Conheça “Ela não é mulher pra casar”, livro de contos da escritora Vanessa Trajano

Por Thais Guimarães - 05/07/2019 11h04

Vanessa Trajano gosta de escrever sobre mulheres. Encara isso até como uma sina: “escrever sobre o mundo em que eu mesma não posso ser livre a fim de libertar outras que virão”, em suas palavras. O fato é que essa facilidade em escrever a partir de suas observações e vivências já geraram quatro livros, Mulheres Incomuns (2012), Poemas Proibidos (2014), Doralice (2015) e, mais recentemente, Ela não é mulher pra casar (2019).

Vanessa Trajano (Foto: José Ailson)

Ela não é mulher pra casar é um livro de contos, que reúne 24 histórias, entre grandes e curtas, sobre mulheres que buscam exercer a liberdade pela qual têm direito, mas que lhes tem sido cerceada historicamente. A escritora, que também é professora de língua portuguesa e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), é natural de Teresina e atualmente vive em Brasília (DF). Ela concedeu uma entrevista ao Entrecultura, falando dobre a obra e sobre essas mulheres que “não são pra casar”.

Entrecultura: Ela não é mulher pra casar foi lançado recentemente. Como tem sido a recepção das pessoas?

Vanessa Trajano: Engraçado que a galera está levando o título ao pé da letra. “Por que ela não é pra casar?”, “O que ela fez pra ser considerada assim?” Mal sabem essas pessoas que, pensando assim, elas já estão sendo machistas. Mal sabem que nós, mulheres, já nascemos putas [sic]. Não por realmente sermos, mas por tudo o que nos atribuem desde o nascimento do sexo, que parece ser um estigma eterno. A nível de comportamento, algumas decidem desconstruir. E aí vem a alcunha: ela não é mulher pra casar. Mas quem é? Cada vez mais escutamos mulheres que dizem não à violência e acabam sendo mortas por isso. É esse tipo de julgamento que nos mata todos os dias. Deveríamos educar nossos filhos para amar, não para possuir. E ainda que meu livro não fale diretamente de feminicídio, com olhos atentos percebemos que as minhas personagens são livres, empoderadas e parecem viver em um mundo longe de amarras. Em um mundo real, esse daqui, isso é pura libertação. Depois que as pessoas leem finalmente entendem, não o que eu quis dizer, mas o que eu de fato disse, que é uma provocação dos diabos.

Capa do livro

Entrecultura: Como foi idealizado esse livro?

Creio que todos os livros surjam de explosões simultâneas, não de ideias específicas. Fui simplesmente escrevendo, enquanto ofício de escritora mesmo. Percebi ao passar do tempo que os contos, escritos em um período entre 2012 e 2018, correspondiam a uma ideia em comum: ELA NÃO É MULHER PRA CASAR. Vira e mexe as personagens tocam nesse assunto, direta ou indiretamente. Na maioria das vezes de maneira quase que subliminar. Deixei que elas escolhessem o nome da obra. Existe ainda alguma mulher que não seja para casar? Na cabeça dessa ‘macharada’ retrógrada, sim. O engraçado é que os homens persistem em fazer essa ridícula separação: aqui é para levar para casa, apresentar a família, já essa… Quantas mulheres maravilhosas, que com certeza seriam ótimas mães e ótimas esposas, são descartadas de um relacionamento por conta de um crivo que ainda persevera em nossa sociedade patriarcal? Casamento, só se for com aquela mocinha “de família”, que não bebe, não fuma, não fala palavrão, que não pede para ser tratada na cama com a devida atenção aos seus prazeres… Que saco isso, velho! Cara, quer uma boneca de plástico, compra. Então, eu pergunto para o leitor: essas mulheres que estão no meu livro, tem certeza que elas não são para casar? Quem está dizendo que não? É você? O seu preconceito? O discurso machista embutido goela adentro depois das raízes serem de quase impossível extração?

Entrecultura: Como você se inspirou para escrever esses contos?

Olho para as mulheres e vejo a luta. O brilho. Mas penso também o quanto a maioria de nós está com a cabeça fodida [sic]. Ser uma mulher empoderada, livre, incomum, tem as suas consequências. Às vezes é a solidão. Outras é a loucura. Na melhor das hipóteses, a arte. O fato é que o mundo ainda não está preparado para nos receber, essa nova mulher que diz não porque tem o direito de dizer – ou sim pelo mesmo motivo. Não está. Enquanto as coisas não mudarem, continuarei me sentido motivada a escrever sobre este assunto. Talvez nunca mude. E talvez seja essa a minha sina: escrever sobre o mundo em que eu mesma não posso ser livre a fim de libertar outras que virão.

Entrecultura: Para viabilizar os custos da impressão do livro, você realizou uma campanha de arrecadação coletiva na internet. Como foi essa experiência?

Estava cansada de esperar pela “tal oportunidade” de publicar o novo livro e fiz acontecer. Lancei o projeto no Catarse com a especificação de Tudo ou Nada. Isso quer dizer que se eu não arrecadasse a minha meta, que era de 7.000 reais, eu teria que devolver, centavo por centavo, as contribuições. Isso nunca. Trabalhei os três turnos nessa campanha, machuquei o tendão e a coluna, insistia mesmo, cobrava aqueles que disseram que iam contribuir e, quando deu um mês e quinze dias, eu já tinha ultrapassado a meta. Todavia, não consegui cumprir uma das promessas da campanha: que era o frete incluso ao pessoal de Teresina que comprou o livro por 30 reais na pré-venda. O motivo é justo e até comprovei nas minhas redes sociais, com direito a nota fiscal, o que dizia. Eu havia fechado o trabalho de edição do livro com uma editora recém-aberta, que havia prometido não me cobrar por isso, mas tive que desfazer o acordo por motivos pessoais. Só que quando isso aconteceu a campanha já estava rolando, e não pude aumentar a meta. Ao finalizar, fechei a edição com a Quimera e meio que não sobrou dinheiro para o frete de quase 150 pessoas que haviam adquirido o livro em Teresina (calcule aí quanto dá R$ 6,00 de frete x 150). Como planejava o lançamento aí, combinei de levar o livro nessa data, mas só metade dessas pessoas compareceu. Ainda estou tentando viabilizar o envio do restante para dar essa etapa como encerrada.

Livro foi lançado recentemente em Teresina (Foto: Antônio Andrade)

Entrecultura: Esse é o seu quarto livro. Fale um pouco das obras anteriores.

Publiquei em 2012 meu primeiro livro, intitulado Mulheres Incomuns, editado pela ALG Publicidade. É uma coletânea de contos que fala de um assunto similar ao último que lancei, mas creio que em uma escala bem mais imatura (eu tinha 19 anos quando o lancei, havia sido escrito entre os 16 e 18). Digamos que era um livro de uma adolescente bem sabida das coisas (risos). Depois, em 2014, publiquei Poemas Proibidos, um livro de poesia erótica editado pela Tupynanquim, de Fortaleza. As ilustrações de Klevisson Viana transformaram a obra em uma verdadeira obra de arte. Em 2015, lancei Doralice, pela editora Penalux. O romance fala sobre a saga da personagem homônima em querer conquistar o simples sonho de fazer teatro, mas os percalços sócio-ecônimos da região em que ela morava fizeram com que esse sonho se tornasse algo bastante utópico e irrisório. É um romance social. Mas não fez sucesso, porque o pessoal gosta mesmo é de pornografia, principalmente se ela for escrita por uma mulher (risos).

Entrecultura: Quais os próximos planos e projetos?

Estou com um novo romance escrito, meu grande desafio. Tentei falar de amor numa perspectiva nunca antes lida, é mole?! Daqui a alguns anos vocês me dizem se eu consegui. Além dele, tenho um novo livro em curso intitulado Três Noites com Maria Eugênia, o mais autobiográfico de todos, ainda que esteja entrando bastante ficção nele também. Vocês nunca vão saber o que é mentira ou verdade, só quando eu publicar a minha biografia. E isso só vou fazer mesmo daqui a 100 anos.

 

Leia um trecho de “Sedenta”, um dos contos do livro:

“(…) Ela não é bem a mulher pra casar e ser a mãe dos meus filhos, mas, de certa forma, a amo. Longe de mim, é claro. Pois ela bebe além da conta, é muito autodestrutiva e prega uma liberdade que, na verdade, é mero pretexto pra cair sem culpa na putaria. Às vezes, ela é impulsiva, enfadada, in-tra-gá-vel. Noutras vezes, ela é doce, leve, carinhosa; nem parece ser a mesma pessoa.
Eu penso que ela é um abismo: tem que ter coragem pra se jogar. Fico pensando seriamente se eu tenho. Mas ela é linda, linda como só ela consegue ser. E ela mente pra mim às vezes. Diz que é só minha, como pode? E todos aqueles homens que escreve em seus livros? Ela chora. Diz que eu não acredito porque, certamente, eu é quem faço isso e desaparece. Eu fico, confuso, endoidecido, mas… Teimo em não dar o braço a torcer. Então ela volta toda calorosa, fingindo não ter acontecido nada. Quando toco no assunto novamente, ela já muda de expressão como se os olhos consentissem.Ela permanece em silêncio, mas ainda bem que o corpo fala. E, desse dia em diante, eu entendi tudo. Eu fui usado. Ela queria me pôr na sua coleção de amantes”.
Ela não é mulher pra casar está à venda em Teresina na Livraria Nova Aliança. O livro também pode ser adquirido com a autora, através do e-mail: vanessateotraj@hotmail.com .

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