Maurício Pokemon abre exposição sobre o Verde nos modos de viver de comunidades ribeirinhas que resistem em Teresina

Por Redação Entrecultura - 17/05/2019 15h21

Em Teresina, a região da Avenida Boa Esperança é uma das poucas com vegetação nativa preservada, tendo relação intrínseca com a subsistência de quem vive ali. No entanto, as condições antropológicas, culturais e naturais, específicas e pujantes do local, estão ameaçadas por um desejo de gentrificação por parte da prefeitura municipal. Essa relação entre o cotidiano da comunidade e a natureza foi registrada pelo fotógrafo Maurício Pokemon e estará exposta no CAMPO Arte Contemporânea a partir do dia 24 de maio, às 19h, dentro do projeto VerdeVEZ, contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2017-2018. A seleção de fotos apresentada na mostra Inventário Verde da Boa Esperança foi feita em diálogo com Raphael Fonseca, curador do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ). No dia 23, como parte da exposição, Pokemon faz intervenções em casas da comunidade.

Pokemon pesquisa o movimento da Avenida Boa Esperança desde 2015. (Foto: Maurício Pokemon)

A curiosidade de Pokemon pela Boa Esperança foi despertada em 2015, no momento em que se deparou com protestos riscados em muros das casas, no caminho que o levava ao Encontro dos Rios. A partir desse momento, passou a visitar moradores e a testemunhar a complexidade do que estava sendo ameaçado: a remoção de comunidades tradicionais em detrimento de projetos de modernização pautados na ideia de lucro e progresso, contra os quais a comunidade resiste há 10 anos.

Esse contato estabelecido com a comunidade, descendente dos primeiros habitantes de Teresina, já gerou o Existência e o Quintal. Inventário completa uma trilogia que parte do mesmo universo. A pesquisa para chegar neste material contou com a colaboração do artista e professor Alexandre Sequeira (PA), dos historiadores e moradores da Boa Esperança Chico Oliveira e Raimundo Novinho, além do suporte de várias outras pessoas da comunidade.

Foram cinco meses de pesquisas para o Inventário, resultando em 500 imagens analógicas. Na exposição, o público conhece aproximadamente 105 delas, em diversos tamanhos e composições. Revelam o modo de viver dessas pessoas, localizadas na região central da cidade, mas com costumes completamente rurais, influenciadas pela vida que corre no rio e nas plantações cultivadas por elas. Inclusive, a mostra conta com uma série sobre plantas medicinais presentes nos quintais de alguns moradores. “Convivendo com eles, a gente descobre uma outra maneira de se fazer presente no mundo”, afirma o fotógrafo.

Juntos no dia a dia, Pokemon começou a perceber que a cor verde era muito presente na vida dos moradores de Boa Esperança, então deixou o seu olhar ser direcionado por isso. “No processo de criação da exposição, novamente imerso na comunidade, me dei conta de que não era sobre literalidade da cor, era sobre o modo delas se relacionarem com o mundo, que tinha subjetivamente relação com o verde e mais que isso, com as forças da natureza”, explica. “Isso me veio muito forte, por exemplo, quando observei que as mulheres usavam muito vestidos com estampas florais ou de animais e me fez refletir sobre o quanto a relação com o lugar que se vive define escolhas, define quem você é.” De acordo com Pokemon, essa é uma obra contínua, que não acaba aqui. “É fluida, é sobre a vida, o sobre o que está acontecendo aqui, agora, e que segue em movimento”.

A pesquisa contou com a colaboração do artista e professor Alexandre Sequeira (PA), dos historiadores e moradores da Boa Esperança Chico Oliveira e Raimundo Novinho, além do suporte de várias outras pessoas da comunidade. (Foto: Maurício Pokemon)

VerdeVEZ reforça, também, a urgência de insistir na criação de contextos para produção e acesso às artes visuais contemporâneas no Piauí. Então, além da exposição no CAMPO, o artista escolherá por volta de 12 imagens que remetem a algumas casas da comunidade e realizará colagens nas fachadas das residências.

Início do processo

Todo o trabalho foi desenvolvido com a participação do artista e professor paraense Alexandre Sequeira como catalisador das questões e discussões que surgiam durante a convivência com a comunidade. Foi um encontro entre dois artistas visuais de diferentes gerações e pontos de maturidade na carreira, um do norte e outro do nordeste do país, com significativas intersecções em seus trabalhos. Chico Oliveira e Raimundo Novinho, residente da Boa Esperança e historiador, foi o pesquisador convidado para participar do processo.

O projeto também abriu inscrição de residência para candidatos de todo o país e teve quatro selecionados: Adriano Machado (BA), Malcom Jefferson (PI), Camila Svenson (SP) e Davi de Jesus do Nascimento (MG). Os trabalhos criados por eles foram apresentados em uma, com roda de conversa, leitura de portfólio de artistas locais feita por Sequeira e pela produtora cultural Regina Veloso, e um compartilhamento público, também de Sequeira, sobre sua experiência no Morro da Providência (RJ).

Maurício Pokemon

Artista visual piauiense graduado em jornalismo, é editor de fotografia da Revista Revestrés. Desde 2015 tem uma pesquisa na comunidade Boa Esperança, zona norte de Teresina, em sua condição de vulnerabilidade e luta contra projetos de modernização impostos pela prefeitura. Tem passagens pelo Festival Encontros da Imagem, em Portugal, Foto em Pauta, em Tiradentes (MG), Valongo Festival Internacional da Imagem, em Santos (SP), e Encontros de Agosto, Fortaleza (CE). Em 2016 ganhou o Prêmio de Criação em Artes Visuais de Teresina. Circulou por 10 estados da Amazônia pelo Sesc Amazônia das Artes, em 2017, com o projeto Existência. Em paralelo, investiga a fotografia nas artes performáticas, com fotos em catálogos de festivais e imprensa no Brasil, Bélgica, Suíça, Holanda, Alemanha, França e Japão. É artista residente do CAMPO Arte Contemporânea desde sua abertura e coordena o núcleo de artes visuais do espaço, o Estúdio Debaixo. Em 2018, participou do Panapaná – Novembro das Artes Visuais, um encontro entre artistas nordestinos que aconteceu em João Pessoa (PB) e culminou na exposição coletiva Vamos de Mãos Dadas, com a curadoria de Raphael Fonseca (RJ) e Tiago Sant’Ana (BA).

Sobre o Rumos Itaú Cultural

Um dos maiores editais privados de financiamento de projetos culturais do país, o Programa Rumos, é realizado pelo Itaú Cultural desde 1997, fomentando a produção artística e cultural brasileira. A iniciativa recebeu mais de 64,6 mil inscrições desde a sua primeira edição, vindos de todos os estados do país e do exterior. Destes, foram contempladas mais de 1,4 mil propostas nas cinco regiões brasileiras, que receberam o apoio do instituto para o desenvolvimento dos projetos selecionados nas mais diversas áreas de expressão ou de pesquisa.

Os trabalhos resultantes da seleção de todas as edições foram vistos por mais de 6 milhões de pessoas em todo o país. Além disso, mais de mil emissoras de rádio e televisão parceiras divulgaram os trabalhos selecionados.

Nesta edição de 2017-2018, os 12.616 projetos inscritos foram examinados, em uma primeira fase seletiva, por uma comissão composta por 40 avaliadores contratados pelo instituto entre as mais diversas áreas de atuação e regiões do país. Em seguida, passaram por um profundo processo de avaliação e análise por uma Comissão de Seleção multidisciplinar, formada por 21 profissionais que se inter-relacionam com a cultura brasileira, incluindo gestores da própria instituição. Foram selecionados 109 projetos, contemplando todos os estados brasileiros.

Ficha técnica

Concepção, Criação e Fotografia: Maurício Pokemon

Curadoria: Raphael Fonseca

Colaboração em pesquisa: Alexandre Sequeira, Chico Oliveira, Lúcia Oliveira e Raimundo Novinho

Revelação e digitalização: Coletivo MOFO

Produção: Regina Veloso

Assistência e Montagem: Phillip Marinho

Assistência Administrativa: Humilde Alves

Design Gráfico: Áureo Tupinambá Jr

Video e Making of: Respira Filmes

Realização: CAMPO arte contemporânea/Estúdio Debaixo

Apoio: Programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018

Agradecimentos: Toda a comunidade da Boa Esperança, em especial à família de D. Davina, Seu Valdir, D. Paruca, Seu Abdon, D. Helena, Joceilson, Seu Miares, Arnaldo Oliveira, Zé, Miúda, Gui Fontineles, Bruno Moreno, Marcelo Evelin, Waldyr Borim, Raquel Carvalho, Fabio Moreira, Adriano Machado, Camila Svenson, Davi de Jesus do Nascimento, Malcom Jefferson.

SERVIÇO:

Rumos Itaú Cultural 2017-2018

VerdeVEZ – De Maurício Pokemon

Abertura no dia 24 de maio, às 19h

Até 08 de junho, de terça-feira a domingo

Das 16h às 19h

Para agendar visita de grupos em outros horários, favor contatar via whatsapp: (86) 98841-0604

Classificação Indicativa: Livre

Local: CAMPO Arte Contemporânea / Estúdio Debaixo

Rua Padre José Rego, 2660, São João

Teresina (PI)

Entrada gratuita

www.facebook.com/campoartecontemporanea

 

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