“Quero que a história conserve a dialética de Arnaldo Albuquerque”, afirma o sobrinho e curador da obra do artista teresinense

Por Thais Guimarães - 03/07/2019 17h15
Arnaldo Albuquerque (Foto: Acervo Fotográfico Arnaldo Albuquerque)

Arnaldo da Costa Albuquerque (1952-2015) nasceu em Teresina. O pai, Venâncio Albuquerque, admirador das artes gráficas, apresentou logo cedo ao filho pequeno as histórias em quadrinhos (HQ). O menino foi crescendo e se envolvendo irreversivelmente com as artes visuais, se tornando um artista múltiplo: Arnaldo Albuquerque, desenhista, cineasta, fotógrafo, jornalista, escritor, diagramador e outras facetas, que lhe renderam os devidos reconhecimentos, como o vencedor do I Salão Municipal de Artes Plásticas de Teresina (1969); autor da primeira revista em quadrinhos de Teresina, Humor Sangrento (1977); primeiro desenho animado da capital, Carcará, Pega Mata e Come (1978), premiado no Festival pela Embaixada Brasileira na Argentina; dentre outros feitos. Arnaldo morreu jovem, aos 62 anos. Seus últimos dias foram envolvidos por certa amargura e desencanto com a arte. Sua obra resistiu a essa desilusão, e se encontra hoje sob a curadoria de Bruno Baker, sobrinho do artista, que recebeu o Entrecultura em sua residência, onde se encontra o acervo.

 

A casa de Bruno, que é historiador por formação, fica no Centro de Teresina, na mesma rua onde residia Arnaldo. Foi nessa residência, onde o sobrinho vive com a mãe, que o artista faleceu, em uma tarde de janeiro. “Ele não queria mais produzir nada, se desencantou com a arte, nos últimos quatro anos. Já não ia mais trabalhar na antiga Fundac, [Fundação Cultural do Piauí] por conta de sua doença, o alcoolismo, e falava para mim que estava muito desencantado com a vida e com a arte. Ele era um cara genial mas também era um grande filho da p*, isso falo com sinceridade, ele se matou aos poucos, por conta da doença, do abandono dos amigos e da musa artística. Foi um final muito triste, ele morreu aqui em casa. É uma morte que até hoje eu sinto muito”, lembra.

Bruno Baker e parte do acervo de Arnaldo Albuquerque

Bruno Baker, cuja mãe é irmã de criação de Arnaldo, assumiu o acervo um ano após a morte do tio. Os filhos, Caio e Daniel, concluíram que o primo cuidaria melhor do material. “A maioria das coisas consegui salvar, algumas não, porque pegaram chuva e umidade. Gosto muito da história da família, das artes piauienses, da contracultura e tudo que tem uma representatividade para a memória da nossa cidade e do nosso estado”, declara.

O material reúne inúmeros desenhos inéditos, textos, documentos e mais de trinta filmes em Super 8. “Quero que a história conserve a dialética de Arnaldo Albuquerque, que era um cara que alinhava tudo que envolvia arte, artes gráficas, cinema, contos, ele era até contista, me surpreendi com isso. Consegui salvar esse acervo da destruição, porque Teresina tem isso, de destruir e cuspir na memória”, afirma.

Dentre os impressos, encontra-se uma tirinha publicada em 1971 no extinto semanário Pasquim, o jornal cultural mais duradouro da imprensa alternativa, ou nanica, como era mais conhecida. Bruno também guarda as duas edições da Humor Sangrento, a segunda tendo sido lançada quase 30 anos depois, por iniciativa do quadrinista Bernardo Aurélio.

Tirinha publicada no Pasquim
As duas primeiras edições de Humor Sangrento

Além das produções artísticas de Arnaldo, materiais como jornais onde o artista é citado, honrarias e trabalhos acadêmicos constam no acervo. “Academicamente ele ainda é deixado a esmo. Os trabalhos acadêmicos que foram feitos sobre ele são os da professora Neila Rocha, do Cícero de Brito e do Bernardo Aurélio, esse último fez um trabalho que englobava o Arnaldo, o Amaral e o grande Amauri Pamplona, que também está esquecido, é preciso revisitar Amauri Pamplona, que foi também um grande amigo do tio Arnaldo, de arte e de cachaça”, conta o sobrinho.

Um dos grandes desafios que o curador do acervo já vislumbra é a peleja contra o tempo, que, aos poucos, está deteriorando os impressos e os filmes em Super 8, materiais que precisam ser digitalizados com certa urgência.

Filmes em Super 8 de Arnaldo Albuquerque

“Não tenho condições para digitalizar o material e colocar em um site, por exemplo, e não vou mais pedir apoio para a Secult [Secretaria de Cultura do Piauí] nem para a Fundação Monsenhor Chaves, mas vou dar minha alma por esse acervo. Tenho divulgado de forma substancial no Instagram [@riverao_barrocaoser]”, pontua.

Quadrinho de Arnaldo e Durvalino Couto

Por fim, Bruno Baker reitera que todos os seus esforços estão voltados para cuidar do acervo de Arnaldo Albuquerque, e fazer com que sua obra não seja esquecida. Além de disponibilizar o acesso aos materiais (de maneira cuidadosa, devido ao valor de cada item), o historiador se disponibiliza a participar de espaços para contar um pouco da vida e obra do grande artista piauiense. Já no próximo dia 03 de julho, uma quarta-feira, ele vai participar de uma homenagem ao tio no Espaço Cultural dos Noivos onde vai contribuir falando sobre a história do tio Arnaldo.

 

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