“Sou um artista da exclusão”, afirma Benício Bem, que terá sua vida contada no documentário A Cigana

Por Thais Guimarães - 31/03/2019 17h29
Foto: Fernando Gonzaga

“O Thiago Furtado me contactou ano passado, ele se identificou, disse que era cineasta e queria conversar comigo para saber a possibilidade de fazer um documentário sobre minha vida. De imediato achei a ideia brilhante. Muito boa. Foi uma luz, porque eu sou uma artista da exclusão, uma artista da persistência, uma artista da insistência. Sou aquela artista que ainda não teve a oportunidade de ganhar dinheiro com o seu trabalho e nem de ter o reconhecimento desse trabalho, ainda não entrei no hall dos grandes artistas bem remunerados e que vivem da sua arte tranquilamente. Sou artista por insistência, se fosse para eu desistir, já teria desistido, porque motivos eu já tive muitos, nunca tive incentivos, sou fruto da insistência, da minha resistência, de acreditar no meu trabalho. Comecei a cantar nos anos 90, mas minha busca por esse caminho começou bem antes. A oportunidade só veio em 1990, em 91 compus minha primeira música e ganhei um festival. Eu soube naquele dia que teria um longo caminho pela frente, não sabia que passaria por tanta dificuldade como passei, mas o melhor de tudo é que hoje olho para trás e me sinto fortificada, resistente, e vejo que o caminho que trilhei não é para os fracos, é só para os fortes.”

Esse é Benício Bem, compositor, intérprete e instrumentista, natural do interior do Piauí, que brilha com sua música e seus trajes de cigana pelos palcos da capital. O artista, que ainda não tem todo o reconhecimento merecido, terá sua história contada no cinema, através do documentário A Cigana, uma realização do Coletivo VDC com direção de Thiago Furtado.

Fortemente influenciado por nomes como Maria Bethânia e Luiz Caldas, Benício se encontrou na na cultura cigana no início de sua carreira, quando conheceu o grupo musical Gipsy Kings, composto por ciganos. Com olhar e voz marcantes e roupas coloridas, Benício leva aos palcos sua completude artística. Dentre as suas composições, impossível não citar Esmalte Velho, que já foi regravada em outras vozes. Quanto as mais recentes, destaque para Papo Homofóbico, lançada ano passado na Parada da Diversidade de Teresina. É essa história que Thiago Furtado quer contar.

Benício Bem (Foto: Eduardo Crispim)

O diretor explica porque decidiu fazer um filme sobre o artista. “Resolvi contar a história de Benício Bem porque eu acho que já está na hora de as pessoas conhecerem a importância do trabalho dele enquanto artista, compositor e enquanto pessoa da cultura popular piauiense. Eu acho que ele tem um legado bem importante para nossa cultura, para o Piauí, isso merece ser reconhecido e eu acho que a linguagem do audiovisual é uma das mais completas para se fazer essa apresentação da figura de Benício Bem, e por isso a gente resolveu fazer um documentário sobre ele, um documentário humano, que não o coloque em estereótipos ou em caixas”, afirma.

O filme vai trazer, no início, o cantor contando a história de sua vida por meio de uma entrevista. Em seguida, vem o registro de uma visita do artista a sua terra natal, zona rural do município de Brasileira, região de Piripiri. Por fim, o documentário mostrará um show (e seus preparativos) produzido exclusivamente para ser exibido no longa.

Benício é adepto da cultura cigana desde o início de sua carreira musical (Foto Fernando Gonzaga)

Para garantir a realização do projeto, a equipe de A Cigana precisou pensar maneiras de conseguir recursos financeiros. Uma dessas alternativas é a campanha de arrecadação financeira disponibilizada no site Benfeitoria (através deste LINK), onde é possível ajudar com valores a partir de R$ 15,00, tendo como contrapartida algumas gratificações, como forma de agradecer a quem colabora. A meta a ser batida é R$ 9.711,00. A campanha fica aberta até o dia 26 de abril.

“Estamos tentando esse engajamento das pessoas para conseguirmos pelo menos tirar o valor para produção. É um valor bem pequeno, quase irrisório se tratando de um longa-metragem, mas que pelo menos dá para cobrir as despesas básicas. Conseguimos mais uma vez parceria com a Madre Filmes e estamos tentando também esse patrocínio. É preciso atingir 100% para poder receber o dinheiro, se não atingirmos a meta, as pessoas que doaram terão seu dinheiro estornado”, informa Thiago Furtado.

“A Cigana” é o primeiro longa realizado pelo Coletivo VDC, que já assina a ficha técnica de seis curtas, são eles: Sob o Signo da Solidão, Solar, A Ampulheta – Memórias de Areia e Vento, Rio Riso Desafio e os premiados O Casulo e a Borboleta e Galeria Rua.

 

Thais Guimarães, do Entrecultura

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