As mulheres condenadas a Cem Anos de Solidão

Por Thais Guimarães - 21/06/2019 00h30

Os homens da grande obra de Gabriel García Márquez tiveram histórias e fins parecidos. Por outro lado, cada mulher foi um universo.

Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. A incrível e triste história da estirpe condenada a cem anos de solidão, que não teve uma segunda chance sobre a terra. Desbravando a saga da família Buendía, que enfrentou tantas desventuras, como a enfermidade da insônia e a febre bananeira na velha aldeia Macondo, que surgiu em uma época em que o mundo era recente, foi valioso aprender que o passado é uma mentira, que a memória não tem caminhos de regresso, que toda primavera antiga é irrecuperável, e que o amor mais desatinado e tenaz não passa de uma verdade efêmera.

Uma das mulheres da estirpe, ilustrada pelo artista argentino Carybé

Contudo, a preciosidade da obra sem dúvidas está nos personagens, e eu queria aqui saudar as mulheres da estirpe. Os homens, Aurelianos e José Arcádios, se repetiram em si mesmos: enquanto um Aureliano sempre era retraído, mas de mentalidade lúcida, um José Arcádio era impulsivo e empreendedor, mas sempre marcado por um destino trágico. Dou destaque aqui a figura de José Arcádio Buendía, o início de todos, ele, que uma vez se recusou a jogar uma partida de damas porque jamais conseguiu entender o sentido de contenda entre dois adversários que estavam de acordo nos princípios. Também o Coronel Aureliano Buendía, que promoveu trinta e duas rebeliões armadas e perdeu todas. E jamais se deixará de lembrar de Melquíades, o cigano cuja presença quem lê a obra sempre vai sentir. Fora isso, os homens tiveram histórias parecidas. Mas cada mulher foi um universo.

Úrsula Iguarán, a matriarca que acompanhou todas as gerações da família. Ativa, miúda, severa, de nervos inquebrantáveis e que em nenhum momento de sua vida alguém ouviu cantar.

Amaranta, cujo desamor lhe marcou o coração e pele para sempre. Rebeca, a órfã que, de amores, morreu chupando o dedo, como fazia quando chegou na casa dos Buendía. Remédios Moscote, menina, feita mulher quando ainda fazia xixi na cama. Pilar Ternera, que, na espera da pessoa amada, perdeu a força das coxas, a dureza dos seios, o hábito da ternura, mas conservou, por mais de um século de vida, a loucura do coração. Santa Sofía de la Piedad, que consagrou uma vida inteira de solidão e silêncio a criar crianças que mal se lembravam que eram seus filhos e netos. Remédios, a Bela, que ascendeu com sua beleza considerada sobrenatural, não sem antes levar a morte homens que caíram na própria armadilha de tentar convencer as pessoas da impossibilidade de controlar seus impulsos. Fernanda del Carpio, a rainha intrusa que chegou na aldeia, constituiu a família ideal e morreu sozinha por opção, somente humanizando-se nessa solidão. Petra Cotes, a mulher-amante-amada fiel, que, com uma nobreza (e inocência) sem precedentes, morreu de trabalhar para sustentar a família tradicional do amante. Meme, que teve sua tragédia anunciada por borboletas amarelas. E Amaranta Úrsula, última mulher da estirpe, que pôs no mundo o último Buendía.

Essas mulheres! De vez em quando me pego pensando nelas, concebendo suas imagens no meu imaginário, e nesse exercício olho no espelho e vejo um pouco de cada uma em mim. As vejo em todas nós, mulheres, que resistimos e insistimos em ter segundas, terceiras, quartas, infinitas chances sobre a terra.

 

 

 

Por Thais Guimarães, jornalista do Entrecultura

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