Filme piauiense “O Casulo e a Borboleta”, de Thiago Furtado, ganha prêmio em mostra nacional de cinema

Por Redação Entrecultura - 24/06/2018 15h15

“O Casulo e a Borboleta”, curta-metragem piauiense de Thiago Furtado, recebeu o Prêmio Especial Destaque Criativo na Mostra Nacional do Festival Goiamum Audiovisual. O filme mostra a jovem transexual Ana Paula (Kaio Rodrigues) e sua mãe Lúcia (Edithe Rosa), em uma sociedade ainda marcada pela transfobia.

Thiago Furtado, que, nasceu no Maranhão e hoje vive e trabalha em Teresina, é formado em Comunicação Social Pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Ele iniciou no audiovisual ainda na academia, quando produziu o curta “O Signo da Solidão”, e o documentário “Ampulheta – Memórias de areia e vento” (2016), seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que já lhe rendeu alguns prêmios. Também produziu o curta “Solar” (2017).

Thiago Furtado (Foto: Suyane Mesquita

Thiago integra, junto de Jonathan Dourado, Javé Montuchô, Filipe Silva, Martins Peres e Luma Alves o Coletivo VDC, que assina a produção de “O Casulo e a Borboleta” que foi gravado pela Madre Filmes.

Aos 29 anos, Thiago não gosta de autointitular-se cineasta. “Sou, no máximo, um realizador audiovisual. E roteirista”. Ele concedeu uma entrevista ao Entrecultura, onde falou mais sobre o curta premiado.

Entrecultura: De onde veio a inspiração para escrever o roteiro de O Casulo e a Borboleta? Vimos que o curta homenageia Rhauan Macedo, jornalista que perdemos em 2016.

Thiago Furtado: A ideia do curta surgiu após eu me envolver com a temática trans através de um trabalho da universidade, de 2015 para 2016. Fizemos um rádiodocumentario sobre transexualidade e sexualidade e me interessei pelo tema. Comecei a ver filmes sobre o assunto e nessa época o Rhauan teve uma participação muito grande, porque ele me falava muito sobre cinema ‘queer’. Fizemos o filme pensando em abordar as questões que oprimem as pessoas transexuais, as pessoas que ainda vivem a margem da sociedade, então, como o Rhauan sempre me mostrava filmes, LGBTs, fiz essa homenagem a ele, que foi uma inspiração, não só por gostar de cinema queer, mas por ter decidido partir,sabe-se lá porque. Então, para melhorar um pouco essa dor do luto eu o homenageei, pensando em como ele gostaria de abordar as opressões e o amor maternal, de uma maneira profunda.

Cena de O Casulo e a Borboleta (Foto: Jonathan Dourado)

Entrecultura: Fale sobre o processo de produção do filme.

T.F: Quis muito trazer essa reflexão de maneira profunda, para não ficar a palavra de um homem gay cis como eu, tentando dizer como é a vida de uma trans, não teria o direito nem o poder de fazer isso. Então, houve muita pesquisa, tive muita orientação de transexuais e travestis, de mães, fui procurar, nessa parte do roteiro, fazer uma pesquisa bem profunda, para não cair em nenhum tipo de estereótipo, nenhuma armadilha de linguagem para tratar sobre esse fato que é muito sério, que é a opressão contra transexuais e travestis. Foi um filme feito para incomodar, um filme eu não alisa o espectador, a gente joga tudo na mesa para trazer esse choque de realidade para quem assiste. Vi alguns comentários dizendo que o filme tinha o poder de socar o estômago e isso é uma coisa boa. Produzimos na garra, na vontade, é o que o coletivo VDC faz, consegui com muita ‘cara de pau’ a ajuda da Madre Filmes, que foi fundamental para gravarmos o filme, eles toparam gravar sem cobrar nada, acreditando no que estávamos fazendo. Conseguimos apoio do Conselho Municipal LGBTQ, através do Vitor Kozlowski, tivemos consultoria da Adda Lygia Rissope (Kátias Coletivas), e da Maria Laura dos Reis (GPTRANS). Também fomos buscar apoio de psicólogos para escrever, tivemos o aval da psiquiatra Krieger Olinda e da OAB.

Entrecultura: Como se deu a escolha do elenco? O que levou aos nomes de Edithe Rosa e Kaio Rodrigues?

T.F: Escolhemos Kaio através de teste Tenteamos achar atrizes trans e travestis, mas não conseguimos, infelizmente é muito difícil ainda, visto a marginalização que elas sofrem, então não tivemos o privilégio de ter uma transexual ou travesti trabalhando no filme. Preparamos o Kaio e ele deu conta do recado. A escolha da Edithe não se deu por teste. Eu a tinha visto em um trabalho, em um videoclipe, e na hora em que bati o olho nela disse que era uma boa atriz e que gostaria de trabalhar um dia com ela. Daí, quando fui fazer o filme, fiz o convite, ela aceitou de pronto e conseguiu fazer o papel, que chamou bastante atenção, pela visceralidade com a qual ela interpreta Inclusive, ela fala que esse foi o melhor papel que já fez no cinema.

Entrecultura: Fale sobre o coletivo VDC e seus projetos.

T.F: Agora me preparo para dois documentários, o “Curica”, que é sobre a escravidão doméstica contemporânea, e outro chamado “Gregório”, que fala sobre justiça com as próprias mãos e desigualdade social. Também estou com um roteiro escrito do curta “Vale Quem Tem” que fala sobre desigualdade social em Teresina. Nosso coletivo sempre aborda essas temáticas sociais, que possam trazer uma contribuição. Queremos fazer nosso trabalho para ser exibido aqui e fora, um audiovisual do nosso jeito, feito com muito suor e vontade e que consiga dialogar com as pessoas, é o que nos motiva a continuar, e quem sabe algum dia a gente consiga fomentar a produção audiovisual no Piauí e ter um cinema genuinamente piauiense, com uma linguagem que nos represente mundo afora.

Assista ao trailer de O Casulo e a Borboleta:

Sinopse:

Após certo tempo longe de casa, a filha de Lúcia (Edithe Rosa) retorna para buscar o restante de seus pertences. Enquanto as duas colocam as roupas em uma mala, mágoas, arrependimentos e dores são escancarados até revelar onde Ana Paula (Kaio Rodrigues) se refugiou para poder sobreviver a rejeição e a transfobia.

FICHA TÉCNICA:

Elenco
EDITHE ROSA como LÚCIA
KAIO RODRIGUES como ANA PAULA
e
ROGER RIBEIRO como PAI

Roteiro e Direção
THIAGO FURTADO

Direção de Fotografia
JONATHAN DOURADO
EDUARDO CRISPIM

Direção de Arte
MARTINS PERES
FILIPE SILVA
THIAGO FURTADO

Direção e Produção de Elenco
LUMA ALVEZ
THIAGO FURTADO

Montagem
THIAGO FURTADO

Produção Executiva
EDUARDO CRISPIM
MARIA RUFINO
MARTINS PERES
THIAGO FURTADO

Produção de Locação
REGINA SOUSA
WESLLEY OLIVEIRA

Som Direto
EDUARDO CRISPIM

Assistente de Fotografia
JAVÉ MONTUCHÔ

Finalização
EDUARDO CRISPIM

Comissão de Figurino
LUMA ALVEZ
MARTINS PERES
EDITHE ROSA

Cabelo e Maquiagem
HANA ALBUQUERQUE

Maquiagem de Efeitos Especiais
JOÃO ARANHA

Colaboração no roteiro
MONTEIRO JR.
MARCOS VIEIRA

 

Comentários

Galeria RUA: documentário do piauiense Jonathan Dourado vai representar o Nordeste em festival nacional de cinema – EntreCultura

[…] documentário foi produzido pelo coletivo VDC, o mesmo que produziu o curta “O Casulo e a Borboleta”, de Thiago Furtado. Jonathan Dourado bateu um papo com o Entrecultura, e falou mais sobre esse […]

02 jul, 2018 Responder

Comentar