escravidão que foi aplicada no Brasil.

 

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Entrecultura: Conta um pouco do trabalho que é desenvolvido no centro afro cultural coisa de nego.

Assunção Aguiar: Trabalhamos o ano inteiro. Temos um trabalho com percussão, dança, temos um grupo permanente de apresentações e formação. Temos cultura e resistência. Nossa música diz isso, nosso toque transmite essa mensagem. Questionamos, fazemos palestras, criamos as condições  necessárias para participação do Coisa de Nêgo onde somos convidados.

 

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Fotos: Arquivo Coisa de Nêgo

 

Entrecultura: O carnaval deste ano, será comemorado como?

Assunção Aguiar: O bloco “Coisa de Nêgo” é um bloco alternativo. Não trazemos o samba  e as marchinhas carnavalescas que os outros blocos trazem. Trabalhamos de fato com o ijexá, trazendo e cantando o a história do povo negro na avenida através de um tema.

Esse ano, teremos o tema “tambores da esperança”, queremos trazer a importância de Esperança Garcia para os quilombolas e  para nós  do movimento negro. Um momento importante que Esperança Garcia ganha uma visibilidade através da O.A.B, um reconhecimento por parte de intelectuais… Esperança Garcia vive no movimento negro, nos intelectuais,  nas pessoas que resistem, para as comunidades quilombolas… Esperança Garcia para cena através do bloco “Coisa de Nêgo” com o intuito de fazer a manutenção da esperança  que todos nós carregamos no coração. Não fazemos só festa, fazemos reflexão também. Saímos na avenida Boa esperança e vamos até a praça dos Orixás.

 

 

 

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