Aurora: primeiro longa-metragem da Escola de Teatro Gomes Campos estreia em janeiro de 2019

Por Redação Entrecultura - 10/10/2018 00h10

No dia 12 de janeiro de 2019 estreia o primeiro longa-metragem produzido pela Escola Técnica Estadual de Teatro Gomes Campos: Aurora, dirigido por Robinson Levy. Baseado em uma peça de teatro de Ítalo Leite, intitulada Corredor Polonês, o filme de suspense conta a história de uma família e seus segredos e dramas, ambientado em um velho casarão.

“O casarão de Aurora é o lar da mentira, da dor, da hipocrisia, do ódio, do desespero”, declara o diretor Robinson Levy sobre o filme. Ele bateu um papo com o Entrecultura, e deu detalhes sobre a concepção, produção e gravação do longa. Olha só!

Entrecultura: Como o filme Aurora foi idealizado?

Robinson Levy: A ideia de se fazer uma adaptação da peça original para o cinema vem desde a época do grupo de teatro Circo Negro, que montou a peça Corredor Polonês [de Ítalo Leite] pela primeira vez, eles até iniciaram algumas gravações na época, mas não concluíram o projeto. Em 2013 eu entrei para o Núcleo de Estudos Dramático, da Escola de Teatro Gomes Campos, que estava remontando a peça com a direção de Chiquinho Pereira. Como já trabalhava com audiovisual, o próprio Chiquinho pediu para que eu levasse uma câmera para registrar as cenas já pensando em possíveis planos e linguagem para uma futura adaptação cinematográfica. Em 2015, num momento em que o grupo não estava fazendo muitos trabalhos, já se iniciavam as primeiras conversas de fazer vídeos poéticos, exercícios teatrais filmados, esquetes e também uma versão filmada e mais curta da peça Corredor Polonês para criarmos um canal no YouTube com esse material, que serviria apenas para divulgação do grupo. E foi numa bela e quente noite em setembro de 2015 que eu assisti, sem saber, as duas obras que inspirariam profundamente Aurora: o filme Gummo, do diretor Harmony Korine, que tinha exatamente o choque, o escárnio, a sujeira e o desprezo pela humanidade frente a questões familiares, sociais e sórdidas que eu queria passar no filme; e o curta Secret Project, do fotógrafo Steven Klein, que tinha a linguagem e a estética fotográfica que eu estava buscando para compor esse filme. Aquela noite mudou tudo, porque, depois de assistir as duas obras, Aurora começou a passar, cena a cena, na minha cabeça. Na mesma noite comecei a escrever e quando vi já tinha 3 cenas. Mostrei elas para o Edinho do Monte, coordenador do Núcleo, que gostou muito, depois para o Chiquinho Pereira, e logo já tínhamos carta branca para dar continuidade no roteiro e iniciarmos o projeto. Quando assumi a direção geral, abandonei imediatamente a ideia de um vídeo para o YouTube e começamos a produzir um longa. Assim nasceu Aurora.

Entrecultura: Como foi esse processo de traduzir a linguagem do teatro para a do cinema?

R.L: Desde o inicio, já estava bem claro na minha cabeça que eu não gostaria de simplesmente fazer a peça filmada: as mesmas cenas, mesmo roteiro, a única diferença sendo a filmagem em uma casa normal, não em um palco. Isso de cara já não me fazia sentido. O texto original do Ítalo é muito pesado, muito denso, tem muita energia. Cada personagem, na peça, tem um monologo, e é nessa hora que eles escancaram seus segredos mais sórdidos, onde eles arrancam suas máscaras. Foi a partir desses monólogos (que tentei preservar ao máximo o texto original do Ítalo) que quis desenrolar a história, entrar na mente desses personagens, aparentemente bem criados, ricos, de família tradicional, mas que na verdade guardam segredos terríveis que vão consumindo eles cada vez mais. Uma vez que tenho acesso tão profundo a psique desses personagens, foi muito mais fácil criar a atmosfera das cenas em que cada um deles estaria. A ideia era também transformar em cena alguns acontecimentos que os personagens apenas relatavam na peça, que no filme viraram cenas extremamente importantes para o desenrolar da historia. O texto do Ítalo é bem complexo e generoso, 80% do roteiro do filme já estava ali nas entrelinhas de alguma forma. Só precisava que alguém conseguisse enxergar.

Frame do filme Aurora (Foto: Robinson Levy)

Entrecultura: Aurora foi concebido na Escola Técnica Estadual de Teatro Gomes Campos. Qual a importância da instituição para esse projeto?

R.L: Foi lá onde tudo começou. Não fosse pela escola essa peça jamais teria chegado às minhas mãos. A escola nos deu espaço físico para ensaiar e preparar os atores, a escola nos deu todo suporte burocrático para conseguirmos nossas locações. Nosso preparador de elenco, Edinho do Monte, é professor da escola de teatro e sem o cuidado e o preparo que ele dá aos nossos atores nas gravações e sem o conhecimento gigantesco que ele tem sobre o cinema, nós nunca chegaríamos tão longe. Eu também serei eternamente grato ao Chiquinho Pereira, diretor da escola, que me deu de presente essa tarefa, que mudou minha vida de formas que eu nunca imaginei (e olha que nem estreamos o filme ainda!). Aurora já é um divisor de águas na minha vida e sem a Escola de Teatro Gomes Campos isso nunca teria sido possível.

Entrecultura: Falando agora sobre a gravação do longa, como se deu a seleção do elenco?

R.L: Inicialmente, o elenco do filme seria o mesmo da peça, mas pelo cinema ser uma linguagem mais realista, alguns atores não tinham ou a idade ou biotipo necessário para os personagens, ou simplesmente não conseguiam encontrar a personagem. Fomos fazendo testes com novas pessoas, convidando outros. Eu, Edinho do Monte e Célia Lopez, que também é produtora do filme, ficávamos pensando em possíveis nomes que esteticamente se enquadravam nos personagens e assim fomos construindo e reconstruindo o elenco, até que no inicio de 2016 conseguimos ter o elenco final.

Cena do filme Aurora (Foto: Robinson Levy)

Entrecultura: Desperta curiosidade o casarão onde é ambientado o filme. Fale um pouco sobre esse lugar que escolheram.

R.L: O filme conta a história de uma família tradicional piauiense, falida, que vive em um casarão velho, decadente, mas se acham ricos e prestigiados por terem um nome. Na visão católica/cristã, a casa é o templo da família, é o lar do amor, do respeito, da felicidade, o símbolo máximo da família tradicional cristã. Mas é nesse lugar de tanto amor que acontecem as coisas mais terríveis dessa família, é lá onde eles tentam esconder os horrores que habitam em cada um. O casarão de Aurora é o lar da mentira, da dor, da hipocrisia, do ódio, do desespero. O casarão é, na verdade, a prisão de todos eles.

Entrecultura: Encontrou alguma dificuldade na concepção desse filme?

R.L: Muitas. Nós regravamos quase todas as cenas do filme por causa da troca de elenco. Foi muito complicado, nós temos um elenco de oito atores, e manter essas pessoas unidas durante três anos com praticamente nenhum retorno financeiro, foi difícil. Graças a Deus os que ficaram foram os guerreiros, os que vestiram a camisa do projeto, os que acreditam muito nesse projeto e tem certeza do bonito trabalho que estamos construindo. Também tivemos muito trabalho para fechar agenda de gravação, arrumar alguns adereços, locações que não permitiram filmagens, limitação dos nossos equipamentos. Mas, o pior momento foi quando eu tive o HD que guardava todo o material do filme misteriosamente roubado. Fiquei sem chão, sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Passei três dias trancado no quarto, depressivo, sem saber como ia dar essa noticia para o elenco. Para mim, o projeto tinha acabado, me sentia derrotado. Mas, por ironia do destino, eu abri um notebook que não usava mais para ver se tinha algum material salvo nele e todas as filmagens de todos os dias estavam lá. Foi como voltar a viver. Em compensação, aconteceram mais coisas legais que ruins e todas as adversidades só serviram para nos fortalecer mais.

Entrecultura: Onde poderemos assistir Aurora?

R.L: Aurora estreia dia 12 de Janeiro, às 19 horas, no Theatro 04 de Setembro. Após essa data ele vai ficar em cartaz nas salas de cultura da cidade, se deus quiser em algum de nossos cinemas também, e em todos os festivais de cinema que pudermos participar mundo afora.

Mais informações:

www.aurorafilme.com

FICHA TÉCNICA:
Gênero
Suspense/Drama
Produção Cinematográfica
Experience Creative Studio
Sinopse
Um velho casarão é palco terríveis segredos. Aurora (Luisa Batista) é filha de Rogéria (Maria Miriam), morta no parto por médicos corruptos. Sua filha é entregue a Irene (Tercia Ribeiro), matriarca de uma tradicional família aristocrata piauiense. O tempo passa, Aurora vive com seus pais e irmãos; todos guardam segredos obscuros, a situação se torna insustentável, até que um crime acontece e as paredes do velho casarão começam a revelar os mais ocultos segredos dessa família. Inspirado na obra de Ítalo Leite, “Corredor Polonês”, Aurora é um filme de Robinson Levy, com produção cênica de Célia Lopez, preparação de elenco de Edinho do Monte e produção cinematográfica da Experience Creative Studio em parceria com a Escola Técnica de Teatro Gomes Campos.
Elenco
Luísa Batista, Maria Miriam, Célia Lopez, Giordano Gabriel, Márcio Felipe, Susy Gomes, Sérgio Santhos, Tercia Ribeiro e Adelina Barbosa.
Elenco Infantil
Rafaela Moura, José Neto, Luana Moura, Sofia Rêgo
Direção de
Robinson Levy
Escrito por
Robinson Levy
Produzido por
Célia Lopez
Direção de Elenco
Edinho do Monte
Adaptado da Obra
“Corredor Polonês” de Ítalo Leite
Edição e Fotografia
Robinson Levy

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