Galeria RUA: documentário do piauiense Jonathan Dourado vai representar o Nordeste em festival nacional de cinema

Por Redação Entrecultura - 02/07/2018 10h00

Em 2017, o fotógrafo Jonathan Dourado, formado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), produziu como Trabalho de Conclusão de Curso o documentário Galeria RUA, que trata sobre pixo e grafite, da perspectiva das pessoas que se expressam pelas paredes e muros da cidade.

Cena do documentário (Foto:: Jonathan Dourado)

Galeria RUA deu muito certo, e Jonathan, além  de conseguir a aprovação na graduação, resolveu divulgar e inscrever o fruto de sua pesquisa em festivais de cinema. Não deu outra: em 2017 ganhou os prêmios de Melhor Curta-metragem, Melhor Montagem e Melhor Direção no 12° Encontro Nacional de Cinemas e Vídeo do Sertões, festival realizado em Floriano, e no mês passado levou dois prêmios na Mostra Sesc de Cinema: Melhor Direção e Melhor Direção de Fotografia. Além  da premiação, o filme vai representar o Nordeste no Circuito Nacional da Mostra Sesc.

O documentário foi produzido pelo coletivo VDC, o mesmo que produziu o curta “O Casulo e a Borboleta”, de Thiago Furtado. Jonathan Dourado bateu um papo com o Entrecultura, e falou mais sobre esse trabalho.

Jonathan Dourado (Foto: Martins Peres)

Entrecultura: O que o inspirou a escrever  o roteiro de Galeria RUA?

Jonathan Dourado: Desde criança, ao caminhar  um pouco pelas ruas, já percebia grafites/pichações pela cidade. Um ali outro aqui, mas sempre estiveram presentes no meu caminho e isso me incomodava, tentando descobrir o significado daqueles garranchos e quem os fazia. Perguntava sempre aos mais velhos e sempre comentavam que eram marginais, drogados, vagabundos, etc. Essas eram as respostas mais comuns que ouvia, também o fato de morar com avó e ela nunca ter ido atrás do verdadeiro motivo de riscarem a paredes “alheias” deixou bem vago o olhar dela sobre isso. Ao chegar na universidade, tive contato direto com algumas pessoas que faziam grafite e timidamente comentavam sobre pichação. Foi meio que um BUM! E a arte tomava absurdamente de conta do ambiente universitário e todas aquelas paredes brancas eram ocupadas pelas tintas em palavras, símbolos que quase ninguém decifrava, colagens e meu incômodo era aterrador, mas não de achar aquilo errado, feio ou sujo, e sim de querer saber quem eram, suas motivações e toda aquela rebeldia e fúria colocada nas paredes. Eu sendo um fotógrafo, de início fotojornalista, queria entender o que levava aquelas pessoas a praticarem tudo aquilo. Foi então que comecei a documentar e compartilhar as artes que me chamavam mais atenção, sem nesse momento saber quem eram os autores. Em 2014 criei uma fan-page e um Instagram destinados a postar somente artes urbanas e as nomeei de “Paredes do Universo” e muitas pessoas se identificaram com a proposta, tanto que fiz duas exposições fotográficas com essas postagens. O documentário teria esse mesmo nome, mas, a partir de uma fala de um dos entrevistados “A galeria de arte urbana é a rua”, foi adaptado para Galeria RUA.

https://www.instagram.com/paredesdouniverso/

Entrecultura: Qual a sua relação com a rua, com a arte e com o pixo?

J.D: Eu sou um andarilho, amo andar a pé pelas ruas da cidade e observar seus detalhes, falhas, pessoas e toda essa anestesia deturpada que é viver. Fico sempre imaginando como o agora das coisas era no passado, principalmente olhando a rua. Moro no Centro, então, cada prédio, casa ou praça tem uma história por trás, mas me fascina como tudo está hoje e em muitos casos há pixos nesses espaços. Essa roupagem do incômodo que as artes urbanas causam em quem olha me toca, causa ânsias de buscar as motivações, mas também me alivia em saber os vários pensamentos escrachados alem dos livros, jornais, TVs e principalmente do mundo digital. Faço fotos, de tudo e quase de todos, mas não me coloco no pixo nem no grafite, estes já tem seus representantes e me sinto bem representado por muitos. Me coloco nas ruas através de colagens, popularmente conhecidas como “lambes”, e assim tento interagir com quem passa e olha.

Cena de Galeria RUA (Foto: Jonathan Dourado)

Entrecultura: Como foi o processo de entrevistar as pessoas? Como selecionou as/os entrevistadas/os?

J.D: Já tinha conhecidos que toparam de cara dar os depoimentos assim que comentei sobre a ideia do documentário e que isso seria muito importante, tanto para os próprios autores falarem, quanto por ser a minha conclusão de curso. Foram 10 dias de gravações, distribuídos em dois meses, coletando material de apoio e sempre buscando pessoas dispostas a falar sobre o que faziam nas ruas. Procuramos quem nunca tinha, até então, aparecido em frente as câmeras e declarado seus reais motivos de saírem pintando a cidade. Totalizamos 17 entrevistados, mas na montagem apenas cinco tiveram um peso maior de fala para a construção da ideia central.

Entrecultura: Como você recebe essas duas premiações da Mostra Sesc de Cinema, indo agora para a Mostra Sesc Nacional?

J.D: Ficamos bem surpresos com as premiações e muito felizes com o reconhecimento. Para nós, não há palavras que descrevam a emoção. Nós, um coletivo independente que não recebe nenhuma ajuda governamental ou privada, mas que produz com uma vontade absurda de pôr em prática o que aprende e com a necessidade de registrar histórias que não são vistas pelo publico. Foram cerca de 40 curtas metragens do inscritos no Nordeste inteiro, e o Galeria RUA foi selecionado dentre eles, sem uma produção gigantesca ou as mais sofisticadas câmeras. Somos carentes de incentivos, então, juntamos incômodos, fazemos e refazemos até dar certo.

Cena do filme (Foto: Jonathan Dourado)

Entrecultura: Galeria RUA foi concebido enquanto você ainda cursava Comunicação Social na Universidade Federal do Piauí. Qual a participação da instituição no seu projeto?

J.D: Defini que iríamos usar o mínimo de equipamentos, já que estaríamos sempre na rua, então toda a responsabilidade em carregar algo emprestado da universidade cairia sobre mim, caso acontecesse uma eventualidade, um assalto por exemplo. Defini usar somente a minha câmera e um gravador de áudio profissional, mas esse, no processo de edição, foi excluído. A universidade em si não me deu suportes estruturais para execução do documentário, a ajuda concreta e excepcional foi de reunir em um espaço tão pequeno mentes tão complexas e revoltadas. Me refiro bastante ao ambiente universitário como uma vivencia única e que sem eu ter passado por ele, sem eu ter tido a oportunidade de conhecer um pouco essas pessoas, o produto final não teria ficado assim, e nem eu seria assim. Tive os incômodos no lugar certo e no momento exato de documentar tudo isso.

Jonathan Dourado (Foto: Martins Peres)

Entrecultura: Você faz parte do Coletivo VDC. Poderia falar um pouco sobre este grupo?

J.D: O grupo é bem variado e em cada produção tem gente nova que não tem nenhuma experiencia com o audiovisual, mas quer ajudar de alguma forma. Começamos em 2014, quando o amigo Thiago Furtado chamou alguns amigos para fazermos um filme, algo em que poderíamos colocar nosso aprendizado do curso de Jornalismo em prática. Fizemos no pequeno apartamento em que ele morava próximo a universidade, um dia icônico, quando alagamos a escadaria do prédio para gravar a cena final. Ali nascia a primeira produção do Coletivo VDC, nome que faz alusão ao termo “vai dar certo”, dito tantas milhares de vezes por todos nós em tantas situações. De lá para cá, são seis filmes, sendo três documentários, três ficções e um total de 11 premiações em Mostras estaduais e nacionais. Trabalhamos com o que a gente gosta de fazer e não temos tantas oportunidades no estado, mas seguimos com muitas ideias e uma enorme vontade de fazer.

FICHA TÉCNICA:

Galeria RUA / Direção JONATHAN DOURADO / Montagem THIAGO FURTADO / Direção de Fotografia e Roteiro JONATHAN DOURADO / Produção Executiva MARTINS FILHO

Duração 17 min – Classificação Indicativa 10 anos – BRASIL – 2017

FORMATO DIGITAL H264 – AVI

Cena do documentário (Foto: Jonathan Dourado)

FESTIVAIS E PREMIAÇÕES: 

– 12° Encontro Nacional de Cinemas e Vídeo do Sertões – Floriano – PI, 2017, Melhor Curta-metragem, Melhor Montagem e Melhor Direção.

– II Mostra SESC de Cinema 2018 (Versão Estadual)

Agradecimentos: JAVÉ MONTUCHÔ, FILIPE SILVA, ÉRICA SANTOS, WESLLEY OLIVEIRA E LEONARDO MENDES.

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