Feminismo em comum: Entrecultura entrevista Márcia Tiburi

Por Redação Entrecultura - 09/05/2019 15h00

Márcia Tiburi, escritora, feminista, professora, filósofa, e artista plástica, lançou em 2018 o livro “Feminismo em comum – Para todas, todes e todos”, com uma linguagem acessível e com a proposta de incluir qualquer pessoa disposta a discutir sobre o tema.

Márcia bateu um papo com o Entrecultura, e falou sobre sua mais nova obra, que foi lançada no Salão do Livro do Piauí (Salipi) ano passado. A escritora se aprofundou sobre a questão feminista e a necessidade de, segundo suas palavras, “retirar as mulheres da subcidadania”. Confira!

Márcia Tiburi -Foto:Facebook/Márcia Tiburi

Entrecultura: Fale sobre o processo de criação de “Feminismo em comum”. Qual a mensagem que você quer passar?

Márcia Tiburi: Houve um convite da editora Rosa dos Tempos, que pertence ao selo Record, para que eu escrevesse uma obra reinaugural para a editora. Resolvi escrever o “Feminismo em comum”. O desafio foi escrever um livro em tom de crônica, decidi escrever assim porque meus textos feministas sempre foram acadêmicos, frutos de pesquisa, e nesse momento quis escrever uma grande crônica, que comunicasse com as pessoas a partir da experiência das mulheres com sua próprias vidas. Esse livro tem a intenção de dialogar, em primeiro lugar com a leitora, e também com os leitores homens, e os leitores que não são enquadrados nestes dois tipos binários da sexualidade e do gênero. Não foi uma coisa tão diferente de se fazer, porque, ao longo da história das mulheres, elas sempre escreveram falando do seu ponto de vista, em primeira pessoa, o texto feminista tem essa questão do relato de si. Então, os temas são levados a partir de uma experiência de vida, e eu fiz isso, costurei questões que eram da minha vida, da minha mãe, da minha avó, e fui contando coisas e ao mesmo tempo discutindo as questões do feminismo que estão em voga neste momento.

Entrecultura: Como conseguiu escrever de modo a contemplar “todas, todes e todos”?

M.T: Como o próprio subtítulo diz, o livro foi escrito para todas as pessoas que quiserem lê-lo, não existe ali uma linguagem específica para certos indivíduos de um grupo recortado, seja por classe cultual, social, ou faixa etária. Eu vejo meninas de 12 anos e pessoas de 90 lendo esse livro e isso me deixa muito feliz, é uma coisa bonita de ver, um livro tão singelo, tão simples, tão livre, do ponto de vista de sua forma, tendo uma aceitação, mostrando que consegue despertar interesse pelo assunto. Não vejo porque seria necessário escrever um livro com uma terminologia mais difícil, ao contrário, ao meu ver, é uma tarefa histórica daqueles que lutam hoje pelas mais diversas causas, elaborar suas teorias, seus textos, seus discursos, sem perder a complexidade, mas, trazendo-as para aquilo que o Roland Barthes chamava de ‘língua de todo mundo’”.

Entrecultura: O título já provoca uma discussão bem presente atualmente, que é sobre essa linguagem inclusiva. A expressão “todes” é bastante utilizada principalmente no meio da militância que discute gênero e opressões. Como essa nova linguagem é abordada nesse seu trabalho?

M.T: Resolvemos colocar ‘todes’, porque seria muito difícil na internet e nas transmissões de dados que o x fosse decodificado sem confusão [ficando assim a palavra ‘todxs’], então, para facilitar a leitura das pessoas, resolvemos manter o e, tem uma nota de rodapé no livro explicando. Claro que, nem todas as pessoas gostam da inclusão destes termos, mas, a inclusão deste termo é a inclusão das pessoas que não se enquadram dentro da heteronormatividade compulsória que rege nossa sociedade, portanto, era absolutamente necessário que isso fosse levantado e trazido para esse livro, que não é somente a exposição de uma teoria, mas um objeto de luta que pretende fazer circular a discussão, o diálogo, a conversação e as elucidações que o feminismo pode trazer para nossas vidas.

 

“Precisamos retirar as mulheres da

subcidadania onde elas se encontram”

Márcia Tiburi.

 

Entrecultura: Qual sua opinião sobre as diversas correntes feministas? Defende alguma especificamente?

M.T: Acho que a gente não deveria utilizar o termo ‘corrente’ para falar de feminismo, porque temos que fazer um feminismo sem correntes. O que eu chamei de feminismo em comum é justamente o reconhecimento das várias formas de se pensar e fazer feminismo, acho interessante que a gente possa colocar em diálogo as nossas perspectivas e o ‘Feminismo em comum’ tem essa proposta, de pensar o feminismo em diálogo, um feminismo que, mais do que um coletivo, se constrói a partir da singularidade das pessoas, que não deve ser apagada. Nesse sentido, o livro opta mais pelo dissenso e pelo elogio do dissenso, como uma forma de maturidade política, do que pelo consenso, então, acho bacana a gente pensar nessa linha de que o feminismo não precisa ser um acordo, se fosse acordo seria machismo, o feminismo é uma desconstrução que respeita a diferença interna, a delicadeza das ideias, das conceituações.

Entrecultura: Na sua opinião, as mulheres têm algum papel específico nos processos que podem ditar o rumo do país, que se encontra em visível instabilidade nos mais diversos setores?

M.T: Precisamos retirar as mulheres da subcidadania onde elas se encontram. A sub-representarão na política, a  exploração relacionada a questões econômicas, seja no trabalho ou na desigualdade doméstica, as questões que fazem com que as mulheres não tenham direitos assegurados, direito ao trabalho, direito ao próprio corpo, no que concerne a questão da prostituição e aborto, o direito de ir e vir, enfim, no sentido de serem livres da perseguição, da dominação masculina, todas essas questões precisam ser colocadas. Não falaria de um papel específico das mulheres, porque isso nos obrigaria também a pensar no papel específico dos homens e de todos os outros gêneros, então, não gostaria de sobrecarregar as mulheres com nenhum tipo de papel, o que nos levaria ao risco de termos os homens perdidos ou desresponsabilizados de questões que são suas, e também outros gêneros, porque, falar de homem e mulher hoje como gênero é falar de uma parcela específica e restrita da população, as pessoas já não se enquadram mais apenas nesses gêneros.

 

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