1990: Pedro Ben lança segundo disco com o projeto musical Duben

Por Thais Guimarães - 10/04/2019 00h30

Pedro Ben gosta de experimentar. Toca, canta, cria e produz, não necessariamente nessa ordem. Em meio a todos os experimentos e experiências (Alcaçuz, Severo e outras atividades), o músico apresenta 1990, o novo disco do projeto Duben. Nostalgia é o sentimento mais presente nesse trabalho, que segundo Pedro, foi um dos mais desafiadores de sua trajetória.

Pedro Ben (Foto: Flávio Lopes)

O álbum foi gravado por Pedro Ben em seu próprio estúdio, o Quarto Dimensões. Com 13 faixas, algumas compostas em parcerias, 1990 se destaca pelo seu caráter experimental, onde instrumental e voz se fundem ao ruído e ao silêncio (porque não?). O novo CD marca também um outro momento do músico, de desconstrução e redescobertas.

Para falar mais sobre o disco, que já está disponível nas plataformas digitais, o Entrecultura bateu um papo com Pedro Ben. Acompanhe!

Entrecultura: Porque “1990”?

P.B: É o ano em que nasci e a década em que vivi minha infância, então, há todas aquelas lembranças nostálgicas, características da idade e da época. Mémorias vieram em minha mente e serviram como imagens primordiais que me impulsionaram a criar, tais como o pôr do sol no quintal da casa em que cresci, os vinis que ouvia com meus pais, os quadrinhos, o cheiro dos livros e do café da tarde, meu interesse inicial pelas coisas do universo, dentre outras cenas que surgiam meio borradas, distantes, como uma fotografia velha, porém com uma sensação muito vívida. Esteticamente, o disco trata desse sentimento de nostalgia e ao mesmo tempo das perspectivas e anseios sobre o futuro, sobre encarar nossa realidade, sobre a sensação de deslocamento e isolamento dentro de uma cidade. Geralmente gosto de escrever o conceito do disco, em prosa ou em versos, onde condenso todas as ideias. O 1990 traz essa dicotomia do passado e futuro, esse conflito que gera saudade e receio, é sobre o que o tempo representa na vida a partir de um viés psicológico, pela ótica da lembrança. Depois percebi que todos os integrantes nasceram e tiveram suas infâncias nessa mesma década, cada um com suas nostalgias, que contribuíram para a autenticidade do som.

Entrecultura: Como foi o processo de produção desse disco?

P.B: O disco começou a ser composto e pré-produzido em 2017 logo após o EP Um breve resumo do futuro, que foi uma espécie de estudo para mim. A gravação foi durante todo o ano de 2018, esse ano conturbado, estranho e difícil, em que houve diversas pausas, tanto pela percepção de que esse trabalho necessitava de tempo para amadurecer, quanto por meu envolvimento em outros trabalhos musicais, no caso, o Suor, violento precário com o Severo e o Âmago, parceria com meu irmão Davi Abel. 1990 foi todo feito em casa, em meu estúdio caseiro, que nomeio de Quarto Dimensões, o qual é um simples quarto com equipamentos básicos de gravação. Foi uma busca e um aprendizado na base da tentativa e erro, digo isso pois não sei gravar no sentido acadêmico ou tradicional, no que diz respeito a isso, está longe do ideal, há aquela sensação do que poderia ter sido feito, mas é o registro dessa época e talvez não teria outra maneira, gosto de ter acontecido assim. Simplesmente saí fazendo com o objetivo principal de captar os timbres e sonoridades que estavam em minha cabeça, pois todo trabalho artístico existe primeiro em sua mente e o desafio está justamente em conseguir materializar. Então, foram dois longos anos imerso no que iria compor este disco, que fala do tempo – e o tempo foi o ingrediente principal para o resultado final, sempre prezando pela honestidade na maneira de tocar e criar, como sempre fiz em minha trajetória. É o disco que até agora mais se aproxima do que pretendo e do que sempre quis fazer em música e o primeiro que me senti realmente satisfeito, mas não completamente, claro, quando se está dentro do processo se vê falhas e imprecisões, que no final dão organicidade e só acrescentam. Temos que aprender a lidar com nossas limitações e aceitar nossas imperfeições, o que importa é fazermos com a maior entrega possível. Para mim o principal é que o ouvinte sinta a sonoridade e compreenda a estética e conceito, e isto está construído e arquitetado para quem estiver aberto a experiência.

Entrecultura: E o processo criativo, de composição das faixas?

P.B: É um disco imagético, cheio de camadas, orgânico, todo construído em stereo. Sou muito visual, essas músicas para mim são como imagens, como se estivesse pintando um quadro, usando texturas, testando cores, compondo o plano, o fundo. Minha cabeça também funciona muito como trilha sonora, por isso não faço essa separação instrumental do que é cantado, mesmo quando há apenas sons, muito está sendo dito, há algo para se desvendar, nem tudo está dado, a voz funciona tanto como som quanto mensagem, por isso propositalmente não está tão nítida, para forçar quem ouve. O foco é o todo, o conjunto, neste sentido de figura e fundo, em que versos e sons se misturam e comunicam. Trabalho muito o ruído e o silêncio, que são recursos musicais valiosos. É um trabalho experimental, não somente no sentido de quebra da estrutura, mas também de criar uma experiência orgânica em que o ouvinte fique absorto do começo ao fim – tem muito de música ambiente. É o disco mais introspectivo que fiz até agora, o que mais me arrisco, saio de minha zona de conforto, onde exploro meus graves, canto mais suave, completamente diferente da Alcaçuz, pois não sou mais aquele garoto, estou em desconstrução e redescobertas. Vamos mudando com o tempo, é estar atento e aberto as mudanças, onde algumas delas são muito positivas. Sou consciente de que não é um som popular, é pouco acessível, quase um nicho, mas não tenho anseios populares e não há objeções quanto a isso, minhas pretensões e desafios são artísticos, é estar em constante movimento.

“1990” é o trabalho mais desafiador de Pedro Ben (Foto: Rafael Marques)

Entrecultura: Quais músicos te acompanham nesse projeto?

P.B: Inicialmente montei a banda em si para me acompanhar ao vivo. Gosto de fazer as coisas do meu jeito, mas também sei o momento de compartilhar e fazer parcerias, não tenho problemas com isso, funciono com os dois processos. Toquei, gravei e mixei quase tudo sozinho, mas há também o toque dos músicos que me acompanham. Flávio Lopes, baterista, é o autor da foto da capa, que resume toda a estética do disco de uma maneira visual. Meu irmão, Davi Abel, colaborou em quatro músicas e compôs comigo a parte II da música Borrão de tinta, que já estava feita e essa outra parte surgiu por acaso quando estávamos ensaiando. Luiz Wagner criou o baixo dessa mesma música. O Iegor Rainer colaborou em três músicas. Todos foram consultores do trabalho, ouvindo, dando opiniões, pois algumas dessas músicas já ensaiávamos e tocávamos ao vivo. Mesmo as composições e produção sendo minhas, todos contribuíram de maneira espontânea. Funcionamos dessa maneira, sem pressão, cada qual também tem seus projetos individuais e possuem uma visão de produtores.

Entrecultura: Algumas das músicas são parcerias suas com outros artistas. Fale um pouco sobre.

P.B: Além de minha parceria com o Davi Abel e o Iegor Rainer, que são da banda e se estendem a outros projetos, esse foi o primeiro disco em que não escrevi todas as letras ou parte delas, como era na Alcaçuz. Tanto por uma vontade em ter outras visões textuais quanto por admirar e confiar muito nos artistas que escreveram. O disco possui apenas 4 letras e um poema. A letra de Não sou daqui é do Joniel Veras, surgiu de conversas nossas, e também temos uma parceria em outro projeto musical, o ONUN, onde vez ou outra estamos compondo juntos. A letra de Cidade Fogo, que na verdade é um poema, é da minha companheira Fernanda Paz, é nossa primeira parceria e a letra de Capricórnio fiz dedicado a ela. Ambos captaram muito bem o sentimento do som em letra, fiquei muito contente em tê-los no disco.

Entrecultura: Onde podemos ouvir 1990 e os demais trabalhos da Duben?

P.B: Seguindo o atual contexto de acesso a música, está tudo em streamings e no Youtube, com distribuição pela Tratore. Quem me auxilia nessa parte é o amigo e parceiro de longa data Javé Montuchô. Não sei lidar muito bem com isso, com marketing digital e coisas afim, meu foco é a música, mas mesmo assim criei um selo que tem o mesmo nome do meu estúdio caseiro, o QUARTO DIMENSÕES, que também se apresenta ao vivo como um grupo de produtores. O intuito inicial foi facilitar o acesso e distribuição de todos os projetos ao qual faço parte e dos integrantes e amigos próximos, também por possuírem estéticas análogas. De 2017 para cá já foram lançados oito trabalhos e mais estão para sair. Nossa produção é contínua, queremos ouvir e tocar aquilo que gostamos e sentimos falta, fazemos primeiro para a gente, é se divertir fazendo. O selo também vem para suprir essa carência em nossa província, o que contribui para uma identidade.

Entrecultura: E os demais projetos?

P.B: Vai sair um audiovisual da Duben ainda este ano. Vou enveredar por outras produções, então algo novo na Duben dessa vez vai demorar bem mais do que gostaria, apesar de ter material, sou esquizofrênico em criar. É uma dor e um alívio ao mesmo tempo. Mas gosto de fazer essa alternância, de produzir algo “meu” e depois adentrar em outros projetos, de preferência bem diferentes do que já faço. Vai ter coisas do meu pai, Assis Bezerra, que já vem sendo produzido há um tempo, inclusive até na área dos quadrinhos (leia sobre a revista Veia Fatal  aqui). As produções do Quarto Dimensões estão sempre acontecendo, recentemente lançamos a faixa Same sex song, do projeto  Same sex love. Enfim, há muitos projetos e parcerias para acontecer, nem todos posso revelar detalhes ainda, mas espero muito que possa realizá-los. Estejam abertos a outras experiências com o nosso selo em desconstrução. Obrigado pelo espaço.

O novo disco já está disponível nas plataformas digitais (Foto: Rafael Marques)

Ouça 1990:

Spotify

https://open.spotify.com/artist/1yM7CY0yacl4nFMwK2CtzH?si=NCFoZu4URK2td_Z3iXkpNA

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=W25u2yeircs&t=78s

Bandcamp

https://quartodimensoes.bandcamp.com

Soundcloud

https://soundcloud.com/quartodimensoes

Deezer

https://www.deezer.com/en/artist/11001202

 

 

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