Borrão de Tinta: conheça a sessão experimental do projeto musical Duben

Por Redação Entrecultura - 04/07/2019 00h49

O músico Pedro Ben lançou recentemente a sessão Borrão de Tinta, do projeto musical Duben. São três músicas, gravadas na casa do artista com o seu selo, o Quarto Dimensões. Além dos sintetizadores de Pedro, a gravação conta com a guitarra de Davi Abel, o baixo de Luiz Wagner e a bateria de Flávio Lopes. A sessão na íntegra está disponível no Entrecultura TV.

Pedro Ben, Flávio Lopes, Luiz Wagner e Davi Abel (Foto: Luiz Wagner)

Borrão de Tinta não se trata de um simples registro de músicas executadas ao vivo: a sonoridade conceitual do audiovisual traz mais a sensação de uma trilha sonora, como diz o próprio Pedro Ben, um “único ser sonoro”. Para saber mais sobre essa gravação, os músicos que participam do projeto bateram um papo com o Entrecultura. Confere!

Entrecultura: Pedro, como idealizou esse registro em vídeo?

Pedro Ben: Acho importante o registro em imagens de algum trabalho. Particularmente, curto mais sessões ao vivo do que clipes, pois mostra a banda em ação, e o ao vivo é sempre uma experiência, clipes geralmente seguem um padrão e estrutura comercial, alguns até cinematográficas, onde cria-se uma “competição” do clipe mais impactante, mas ambos possuem sua importância e viés de como atingir um possível público. É menos comum encontrar algo fora dos padrões, e logo o não-padrão vira padrão também. Atualmente há uma gama de sessões nacionais e estrangeiras no Youtube que mostram as bandas em ação, que gosto de assistir sempre. Há muito tempo queria fazer o da Duben, não é algo de hoje, assim como já fiz e participei de outros, é válido fomentar esses registros, creio que para bandas alternativas e experimentais como a nossa, o ao vivo seja mais funcional, já que não há naturalmente um público formado para essa abordagem musical. A questão é toda a movimentação que precisamos fazer para realizar esse tipo de trabalho, quando em outros contextos já existe uma estrutura pronta para isso.

Entrecultura: Como as músicas foram escolhidas?

Pedro Ben: Não queria fazer apenas um registro de tocar músicas ao vivo. Queria construir uma experiência sonora e visual, em que o ouvinte se sentisse parte disso. Então tocamos três músicas a partir de uma perspectiva conceitual, em que as músicas interagem como uma trilha sonora, como um único ser sonoro e não apenas como faixas individuais, tocamos todas interligadas, o que levou a uma trilha de 14 minutos. Isso é algo que busco já faz um tempo e que sempre quis realizar, deixar de pensar a música somente como um objeto e pensá-la muito mais como um organismo vivo, com texturas, em camadas, fluida, em que os sons levem o ouvinte a sensações, pensamentos, sentimentos esquecidos, que lhe tire por um momento do lugar presente, ou seja, que o som seja mais experiência e não apenas entretenimento e produtos já estabelecidos.

Entrecultura: Como foi o processo de registro desse audiovisual?

Davi Abel: Um processo baseado em networking, com pessoas aptas para fazer papéis diversos e de forma especializada. Foi uma produção harmônica, desde a formação do time, que além do pessoal da banda, tiveram pessoas que estavam amando o que estavam fazendo, tanto pela confiança na música quanto pelo amor na contribuição cultural; até a compreensão produtiva, que foi definir o que estava sendo feito, entender as referências do trabalho e assim colocar em prática, claro, com certos desvios, solução de problemas que apareciam, mas normal para qualquer tipo de trabalho. O material produzido em si foi feito em apenas um dia, o processo de construção do produto foi mais demorado, cerca de 4 meses, que inclui a edição de áudio, tratamento do áudio, mixagem, masterização, edição de vídeo, produção de marketing e enfim a distribuição.

Equipe: Sandro Sertão, Javé Montuchô, Fernanda Paz, Pedro Ben, Rafael Marques, Joyce Oliva, Davi Abel, Luiz Wagner e Flávio Lopes (Foto: Luiz Wagner)

Flávio Lopes: Bem, o processo todo se iniciou da ideia que tivemos no final do ano passado de fazer um registro audiovisual e que nele tocaríamos algumas músicas que estariam no disco que seria lançado, o 1990. Quando o disco saiu, no início de 2019, sentimos que esse era o momento de fazer o registro, que foi feito por nós e também por algumas pessoas que foram essenciais para que tudo saísse como planejado.

Luiz Wagner: Realmente houve um processo. Estudamos as possibilidades de abertura que esse audiovisual poderia trazer para a banda, é sabido que Teresina não é a melhor cidade para música alternativa, daí entra o papel da internet no nosso trabalho, então começamos a elaborar uma espécie de moodboard, onde o princípio era sempre estético: lugar, roupas, luzes, câmeras, como iríamos veicular, no fim acabamos seguindo nosso instinto em relação à algumas coisas, principalmente figurino (risos) e mesmo com toda essa preparação houve diversas dificuldades. Mas nada tão satisfatório quanto entregar um pedaço verdadeiro do nosso trabalho, feito de forma totalmente independente, sem nenhuma amarra e ver que as pessoas estão realmente gostando. Fomos apenas nós mesmos.

Pedro Ben: Como já dito, foi algo que envolveu amigos e parceiros, em que há o antes, durante e o depois. Só tenho a agradecer a todos que fizeram parte desse dia. Às vezes nossas vivências são como borrões de tinta em uma tela, a fim de serem ressignificadas e organizadas em meio ao nosso próprio caos (assista ao teaser abaixo).

Entrecultura: Para vocês, qual o papel da internet na música atual?

Luiz Wagner: Tirar as amarras dos grandes selos.

Flávio Lopes: A internet tem um papel fundamental no atual cenário musical. Para mim, é o veículo de divulgação mais democrático que temos, pois qualquer banda tem acesso as ferramentas básicas (Spotify, Youtube, Instagram, etc) e a partir daí, qualquer pessoa pode usufruir da forma que quiser o conteúdo, a qualquer horário, a qualquer momento. A internet ajuda muito as bandas independentes, com ela, a música pode chegar a ouvidos e a pessoas que talvez não chegasse por meios tradicionais.

Davi Abel: A internet hoje é a matriz do viver musical, desde a aquisição de conhecimento até o formar estético. O pensar na música está totalmente dependente de sua existência: o formato do arquivo de som, o tamanho do tal arquivo, meios de distribuição, as plataformas dominantes na vida dos ouvintes, quais os aparelhos padrões de saída que as pessoas possuem; são questões que passam pela cabeça do produtor musical na construção de qualquer projeto sonoro. Essa realidade já é tão intrínseca em nossas vidas que a formação estética e de gêneros musicais estão sendo formadas com a total influência do viver online, como é o caso do desenvolvimento de estilos como vaporwave, lo-fi, synthwave entre outros. A internet está nos levando cada vez mais pra um estilo de vida mais específico e dependente, no que se diz respeito ao seu uso, a ponto de que você fique sem ter o que escutar caso fique off-line por algum tempo, ou pelo menos bem menos do que você teria caso tivesse acesso a internet, que é uma gama quase que infinita, de forma instantânea, sem esforço físico e com total compatibilidade com qualquer saída de som.

Pedro Ben: A internet vem transformando nossas vidas em seres cada vez mais instantâneos, isso se reflete em todas as nossas atividades, logo na arte não seria diferente. Venho trabalhando este conceito desde o disco Música fora de Moda (2016). Ao mesmo tempo que a internet democratiza, cria caixas que se retroalimentam, ao mesmo tempo que lhe dá acesso fácil, lhe entope de informações em que você não consegue digerir de forma eficaz e qualitativa. Cria ruídos e personagens, a vida real está cada vez mais distante, estamos deixando de experienciar o real para sermos episódios de nós mesmos, é como se deixássemos de ser protagonistas para sermos somente narradores. Porém, para o bem ou para mal é nossa atual realidade. Podem me chamar de vintage ou “contra a internet”, de não aproveitar tais “ferramentas”, que seja, talvez eu tenha nascido velho ou no tempo errado, tudo é passível de crítica, acessibilidade nem sempre quer dizer acesso, temos que se atentar a isso também. Acredito que o contato analógico com a arte em geral era mais próximo do que atualmente, soa até irônico e contraditório. Mas tem algo importante para mim no que diz respeito a atuação da internet na música, que é deixá-la cada vez mais popular e menos elitista, permitindo que todos produzam a sua maneira a baixos custos, isso traz autenticidade.

Banda nos intervalos de gravações (Foto: Luiz Wagner)

Entrecultura: Como foi o trabalho de áudio da sessão “Borrão de tinta”?

Iegor Rainer: Com a captação de áudio excelente do nosso amigo Sandro Sertão, feita na casa do Pedro Ben de forma simples, porém profissional, o processo de edição, mixagem e masterização do projeto durou aproximadamente duas semanas. A edição inicial e tratamento dos takes passou pelas mãos do Davi Abel e todo o processo teve o devido feedback de todos os membros da banda. Na mixagem e masterização foram utilizadas técnicas específicas para as devidas funções, feitos em minha casa em Curitiba (PR), sempre valorizando a ambiência e organicidade do som, que é algo que o Pedro Ben preza em sua maneira de produzir.

Entrecultura: E mais novidades?

Pedro Ben: Gravamos mais músicas do que as que foram lançadas através do audiovisual, então pretendemos soltar a sessão completa em aúdio no Spotify e quem sabe uma segunda parte em imagens. O selo Quarto Dimensões está em produção contínua, então, em breve sairá algum material ou trabalho novo. Para acompanhar, basta seguir as redes sociais do selo e das bandas que fazem parte. Obrigado.

 

FICHA TÉCNICA:

Pedro Ben – sintetizador, guitarra, voz

Davi Abel – guitarra, controlador

Luiz Wagner – baixo

Flávio Lopes – bateria

Captação de Áudio: Sandro Sertão

Mixagem & Masterização: Iegor Rainer & Davi Abel

Imagens: Javé Montuchô, Rafael Marques & Fernanda Paz

Edição/Finalização: Luiz Wagner

Produção Executiva: Fernanda Paz, Flávio Lopes, Joyce Oliva, Marilú & Vera Paz

Produção: Pedro Ben

Demais links:

Álbum 1990 (2019) ➪ https://www.youtube.com/watch?v=W25u2…

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