“A classe média vai à caça”: um conto de Arnaldo Albuquerque

Por Thais Guimarães - 17/07/2019 00h37

Chap! Chap! Chuá! Slurp! Lá se iam os irmãozinhos chapinhando e se rindo dos sons e da alegria que dava jogar água das poças da calçada uns nos outros.

Realmente, os compadres se sentiam “londres”, não só pela aparência de “fog” londrino, que a evaporação da água da chuva no asfalto quente dava à cidade, mas e também porque “estar em Londres” era estar muito maluco, speed… E estavam em Londres. Daqui a pouco poderiam ver uma apresentação dos Rolling Stones. Gostar deles era prova de ser grande curtidor. Bom… Malucos eles já estavam; quanto ao resto, era sonhar: afinal, que podem três meninos do Piauí fazer num dia de sábado, além de sonhar e se encher de bagulhos?

Esta era a hora boa. O calor da tarde prenunciara uma boa chuva de verão à noitinha, como já vinha acontecendo há alguns dias. As pessoas se trancavam mais cedo em casa para ver tevê. Nas ruas, ninguém. Pois é: as histórias bonitas de porta de rua não existiam mais. Agora, Tarcísio Meira protegia, da boca do povo, da fúria da D. Justa as putonas, os vaposeiros, as caroneiras iniciantes e as bicharocas da S. Benedito.

Um tempo de inovações. Ah! Como aquela luz enfeitiçava as pessoas! Das lâmpadas de filamento incandescente às lâmpadas de vapor de mercúrio. Finalmente, haviam chegado ao progresso: Iluminação a magnésio, que todos chamavam de luz de merthiolate.

— Eu olhava os olhos dos meus amigos e pensava: “olhos de bandidos!”. Olhava e via um perfeito braseiro. A sorte estava lançada: o que corresse na frente era o boi. Um começo de noite poderia ter seu fim planejado.

Direto ao Gelatti. Ouviram as novas novidades velhas, viram a Dora, adorando o sonho. Tomaram a mesma velha cerveja-conhaque-batida. Comeram o mesmo frito de tripas, evidenciador de uma caganeira tomorrow. As mesmas pessoas, muito mais bonitas e agradáveis, vistas agora através do barato. Se o dia havia sido escaldante, a noite era agradável, e alguém dizia: É isto, cumpade. Clima desértico: dias quentes, noites frias, chuvas de verão. Nem outono nem primavera: só cheia e seca.

Oto alertou a patota, na hora certa: “Ativar, meu irmão”. Ativemos! Eu quis, o Paschoal também estava muito a fim.

Caminhavam por trás da maternidade, quando alguém lembrou: “Sabe, caras! Outro dia, eu roubei um traste, só de sacanagem, e joguei ali em cima”. A turma se ouriçou: queria saber detalhes. Como? Onde ? Quando? Por quê? — “Sabe, foi só de brincadeira. Não tinha nada melhor pra fazer”. Fim de papo. Rodaram mais um apertado. Uma volta natural ao Gellati, o pessoal da medicina já tinha saído. Começavam a baixar garotos e garotas, de fuscas e sem fuscas. Pessoas gerais.

Contadas até as últimas moedas e feito um pedido, o papo estava a mil, muito movimentado. Todos a mil… O bolso do pessoal, a zero.

— Pô, meu mano! Ainda tão cedo, nós cheios de energia! Chegamos a tal eletricidadeque imaginávamos as pessoas dançando, se beijando, vomitando, de bebum, nas pias entupidas da Beira-Rio. Por isso é que nós planejamos aquele lance. Tinha que ser: estava escrito há muito tempo. Não foi nem por maldade nem por sobrevivência. Aconteceu o inevitável..

Se manque! A gente sabia que o Pinta gostava de jovens. Paschoal e Oto já tinham extorquido umas poucas notas do mister, na maior. A verdade é que fui eu que sugeriu. Mas cê quer o que irmão? Que uns fominhas que se acham “os quentes” abram de uma transação de aventura que promete acontecer melhor que qualquer fita otária de roliúde?! Não! Não podíamos mais. Fomos em frente.

O maior problema em nossa cuca era aquela raça de cachorrões. Como passar pelos cachorros e entrar na casa do pateta? Como no momento eu estava me achando o próprio Scarface, assim… um chefinho de gang de rua, numa rua do West Side, prontamente me ofereci em holocausto. “Se acalmem! Estes cães otários eu ganho!”. E ganhei! Saltei as grades do muro e lá vinham os cachorrões soltando Aus! E eu Grrr! Grrrrrrrr! Podes crer, meus santinhos, os putos arredaram, no ato. Pouco depois, Paschoal foi mijar e os cachorros queriam se engraçar com ele. Ih, mano! Vê só a desses pastores alemães… Eu heim?!

Estávamos, no momento, dentro de uma segurança relativa. Tudo escuro por baixo daquela mangueirona. Ficamos ali no terraço, batendo papo, rindo, respirando. Tentamos a port, mas estava trancada. Não tínhamos pressa. Um fininho passeou de mão em mão. Lembro que a porta foi examinada: estava apenas encostada. Ninguém entendeu, nem quis.

Entramos no lar doce lar do cara. Se antes a ideia era obter o dinheiro, algo de valor para atravessar, no momento em que vimos a geladeira, só tínhamos sede e fome. Skol em lata com tira gosto de abacate e mamão. Se você acha estranho, fique sabendo que, na hora, aquilo parecia o manjar dos deuses.

Claro que não vu negar: estava nervoso, tenso. Paschoal e Oto, não. Soltos, exploravam a sala de estar, que estava escura, iluminada apenas pela luz da copa. Às vezes, eu penso que estava era com reflexos muito lentos demais. Já não me entendia, mas continuava a estalar aquelas aberturas de cerveja: tléc! tlés! Uma piração total…

As coisas sucediam-se muito rapidamente. Os meninos me mostravam coisas, bibelôs, taças para bebida. Eles pareciam crianças descobrindo o mundo, e eu ali. O Oto encontrou um faqueiro e me trouxe uma faca assim… que parecia prata. Tinha ponta, mas nenhum fio. Bonita.

E eu fiquei lá, sentadão, só acariciando aquela faca de aço inoxidável. Cessou o barulho em volta de mim: levantei os olhos e vi apenas o dono da casa com um ronco apontado para nós.

Talvez por estar mais próximo, eu me senti paralisado. Oto e Paschoal caparam o gato. Ficou aqui o babaca, ali parado. O cara olha pra mim com as butecas arregaladas de raiva, medo, decepção. Eu sei que ele ia atirar… Eu me atirei contra ele, enfiando na barrigona dele aquela faca cega. Sei bem que ele caiu, sem largar a máquina. Me correu um frio na espinha e eu saí em disparada. Ouvi ainda uns tiros.

É… só queria saber como descobriram. Sei não, cara. Mas se este advogado não me soltar, eu não vou ficar trancado só, não. Se precisar, eu deduro Deus e o mundo.

Falei.

 

Este conto foi publicado em 1977, na coletânea “Ô de casa!”, pela editora Nossa, com edição geral de Cinéas Santos. O texto foi digitalizado pelo Entrecultura, que teve acesso ao acervo de Arnaldo Albuquerque. (Foto: Acervo Fotográfico Arnaldo Albuquerque)

 

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