Entrecultura entrevista Chaim Litewski, diretor do documentário Cidadão Boilesen

Por Redação Entrecultura - 30/12/2018 00h10

Chaim Litewski, renomado diretor de cinema e televisão, esteve em Teresina no dia 12 de dezembro, participando de uma sessão com debate nos Cinemas Teresina mediada por Douglas Machado, onde foi exibido o premiado documentário Cidadão Boleisen (2009), que conta a história de Henning Albert Boilesen, presidente do grupo Ultra executado pela esquerda armada em 1971. No filme, o diretor investiga as ligações do executivo com a ditadura civil militar. Litewski, que trabalhou na ONU e já cobriu conflitos em mais de cem países, já tem uma relação com o Piauí: foi diretor da Fundação Antares entre 1987 e 1988. Foi sobre estes e mais assuntos que ele conversou com o Entrecultura. 

Chaim Litewski e Douglas Machado (Foto: Aureliano Muller)

Iniciamos nossa entrevista falando sobre a razão pela qual ele estava de volta ao Piauí: o filme Cidadão Boilesen. Litewski lembra que era criança quando teve o primeiro contato com a figura de Henning Boilesen. “Quando eu era criança no Rio de Janeiro, a gente consumia, como a maior parte dos brasileiros naquela época, o botijão de gás, comprávamos da Ultragaz. Eu soube que o presidente do grupo era um dinamarquês, meus pais eram europeus, refugiados da Segunda Guerra Mundial, então tinha uma afinidade. A Dinamarca era um país pautado pela social democracia, mas quando a gente via o Boilesen no período da ditadura no Brasil ele estava sempre acompanhado de militares, a gente não entendia como um cara de um país liberal se misturava com militares e quando ele foi assassinado eu realmente parei para pensar. Na época eu tinha uns 16 anos de idade e já se falava um pouco da ligação dele com o aparato repressivo, isso não era dito nos jornais por causa da censura, mas a gente ouvia o disse-me-disse das pessoas, e no próprio obituário dele já se falava em uma possível ligação sua com a Oban [Operação Bandeirantes] que foi um grupo criado para reprimir os insurgentes. Isso me chamou muito a atenção: o fato de ele ser dinamarquês e morar no Brasil, o fato de ter sido assassinado e de estar envolvido com aquilo”, recorda. 

Litewski começou a pensar em contar aquela história de alguma forma. A princípio, pensou em um artigo ou livro, mas a proposta ficou engavetada por uns tempos. Após graduar-se em Cinema com especialização em propaganda e conflito pela Polytechnic of Central London (Westminster University) e ingressar na Organização das Nações Unidas (ONU) no início dos anos 90, retomou a ideia, resolvendo fazer um documentário, que começou a ser produzido em 1994.  

Chaim Litewski (Foto: Aureliano Muller)

Em 90 minutos de filme, Chaim Litewski conseguiu reunir 60 entrevistados, incluindo extremos, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de tortura durante o regime militar, e o militante de esquerda Carlos Eugênio da Paz, que diz ter dado o tiro de misericórdia em Henning Boilesen, em uma emboscada feita pela Ação Libertadora Nacional (ALN), grupo ao qual pertencia. 

“O mais difícil de entrevistar, sem dúvidas, foi o Brilhante Ustra, as negociações com a entrevista dele duraram quase três anos e acabou não sendo uma entrevista, acho que foi a primeira vez que ele falava em público daquela maneira. Ele exigiu, e eu concordei, que as perguntas fossem enviadas com antecipação, e ele foi gravado lendo as respostas, o que foi razoável, fiquei feliz de ele ter falado com a gente. Muito difícil também foi a entrevista com o filho do Boilesen, que demorou alguns anos para ser organizada, essas duas foram as mais difíceis. A primeira entrevista que eu fiz foi com o Eugênio, o cara que assassinou Boilesen. Eu não conhecia nenhuma dessas pessoas, de todas, só conhecia o Daniel Aarão Reis, o resto fui entrando em contato, sempre contando a mesma história: quero contar a história do Boilesen, falar sobre a história da Oban e sobre a ligação do aparato de repressão do estado com os empresários. Consegui reunir essas pessoas dessa maneira, contando a verdade sobre o que estava fazendo. Tem um ponto de vista filosófico meu que é: a verdade é inatingível, você nunca consegue chegar na verdade porque ela é de cada um, cada um tem a sua verdade. Esse é o caso do filme. Na minha maneira de entender a história, a coisa mais próxima que podemos fazer para chegar na verdade é ter multiplicidade de visões, então essa foi a filosofia do filme, ter o maior número possível de vozes e vozes distintas, que se contradizem, acho que isso dá liberdade de escolha para quem está assistindo entender do jeito que quiser”, argumenta. 

Durante essa longa produção, o cineasta seguiu com seu trabalho na ONU, por onde vivenciou experiências boas e ruins durante as coberturas midiáticas, dentre elas, uma das piores de sua vida, que foi o Genocídio de Ruanda, em 1994. “Foi péssima. Foi a pior coisa vi na minha vida, eu tive que passar por um tratamento psiquiátrico depois disso. Comecei a entender melhor a vida dos meus pais, que passaram por isso na Segunda Guerra Mundial, falei para eles que finalmente havia entendido, então, minha vida é dividida entre antes e depois de Ruanda. Eu tive três grandes acontecimentos na minha vida: o nascimento dos meus filhos, a perda dos meus pais e o Genocídio de Ruanda”, relata. 

A dificuldade em conseguir todas as entrevistas e informações necessárias sobre o personagem principal, aliada às dificuldades financeiras, fez com que o filme só ficasse pronto em 2009. “Eu fiz o grosso da pesquisa, entrei em vários países com a Lei de Acesso a Informação, entrei nos Estados Unidos, na Inglaterra, aqui no Brasil, para ver o que tinha sobre ele. Em alguns casos demorou muito para as informações serem liberadas, no Brasil demorou uns quatro anos. Tive muita coisa do Departamento de Estado Americano, do Serviço Secreto Inglês, e fui pegando essas coisas, contratando pesquisadores e produtores quando podia pagar, quando não podia pagar o filme parava. Eu não tinha um prazo para finalizar o documentário, era mais um hobby, eu tinha um emprego na ONU e não podia trabalhar em outros locais e fui levando, até que um dia meu afilhado Pedro Asbeg, que é o editor do filme disse: vamos parar por aqui e editar”, relembra. 

Chaim Litewski já cobriu conflitos em inúmeros países (Foto: Aureliano Muller)

No mesmo ano em que o filme foi concluído, o diretor o inscreveu no Festival É Tudo Verdade. “O documentário quase pronto foi submetido ao festival, ganhou, e com o dinheiro do prêmio foi finalizado. Ele teve uma vida que até hoje é impressionante, não deixo de me surpreender com a longevidade do filme, que parece a cada dia ter mais relevância”, avalia Litewski. 

Por fim, Chaim Litewski fala de sua vivência no Piauí, quando dirigiu a TV Antares, na época TV Educativa. O diretor lembra com muita satisfação do trabalho que desenvolveu aqui. “Olha o meu sorriso, quando lembro! Em 1987 o Alberto Silva convidou meu amigo Carlos Asbeg e ele me chamou. Nós tínhamos uma firma juntos e eu estava trabalhando na Globo. Fechamos a firma, eu saí da Globo e viemos para cá, viemos porque tínhamos essa coisa de democratização dos meios de comunicação, de abrir a TV e a rádio para a sociedade. O Alberto Silva foi ótimo e nos deu total autonomia. Lá, todo mundo trabalhava, nunca foi cabide de emprego, todo mundo se dedicava porque entendia nossa proposta, que não era ganhar dinheiro, a gente veio pra cá perder dinheiro, mas realizar um sonho, tentar fazer uma experiência, e a gente produziu pra caramba. Tinha programa infantil diário, programa de entrevista diário, humorístico, minisséries, com duas câmeras e uma ilha de edição. O Piauí foi o primeiro estado fora de São Paulo a transmitir o Roda Viva. Também demos muita sorte em 1987 nos jogos Pan Americanos, teve um problema e a Globo e a Manchete não compraram os direitos e a Educativa acabou comprando. O Brasil ganhou dos Estados Unidos no basquete e o único lugar onde foi exibido foi na Educativa, então isso abriu um público legal na área de esportes. A gente pintou e bordou aqui, foi uma época muito feliz na minha vida, então para mim, me sinto um peixe dentro da água, foi um dos pontos altos da minha vida profissional, uma coisa muito prazerosa. Tenho muito carinho pelo Piauí e estou adorando estar aqui de volta, é minha segunda terra”, conclui. 

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