“Em Teresina, tem-se os jovens como um conceito de problema”, analisa sociólogo mexicano

Por Thais Guimarães - 07/07/2019 00h08

O sociólogo mexicano Iván Centeno, coordenador da empresa social La Victoria Emergente, que atua na Cidade do México desenvolvendo projetos voltados para a juventude nas periferias, está realizando um intercâmbio em Teresina, observando a dinâmica das organizações que aqui trabalham com jovens e trocando experiências. O intercâmbio acontece por meio do Núcleo de Pesquisa sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (NUPEC) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), sob a coordenação da professora Lila Luz, docente da graduação e mestrado em Serviço Social da mesma instituição. Iván Centeno concedeu uma entrevista ao Entrecultura, falando das experiências no México e suas observações sobre Teresina.

Iván Centeno

La Victoria Emergente surgiu em 2012. O termo “empresa social”, se assemelha no Brasil a uma ONG (Organização Não Governamental). Em seis anos de atuação, o grupo já atendeu mais de mil jovens de maneira direta.

A organização atua da seguinte forma: se dirige a uma comunidade, realiza um diagnóstico, levanta as principais demandas da juventude, executa e estabelece projetos e forma os jovens de modo a garantir que tais projetos se mantenham quando a organização se retira.

Capacitação para jovens artistas de rap no México (Foto: Divulgação)

O sociólogo explica que o grupo consolidou três estratégias que são aplicadas conforme a demanda do local de atuação. “A primeira estratégia é a Escuela de Cultura Urbana, um modelo pedagógico alternativo que busca fortalecer coletivos juvenis e suas práticas, para que eles mesmos possam desenvolver seus projetos de intervenção. A escola se desenvolve a partir de três eixos: aprender a ser, aprender a conhecer e aprender a fazer, cada um se traduz em um mapa curricular. Aprender a fazer é um módulo educativo sobre desenvolvimento pessoal, onde damos aulas sobre direitos humanos; aprender a conhecer é o módulo de desenhar projetos comunitários e marketing cultural; e aprender a fazer é a especialização técnica, fortalecendo os coletivos através de suas práticas e trabalhos, como serigrafia, por exemplo. Ao término de todas essas aulas, eles têm um projeto desenhado e um modelo de negócios para que possam implementar. A segunda estratégia é a Hip Hop Transformación, onde também desenvolvemos capacitações para que os jovens fortaleçam suas diferentes habilidades. Construímos um estúdio de gravação profissional dedicado totalmente ao rap e realizamos concursos musicais. Através dessa estratégia conseguimos criar um grupo chamado Rappers Pela Paz. A terceira estratégia é a Red Nacional de Colectivos Culturales y Artistas Urbanos, porque existem muitos grupos, que precisam de um maior vínculo. Queremos ajudar a fortalecer tais coletivos por meio da colaboração mútua”, informa.

O principal objetivo de La Victoria Emergente, segundo Iván, é auxiliar na prevenção de situações de risco e violência social, sobretudo a praticada pelo Estado. “Para nós, a maior violência do Estado se pode ver através da falta de oportunidades para os jovens. As políticas públicas geralmente não alcançam os jovens das periferias, muitos programas se estruturam de forma que limitam o acesso. Dessa forma, entendemos a violência como tudo aquilo que põe em risco a segurança física e psicológica e que limita o desenvolvimento social desses jovens através de suas práticas culturais”, coloca.

Projeto Hip Hop Transformación

O pesquisador avalia que é necessário se pensar outras ferramentas de inclusão e desenvolvimento social da juventude, alternativas do modelo de educação já estabelecido. “É emergente buscar opções de desenvolvimento através da arte e da cultura. O jovem quer uma melhor qualidade de vida, e o que tradicionalmente se pensava que permitia isso era a escola e o trabalho, mas estamos vendo que não é mais assim. A escola, sozinha, provavelmente não permite esse alcance de uma melhor qualidade de vida, porque há jovens que nem têm acesso à essa educação, e há ainda os que não querem mais frequentar uma escola. Também não há muitas opções de trabalho e geralmente o trabalho é precário. Então, buscamos uma terceira via para esse desenvolvimento pessoal, através da profissionalização de suas práticas artísticas e culturais”, ressalta.

Em Teresina, Iván Centeno vem acompanhando grupos em diversas regiões, como a Santa Maria da Codipi, na zona Norte, através do grupo Reação do Gueto, intervenções no Centro da cidade e as ações da Casa do Hip Hop, localizada no bairro Parque Piauí, zona Sul.

Questionado sobre as diferenças entre as manifestações culturais da juventude na periferia de Teresina e da Cidade do México, o sociólogo destaca que aqui o discurso dominante criminaliza com muito mais intensidade tais manifestações. “O que percebo é que no México não é tão forte o discurso que criminaliza os jovens. Aqui se vê que é muito frontal o discurso e o trabalho das autoridades contra esses jovens. No México existe, mas não dessa maneira, não percebo que haja uma luta contra. Creio que todos os jovens que vivem na periferia sofrem violência, mas uma luta frontal não existe no México, aqui parece muito forte, muito triste esses tipos de ação. Aqui em Teresina, tem-se os jovens como um conceito de problema, independentemente de terem ou não um diagnóstico desses jovens. Partem do princípio de que a origem dos problemas das comunidades são os jovens, uma maneira negativa de reconhecê-los”, conclui o pesquisador.

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