O que vem depois do ódio? Entrecultura entrevista Marcelo Yuka

Por Redação Entrecultura - 26/08/2018 07h00

O que vem depois do ódio? Há 18 anos, Marcelo Yuka foi atingido por esse ódio, no mesmo Rio de Janeiro onde, neste ano, sua amiga Marielle Franco foi assassinada. Hoje, Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana se prepara para o que deve vir depois, e, nesse espírito, lançou o disco “Canções para depois do ódio”.

Marcelo Yuka (Foto: Daniela Dacorso)

Músico, compositor, palestrante e poeta. Assim ele se apresenta, sem citar sua recente imersão no campo das artes plásticas. Olhando para trás, não se pode falar da história de Yuka sem mencionar a banda O Rappa, da qual foi baterista e principal compositor até ficar paraplégico, após ser baleado em uma tentativa de assalto. Nesse grupo, compôs canções que retrataram muitos sentimentos nos anos 90, sobretudo o da indignação. Após O Rappa, lançou um CD com a banda F.U.R.T.O. em 2005, até chegar em 2017, com seu trabalho solo, porém, coletivo.

Marcelo Yuka nunca parou de se movimentar. Na política, já pleiteou o cargo de vice-prefeito do Rio de Janeiro (RJ) pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) ao lado de Marcelo Freixo, experiência que não quer repetir. “Nem se estivessem matando minha mãe”, é o que diz.

O artista concedeu uma entrevista ao Entrecultura, onde falou sobre música, artes plásticas, política, esperança e deixou um recado à juventude que curte Rock: “Aquele moleque que não teve chance de pagar a entrada do show, que arrebente a porta com três acordes!”. Confere!

Entrecultura: Como foi o processo de criação do seu mais novo álbum “Canções para depois do ódio”?

Marcelo Yuka: Vasto, cansativo, foi uma busca por timbres, que eu jamais faria isso outra vez, mas, me deu muito orgulho. Foi muita dedicação, entrega, você pode dizer que não gosta, mas não que eu não trabalhei, eu me dediquei muito.

Entrecultura: Qual sua relação com cada um dos convidados que participou do disco?

M.Y: Foi só com amigos, então ficou muito mais fácil, as pessoas tinham propriedade sobre as canções, a troca foi fácil.

Entrecultura: Como você avalia o atual cenário do rock nacional?

M.Y: Tem sempre gente fazendo coisa legal. Eu só espero que venha uma coisa forte o suficiente para destruir essa porrada de sertanejo que está aí. Eu já vi isso acontecer antes, a música mainstream mudar várias vezes, e a gente tá precisando disso, de uma molecada que ouse dizer de novo “que país é esse”, que mude tudo. Aquele moleque que não teve chance de pagar a entrada do show, que arrebente a porta com três acordes.

Entrecultura: O que você ouve de música atualmente?

M.Y: Ouço muita música eletrônica, ao mesmo tempo em que ouço música étnica, gosto muito de música regional de qualquer lugar, do Japão, da Síria…

Entrecultura: Você também está produzindo nas artes plásticas. Fale um pouco sobre essa experiência.

M.Y: É muito natural. Como portador de uma doença incurável eu me vi procurando outras superfícies para me expressar, porque tenho que trabalhar muito para poder me impor, eu não tenho aposentadoria. Então, comecei brincando, só que as pessoas foram vendo, avaliando e isso me dá muito orgulho. E onde isso vai parar eu não sei.

Arte de Marcelo Yuka (Foto: Instagram/Marcelo Yuka)

Entrecultura: Como está sua militância política?

M.Y: Acabamos de montar um espaço de um certo ativismo na internet. No primeiro dia de jogo do Brasil nessa Copa a gente fez um debate, colocando no ar várias torcidas, que, antes de mais nada, são antifascistas Em breve vocês vão ter vários debates disponíveis, que são feitos no espaço que criei aqui dentro de casa.

Entrecultura: Você já disputou eleições municipais pelo PSOL ao lado de Marcelo Freixo. Se candidataria novamente?

M.Y: Jamais, de jeito nenhum, de forma alguma, nem que estivessem matando minha mãe eu faria isso.

Artista lançou CD “Canções para depois do ódio” (Foto: Instagram/Marcelo Yuka)

Entrecultura: Você era amigo de Marielle Franco. Diante do que vem acontecendo, não só no Rio de Janeiro, o que você acha que vem depois do ódio?

M.Y: Eu sou um poeta, sou um artista, o que me cabe cada vez mais é sonhar, é a utopia. A utopia me alimenta, então eu tenho que sonhar com uma coisa depois dessa polaridade que está aí, uma coisa depois do Temer. Tenho que sonhar e propor esse mundo, com um propósito extremamente político, radicalmente político. Faça uma criança acreditar que isso que está aí não pode, para ver se ela não cresce querendo mudança! Eu estou nessa, quero propor um mundo depois desse.

Entrecultura: Quais os projetos para o próximo semestre?

M.Y: Vou continuar com a banda, fazendo shows. Onde a gente toca, querem nos levar de novo, e isso é bom. Vamos aí procurando um lugar alternativo que nos queira até o ano que vem, quando a gente pode fazer um novo disco.

 

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