Após lançar livro na Balada Literária de Teresina, Noélia Ribeiro concede entrevista ao Entrecultura

Por Redação Entrecultura - 02/01/2019 00h10

Atarantada, Escalafobética e Espevitada. Três adjetivos que dão nome a três livros da poeta Noélia Ribeiro, mas que também dizem um pouco quem ela é. “Meus leitores e ouvintes me reconhecem como atarantada (atrapalhada), escalafobética (esquisita) e espevitada (irrequieta). Sou tudo isso mesmo”, é o que diz Noélia.

Noélia Ribeiro (Foto: Mirah Fotografia)

Noélia nasceu em Pernambuco, mas foi na capital federal que se firmou na poesia e nos movimentos culturais. Um fato curioso: ela é a Noélia citada em “Travessia do Eixão”, poema de Nicolas Behr, musicado por Nonato Veras, que foi gravada pelo grupo Liga Tripa e posteriormente pela banda Legião Urbana, em seu último álbum de estúdio.

O contato com alguns amigos piauienses e a realização da Balada Literária no mês passado fizeram Noélia vir a Teresina. Em apenas dois dias, ela participou de sarau, lançou seu livro e ainda tee tempo para se inspirar com o rio Parnaíba e escrever um poema.

Noélia Ribeiro concedeu uma entrevista ao Entrecultura, falando sobre suar origens, sua poesia e demais projetos. Confere!

Entrecultura: Como você começou a escrever?

Noélia Ribeiro: Quando criança, no Rio de Janeiro, ouvir rádio (e acompanhar com uma bateria improvisada) era minha brincadeira preferida. Não por acaso, compus duas canções aos 9 anos. Minha mãe, percebendo meu talento para a escrita, presenteou-me com um caderno. Não parei mais de escrever desde então. A leitura entrou em minha vida no colégio. Aos 17 anos, já morando em Brasília, ganhei o festival do CEMEB, com a letra Humanita Qualquer, musicada pelo amigo Abrahão André. A partir daí, tive mais segurança de mostrar o que eu escrevia às pessoas. Há quem aponte forte influência da música em minha poesia.

Entrecultura: Como é o seu processo poético, da inspiração a escrita?

N.R: Eu não sigo uma rotina de escrita. Quando escrevo um poema, não o considero pronto. Deixo-o amadurecer: pesquiso palavras, rimas; reviso a parte gramatical; leio-o em voz alta; busco sonoridade, ritmo. Se, depois de muitas leituras, o poema não sobreviver, vai para o arquivo, para ser resgatado algum dia.Minha inspiração vem de muitos lugares: de uma expressão, de uma palavra, de uma imagem, de um sentimento, de uma reflexão, de uma lembrança, de um poema que li, de meu contato com as pessoas. Não raro, começo a compor um poema e ele se rebela, escolhe outro caminho. O processo de escrever guarda alguns mistérios.

 

Noélia Ribeiro esteve recentemente em Teresina, na Balada Literária (Foto: Luciana Queiroz)

Entrecultura:  Você lançou o primeiro livro em 1982, e o segundo só veio em 2009. Essa pausa nas publicações foi natural? Nesse meio tempo, como estava o seu fazer poético?

N.R: Em 1982, quando publiquei o “Expectativa”, eu convivia com poetas e músicos e cursava Letras na UnB. Alguns anos depois, dei uma pausa para priorizar outros projetos que acabaram por me levar a um novo emprego, a um casamento longo e à criação de dois filhos maravilhosos. Durante esse tempo de “reclusão”, li e escrevi menos do que gostaria. O universo feminino oferece desafios. Temos de fazer escolhas. Em 2009, em plena separação e mudança de casa, publiquei o “Atarantada”. O lançamento marcou meu retorno à convivência com escritores e artistas da cidade e o início de minha atividade como poeta recitadora. Hoje, aposentada e com filhos praticamente criados, consigo me dedicar mais à poesia.

Entrecultura: Atarantada, Escalafobética e Espevitada, títulos de três livros seus, são palavras que remetem a movimento, inquietude, e ao mesmo tempo parecem falar sobre você. Qual o significado desses nomes nestas suas obras?

N.R: Tudo começou por acaso. O primeiro livro ia se chamar “Sorriso de Desconhecido”. Por sugestão de uma amiga, mudei o título para “Atarantada”, porque já havia no livro um poema com esse nome. Os outros dois: “Escalafobética” e “Espevitada” foram escolhidos antes da criação do poema. Cabe esclarecer que eles não têm uma sequência, são independentes. Amo as palavras e, por conseguinte, os dicionários. Os nomes de meus livros demonstram esse amor, assim como um pouco do que sou. Meus leitores e ouvintes me reconhecem como atarantada (atrapalhada), escalafobética (esquisita) e espevitada (irrequieta). Sou tudo isso mesmo!

Entrecultura: Esses livros citados formam uma trilogia? Como isso foi construído?

N.R: Sim. A trilogia começou por acaso, como falei anteriormente. Fui gostando da ideia de fazer uma trilogia de livros com nomes exóticos. O próximo livro representará uma quebra nesse processo, porém nada impede que, futuramente, eu faça outra trilogia.

 

Capa do livro Espevitada

Entrecultura: Recentemente, você esteve em Teresina, participando da Balada Literária, ocasião em que lançou o livro Espevitada. Conta um pouco dessa experiência.

N.R: Já queria viajar para o Nordeste há muito tempo. Minha ideia era ir a Recife, onde nasci, mas, ao saber da Balada Literária, em Teresina, entrei em contato com o Demetrios Galvão e com o Kilito Trindade e me organizei para assistir ao evento. Por fim, o Wellington Soares, um dos curadores da Balada, incluiu o lançamento de meu livro na programação e ainda convidou-me para fazer parte de uma mesa de conversa com as poetas Alice Ruiz e a Graça Vilhena. Houve também um recital de encerramento, no qual recitei três poemas de minha autoria. Fui muito bem recebida em Teresina. A poesia tem esse poder de unir as pessoas.

Entrecultura: Essa visita ao Piauí rendeu um poema, “O Parnaíba”. Como nosso rio te inspirou?

N.R: Pois é. Publiquei o poema no Facebook, porque senti enorme necessidade de registrar a existência de um rio que divide dois estados brasileiros: o Piauí e o Maranhão. Isso me emocionou! Eu ia embora sem conhecê-lo, porém, ao me dirigir ao aeroporto, na volta para Brasília, pedi ao motorista que andasse bem devagar para que eu visse o rio e tirasse pelo menos uma foto dele. Voltei dessa viagem inspirada.

Entrecultura: Quais são os planos para 2019?

N.R: Em 2019, pretendo lançar um livreto com meus poemas pequeninos, aqueles que denomino “piripaques”. Penso em deixar o livro novo para 2020. Além disso, fui convidada para fazer parte de três projetos financiados pelo Fundo de Apoio à Cultura, em Brasília. Vou ao Rio no início do ano participar do Sarau Polem, de meu amigo Marcelo Mourão. Penso em ir a Recife e a outros estados nos quais ainda não recitei. Se houver convites, tanto melhor.

 

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