Conheça a Frente Popular de Mulheres Contra o Feminicídio de Teresina

Por Redação Entrecultura - 05/08/2018 11h06

Feminicídio, o assassinato de mulheres pelo simples fato de elas serem mulheres, é considerado um crime de ódio. A ideia de definir tal prática criminosa surgiu na década de 70, na Europa, mais precisamente em 1976, quando a militante feminista Diana Russell introduziu o conceito durante um depoimento prestado em um tribunal de Bruxelas.

Apesar de ter surgido há quase 50 anos, somente em 2015 foi decretada no Brasil a Lei Nº 13.104, que prevê o feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio. Com a criação da lei, o tema tem agendado mais discussões na sociedade, muito embora os crimes continuem ocorrendo em uma crescente.

O Piauí tem registrado muitos números principalmente nos últimos dois anos, fato preocupante. Diante do medo de serem “a próxima vítima”, muitas mulheres têm se movimentado coletivamente em Teresina. A partir desse movimento surge a Frente Popular de Mulheres Contra o Feminicídio.

O Entrecultura entrevistou a estudante Letícia Lima, integrante da Frente, que falou em nome das demais mulheres sobre o movimento recém-criado. Confere!

Entrecultura: Como e quando surgiu a Frente Popular de Mulheres Contra o Feminicídio?

Letícia Lima: Surgiu como reação às mortes de mulheres,  que vêm crescendo muito em Teresina e também no Piauí. Como se não bastasse os feminicídios, os assassinatos são praticados com requinte de crueldade, como foi o assassinato da Aretha. Naquela última semana de maio, outras quatro mulheres foram assassinadas aqui na grande Teresina. Convocamos um ato das mulheres em frente ao Palácio de Karnak no dia 22 de maio, em que foi realizado um “banho de sangue” [a bailarina Luzia Amélia se cobriu de líquido vermelho], como forma de chamar a atenção das autoridades, todas silentes mesmo com tantas violências pelas quais passamos. Logo depois, no dia 25 de maio, chamamos uma reunião e muitas mulheres compareceram. Assim, surgiu a Frente Popular de Mulheres Contra o Feminicídio.

Bailarina Luzia Amélia fazendo banho de sangue (Foto: Lorena Linhares)

Entrecultura: Como vocês se organizam?

L.L: Nos organizamos em encontros e reuniões presenciais, na construção de debates, atos públicos, pelas redes sociais e outras atividades, pautadas na organização feminista de mulheres contra a violência, inclusive, a mais cruel de todas, a que ceifa nossas vidas: o feminicídio. A Frente inclui militantes de outras organizações, mulheres que estão vivendo em situação de violência, mulheres que estão passando por dificuldade após romper com a situação de violência em um relacionamento, por exemplo, e muitas outras mulheres que já passaram pela violência doméstica e outras tantas que estão indignadas com tamanha opressão pelo machismo, desrespeito e assassinatos de mulheres.

Entrecultura: Quantas mulheres constroem o movimento?

L.L: Não temos condições de precisar quantas mulheres estão nessa construção, mas são muitas. Temos um grupo nas redes sociais que reúne mais de 80. Além de outros espaços, como atos públicos, reuniões com autoridades responsáveis por essa situação de extrema violência, contatos pessoais, e.t.c.

Entrecultura: O Feminicídio é uma pauta da Frente. Como debatem os demais tipos de opressão sofridos pela mulher?

L.L: A Frente passa por um crescimento constante, pois outras mulheres tomam conhecimento do coletivo e se aproximam para participar e contribuir nessa construção. Nosso primeiro contato foi contra o feminicídio, mas não se restringe a esse crime hediondo. Todas as formas de opressão sexista são debatidas, pois o machismo é sofrido de diferentes formas por mulheres trabalhadoras, negras e/ou lésbicas, bissexuais e transexuais.

Entrecultura: Recentemente conseguiram audiência com o presidente do Tribunal de Justiça do Piauí. O que foi pautado?

L.L: Estamos construindo e buscando uma forma de cobrança dos órgãos criados para atender e acolher as mulheres em situação de violência, pois sabemos que existem, mas as respostas não chegam. A maioria das mulheres ficam desassistidas. Nosso debate gira em torno dos nossos direitos, já garantidos e desrespeitados, na cobrança do poder público pela ausência de prioridade na pauta das mulheres e também no fortalecimento e empoderamento das mulheres enquanto sujeitas. Essa pauta é nossa, mulheres. E a nossa organização é que vai superar esse estado de coisas inaceitáveis.  Após o ato do 22 de maio, houve outro ato público exitoso em 06 de junho, que reuniu centenas de mulheres em marcha na Avenida Frei Serafim. Nessa agenda de manifestações,  no dia 12 de julho fizemos outro banho de sangue em  frente ao Fórum Central do Tribunal de Justiça do Piauí. Fomos recebidas pelo presidente em exercício, desembargador José James. A nossa pauta: não aceitamos mais a violência vivida pelas mulheres cotidianamente, sob o silêncio do Estado, em todas as esferas e em todos os seus poderes constituídos; não aceitamos mais sermos mortas e ver os nossos assassinos impunes justo por esse Estado, que reputamos também responsável e cujas mãos estão sangrando o nosso sangue; não aceitamos mais nós mulheres mendigando direitos que nos são garantidos e negados pelo poder constituído. O desembargador se comprometeu a levar essa pauta aos demais órgãos e cobrar agilidade dos órgãos judiciais, onde processos autuados pelas mulheres descansam nas profundas gavetas institucionais.

Entrecultura: Como foi o I Seminário da Frente Popular de Mulheres contra o Feminicídio?

L.L: Nossa pauta é conhecida: nem uma mulher a menos! O Estado, que nós também mantemos, não pode continuar sendo cúmplice de assassinos e opressores. O primeiro Seminário da Frente Popular de Mulheres Contra o Feminicídio aconteceu no dia 28 de julho, com participação de cerca de 40 mulheres. Foi um momento mágico, cheio de sororidade e de extrema importância para o nosso fortalecimento. Conversamos muito, contamos as histórias das nossas vidas, sempre permeadas por violência de todas as formas. Um momento também de muita cumplicidade, amor e carinho. Choramos, rimos, cantamos, nos solidarizamos e planejamos nossos próximos passos.

Entrecultura: Quais os planos do grupo para este momento?

L.L: Neste momento estamos construindo nossa participação no Festival Pela Vida das Mulheres, que acontece em todo Brasil, a partir de Brasília, onde acontecerão, no Supremo Tribunal Federal, audiências públicas para debater a ADPF 442, pautada pela descriminalização do aborto. Fizemos aqui em Teresina uma roda de conversa no último dia 03 e faremos um ato público nesta segunda-feira (06). Seguimos nessa caminhada, sabendo que, quando as mulheres avançam, ninguém retrocede. Até que todas sejamos livres! Nenhuma mulher e nenhum direito a menos!

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