No Dia Nacional da Cultura, Entrecultura quer saber como ela lhe constrói

Por Redação Entrecultura - 05/11/2018 08h00

Neste 05 de novembro, marcado como o Dia Nacional da Cultura, não é possível (nem suficiente) festejar, celebrar, sem fazer reflexões de avaliação e perspectiva. Em um cenário onde a as manifestações artísticas encontram mais dificuldade para seguirem (re)existindo, onde parte da própria sociedade põe em dúvida a importância da cultura para a construção de um mundo  livre e justo, é preciso pensar, levantar e responder: como a Cultura te constrói?

 

Marleide Lins – Poetisa e escritora

 

“A cultura, além das manifestações estéticas de arte, é o que produz sentidos e significados. É o modus vivendi. Assim sendo, não é estática. É o presente e a própria vida em movimento. Nesta transitoriedade e mutação, há momentos que ela nos é imposta. É necessário ruminar esse alheio que não nos acrescenta e por para fora o que não nos identifica. Estamos vivenciando um momento em que o “vencedor” busca silenciar várias vozes multiculturais. Se não resistirmos, com o passar dos anos, internalizaremos uma cultura reacionária e opressora. Se fere a minha liberdade de expressão, existencial e cultural, sou iconoclasta. Nem perderei tempo a ruminar o intragável, destruirei, desconstruirei. A minha cultura é construída, diariamente, por meio das ricas inter-relações com o outro, especialmente, pelas trocas que realizo em comunidades tradicionais étnicas, ancestrais, indígenas ou quilombolas. Bebo dessa centrifugação de conhecimentos, com notas urbanas e periféricas. Eis o que alimenta e constrói a minha palavrATO”.

 

 

Dorneles França (Nêgo Doka) – Rapper

“Quando a cultura Hip Hop entrou na minha vida me tornou uma pessoa melhor, mais ativa, com um senso crítico mais apurado e que tem a opinião formada de acordo com o que acontece. Essa secundarização que a cultura sofre a gente vem quebrando e vamos fazendo algo que possa fortalecer não apenas nossa comunidade, mas nossa cidade, em termos de Brasil mesmo e até mundial, porque não?! A cultura vem nos construindo e fazendo com que a gente quebre as barreiras, estamos aí fazendo acontecer, como vocês vêm acompanhando e fazendo com que as coisas andem, apesar da dificuldades. Viva a cultura, o Dia da Cultura, e que todas elas sejam honradas”.

 

Fábio Christian – Músico e compositor

“A cultura me constrói de forma constante, mutável, de forma multidisciplinar e multidirecional, se considerarmos que a cultura é um complexo sistema que inclui arte, crença, conhecimentos, leis, técnicas, moral e formas de pensar. Me constrói através dos valores familiares, ainda que eu não me inclua naqueles valores, essa reação, da negação, também constrói minha cultura individual e estabelece a qualidade da cultura que quero em comum com aquelas pessoas. Me constrói através dos dogmas e das várias possibilidades de religião, inclusive a de não tê-la. Me constrói através dos compartilhamentos de conhecimento e informação, sejam elas música, cinema, teatro, literatura, política, jardinagem, filosofia, e quanto mais eu me deparo e me pré-disponho a esse compartilhamento, minha capacidade cultural se amplia. Geralmente há a associação instantânea entre arte e cultura, nem toda cultura é arte, mas toda arte é cultura. Minha construção cultural individual é fomentada, arquitetada e construída através da interferência cultural coletiva e se reflete diretamente na forma, no pensamento e na qualidade do meu trabalho artístico. Fazem parte da minha cultura individual,  a transformação do meu cotidiano, da minha vida pessoal e de meus posicionamentos em trabalho artístico. Como pessoa física, meu aspecto cultural principal é ser ateu e incluir nas minhas lutas individuais as lutas coletivas!”.

 

João Vasconcelos – Diretor do Theatro 04 de Setembro

“A cultura me constrói no dia a dia, no meu cotidiano, nas relações familiares, que seguem para a cultural, fazendo um passeio pelo teatro, pela música, pela dança, pela permanência da cultura popular. O primeiro passo da cultura acredito que seja no seio da família, essa reunião é cultural, essa forma de estar em contato com seu ente querido, valorizando as pessoas que têm mais idade e experiência. Com essa desvalorização da cultura que há em todas as gestões país afora a gente perde, agora mesmo, nesse momento está morto o Ministério da Cultura e agora e ele vai ser enterrado de vez, um caos, porque os gestores políticos não entendem que cultura é investimento, você salva muitas pessoas de irem para áreas de risco, a cultura é um elo de enriquecimento e salvamento da vida humana. Ela me constrói me tornando um ser mais humano, mais perceptivo, me evolui, eu diria”.

 

Guga Carvalho – Coordenador de Artes Visuais da Fundação Cultural Monsenhor Chaves

“Creio que cada um de nós, agentes, envolvidos na cultura hoje no Brasil, seja artista, produtor, pesquisador , gestor etc. , tem pela frente o desafio de salvaguardar o princípio básico de toda e qualquer forma de arte: o exercício da liberdade. Na história do nosso país, foi justamente nos momentos mais tensos de censura que afloraram grandes movimentos culturais, como o Cinema Novo e a Tropicália, por exemplo. A história da cultura brasileira é uma história de resistência. É super louco pensar que a banda Secos e Molhados, com toda aquela irreverência, surgiu em plena ditadura e galgou seu espaço. O Brasil é um país paradoxal que, como dizia Tom Jobim, não é para principiantes”.

 

Patrícia Mellodi – Cantora e compositora

“Sou um exemplo típico de uma pessoa e cidadã construída a partir da cultura. Nunca fui alguém comum, e de valores do senso comum. Mas não entendia os motivos dessa inadequação, dessa angústia em meu peito que dizia que eu deveria ir além, deveria saber mais sobre as coisas. Não fui estimulada a leitura com vigor, nem frequentei a espetáculos de teatro, nem museus e outros durante a infância, até porque não venho de uma família muito cultural, a época também não favorecia, e a tecnologia nem sonhava em surgir, ou melhor, sonhava um sonho distante. Porém, minha mãe era bem artística e ligada a poesia, a música, me colocou no balé, no jazz, e mais tarde por vontade própria fui bater na escola de música de Teresina. Aí tudo mudou. Uma adolescente com um violão no colo pode mudar um mundo. E eu vi que eu não era inadequada, eu era especial. A música me salvou da mediocridade do mundo e das minhas próprias dores e dificuldades. A música foi meu viés de descobertas culturais e humanas. Era e ainda sou uma pesquisadora curiosa e disciplinada, estudei movimentos, autores, estilos, para muito além de toda a cultura pop e de entretenimento que bombava nos anos 80 e 90. E daí, muitas descobertas transformaram minha cabeça, romperam preconceitos, compreendi a importância das etnias e sua cultura em um pais como o Brasil, e depois disso não se é o mesmo. O samba, o choro, o jazz, a bossa nova, a música mineira era fascinante e ainda é. Mas nunca quis saber só de música, pois nenhum movimento se constrói por si só, movimentos envolvem outras artes, como a literatura, as artes plásticas, a filosofia… E uma coisa levou a outra. Passei a conviver com amigos muito cultos e culturais e corria atrás do meu prejuízo sempre, queria entender, falar, escrever, e, claro, compor com qualidade e conteúdo, pois comecei a observar que sucessos de massa vindos do entretenimento passam, mas a cultura é eterna, é para a posteridade. A cultura é a nossa alma, a que deve ser preservada, a que não deve ter o lucro como prioridade, mas o conhecimento e a transformação. Cultura deve ser subsidiada, pois em geral cultura faz parte de uma formação digna e transformadora. Que o país saiba em seu novo momento entender isso, e salvar suas crianças, o futuro do nosso povo, a sua memória”. 

 

Demetrios Galvão – Poeta e professor

“Há duas décadas tenho significado e dado sentido a minha vida a partir do universo artístico-cultural. Construo a minha existência no diálogo permanente com a literatura, a música e as artes visuais. Enxergo o mundo pelas lentes da poesia e pelas sensibilidades que a arte me provoca. Então, posso dizer que ao passo que produzo cultura, também sou construído por ela, não só antropologicamente, mas artisticamente. Tenho esse entendimento como uma atitude diante do mundo e levo isso comigo para todas as instâncias da vida”.

 

Roney Rodrigues – Ator e produtor cultural

“A cultura foi e é o principal pilar para a construção da minha identidade, em destaque a arte que está em tudo o que eu faço. É triste ver a desvalorização da cultura em um país que, tendo tudo para ser um triunfo cultural, se abstém da sua própria riqueza”.

 

Tauana Queiroz – Instrumentista e jornalista

 “A cultura me constrói a medida que faz eu me reconhecer no meu espaço, no meu dia a dia, na minha cidade, com as pessoas que estão ao meu redor.  Como música que sou, a música regional, mais especificamente, da raiz nordestina, o pé-de-serra, pífano, baião, as cirandas, são elementos que me proporcionam uma experiência de reconexão com minha ancestralidade, com meu povo. Espero que permaneça para que a gente nunca se esqueça de onde veio. Existe sempre esse elo em relação as músicas. A música resgata memórias e através dela podemos revisitar tempos passados, e no período em que vivemos hoje, de ameaças, perda de direitos, ameaças físicas e verbais a muitos grupos, revisitar esse passado é preciso, é necessário, urgente. Precisamos revisitar, reconstruir, readaptar essa linguagem que já foi utilizada, trazendo para nosso contexto para falar com as pessoas de hoje”.

 

E é assim, compartilhando vivências que o Entrecultura pretende seguir. Além de tentar divulgar as manifestações artísticas em toda a sua pluralidade, enquanto tecnologia midiática que se propõe a pautar Arte e Cultura, nosso papel, diríamos obrigação, também é provocar debates, gerar reflexões, por acreditarmos que a Cultura possui papel central no avançar da consciência humana. Dito isso, pensa aí: como a Cultura te constrói?

 

Comentários

João Vasconcelos

PARABÉNS!!!

05 nov, 2018 Responder

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