Quem dera fosse uma declaração de amor: série Yolanda mostra artista reconhecendo seu novo antigo lar

Por Redação Entrecultura - 02/11/2018 00h10

“Não é só sobre executar uma obra, o trabalho é sobre a convivência. E está surpreendente”, assim a artista Sayara Elielson Pacheco define Yolanda, série de 16 episódios lançada no Youtube, onde a dançarina e coreógrafa surge, através da dança, de cores, texturas e memórias em um ambiente familiar: sua residência no bairro Vermelha, zona Sul de Teresina. O Entrecultura foi até essa casa conversar com Sayara, que nos recebeu calorosamente em uma tarde quente de sexta-feira.

Cheguei no endereço às 15h30min. Bati na porta, que foi timidamente aberta pela dona Conceição de Maria, mulher que poderia ser apenas a tia de Sayara, mas, é aquela quem assina, junto da artista, a direção da série. Sem experiência alguma, dona Conceição filmou toda a série com uma câmera de celular. Ela me leva até a cozinha e chama pelo sobrinho, que aparece em poucos segundos, trazendo o pai, Cézar Vieira Gomes, que estava no quintal ouvindo música.

Sentamos na cozinha. Eu, Sayara, Conceição e uma garrafa de água gelada na mesa. Iniciamos a conversa e o pai (de volta no quintal) percebe e desliga o som, no que Sayara intervém. “Tá tão bom esse som, pai! Pode deixar assim, baixinho”. O cenário estava completo para a agradável conversa que se seguiu.

Sayara completou 20 anos de carreira artística. Após a vivência marcante no Núcleo do Dirceu, espaço coordenado por Marcelo Evelin que formou artistas e inseriu o Piauí no circuito da dança, a artista passou por um momento de busca, tentando se reencontrar. “Em 2014 o Núcleo do Dirceu se desfez e de lá pra cá demorou um tempo para eu me reencontrar, porque lá foi um lugar onde dediquei todas as minhas energias, tive um aprendizado muito forte. Eu fiquei repensando os lugares por onde passei, o que me constituiu, o momento em que estou agora e me perguntando o que era possível fazer em termos de criação artística a partir da realidade que estava vivendo, a  gente vai vivendo nosso cotidiano e não se toca do que realmente nos atravessa. Fiquei meio perdido por um tempo, só indo aos lugares, convivendo com o que acontecia na cidade: o Salve Rainha, o JUNTA [festival de dança], o Espaço Balde, o Canteiro, o Campo…”, relata.

Série foi toda filmada pela tia de Sayara (Foto: Conceição de Maria)

Nessa procura, em 2016 um fato novo sacode Elielson e começa a definir seus próximos passos na arte: a doença do pai, que fez o artista voltar para casa. Ali nascia Yolanda. “Decidi deixar a universidade para cuidar dele e tive que abandonar um processo criativo. Fiquei cuidando do meu pai no hospital, me voltei para a leitura e, ouvindo músicas, comecei a criar um roteiro. Então decidi: já que eu ia precisar ficar em casa, eu ia filmar alguma coisa em casa. É muito sobre olhar para as coisas de outra maneira, sabe?! Eu poderia ter entrado em uma de não conseguir produzir, mas arte para mim é esse exercício, de como eu posso olhar para essa experiência de uma outra forma. Por exemplo, o episódio seis é uma reconstituição dos cuidados que eu fazia com o pai na cama. A Yolanda é isso, é sobre esse meu percurso artístico, uma maneira de acessar memórias artísticas e o que vivo agora, assimilar a casa, aceitar esse momento de voltar a viver com a família”, reflete.

Sayara. Elielson. Yolanda. Pergunto se seria um terceiro nome artístico. “Nesse processo de memória resgatei a canção Yolanda, [do músico cubando Pablo Milanés, traduzida por Chico Buarque], a família da minha mãe gosta muito dessa música e nas reuniões familiares essa música sempre rolava e eu sempre me arrepiava muito, porque via todo mundo cantando com o coração. Eu já estava pensando no nome da série e queria colocar  um nome próprio, e em um dia que meu irmão viria aqui eu pedi para ele trazer o violão, e a primeira música que ele dedilhou foi essa. Veio aquela memória que arrepiou e decidi apostar nesse nome. Também é como me dar um terceiro nome, Elielson, Sayara, Yolanda”, explica.

Artista busca se reencontrar com o lar familiar (Foto: Conceição de Maria)

Em determinado momento, Sayara se dirige a tia. “A senhora não quer falar, tia? Fala um pouco”. A mulher tímida então começa a falar, iniciando pela sua relação com o sobrinho, que foi se estreitando até culminar com a parceria nesse trabalho. “Aqui são dois irmãos, Elielson e Cézar Filho, mas sempre me dei melhor com Elielson, ele é carismático, esse sorrisinho aí ele tem desde sempre. Eu frequentava muito a casa dele e um dia ele chegou e me disse ‘tia, eu sou gay, e eu só disse ‘o que é que tem, meu filho?’”, relembra.

Aos poucos, a tia foi se interessando pelo trabalho de Elielson, especialmente pela Sayara. “Quando ele disse assim ‘tia, a senhora é quem vai filmar’ eu disse ‘eu topo, mas não sei de nada’. Simplesmente peguei o celular e saí filmando. Eu disse ‘Elielson, meu filho, você tem tantos amigos experientes, porque eu?’ E ele, ‘ tia, é a senhora mesmo’. Sou leiga, não sei de nada. Ele me ensinava e eu ia fazendo, gostei muito e aprendi mais sobre a pessoa. Do Elielson eu sei, mas da Sayara não sabia nada”, afirma.

Série está disponível no Youtube (Foto: Conceição de Maria)

Yolanda é uma série cheia de detalhes preciosos, como a trilha sonora original, composta por Sayara no piano. O roteiro foi inspirado em outros trabalhos dos quais a artista já participou de alguma forma. “Três trabalhos me levaram para esse lugar da Yolanda: o Tumate, uma dança que eu fiz em parceria com o coletivo Salve Rainha, com assistência do Dudu Moreira; o Montaria, um solo feito pela Chandelly Kidman; e A Pequena Morte, espetáculo que eu comecei no Balde e não consegui concluir. Acho importante falar isso, porque às vezes as pessoas pensam que os trabalhos saem do nada, mas não, tem um percurso e é importante desenhar esse percurso, de onde você está vindo”, declara.

Um episodio é lançado a cada sábado, até o final de dezembro, quando finaliza a primeira temporada. O seriado também está disponível na plataforma de comunicação popular Ocorre Diário, onde a artista coloca referências artísticas utilizadas em cada composição. Sayara deixa aberto se  dará continuidade, talvez isso não importe para a artista. “O trabalho é sobre a convivência, não é só sobre executar uma obra. E está surpreendente. Ver meu pai a beira da morte me fez pensar que a vida pode ser mais simples, esses momentos que  gente vive são chamados para refletir como estamos levando nossa vida”, finaliza.

 

Por Thais Guimarães, do Entrecultura

Comentar