Oscilações mentais de um preto: conheça o rap de Real Narco Liricista

Por Thais Guimarães - 22/07/2019 00h20

João Victor Carvalho gosta de ser chamado de Jão. Jão, que no rap, é o Real Narco Liricista. O MC, que iniciou sua trajetória com o grupo Narco Rap, lançou recentemente um trabalho solo, o EP Oscilações Mentais de Um Preto (OMUP). Além de se destacar na cena do rap (foi um dos finalistas da última edição do Festival Chapadão), Jão tem criado referência no Slam (batalha de poesia falada), sendo o vencedor da 3ª edição do Slam Biqueira Literária do Sesc Caixeiral.

Jão, o Real Narco Liricista (Foto: Poliana Oliveira)

O artista concedeu uma entrevista ao Entrecultura, onde falou da sua história com a cultura Hip Hop e falou de outros projetos artísticos. Confere!

Entrecultura: Como e quando se deu seu encontro com a cultura Hip Hop?

Jão: Meu encontro com a cultura Hip Hop aconteceu por volta de 2010, o primeiro contato que tive foi com o break [dança], a galera começou a me convidar para colar em uma igreja onde rolava um treino de break, eu não entendia direito a parada, mas comecei a colar e a fazer umas coreografias. Fui evoluindo no bagulho e descobri em 2013 a Casa do Hip Hop e que era lá que a gente iria crescer, porque lá é o berço do bagulho. Então lá eu fui tendo mais noção dos elementos da cultura, conheci o DJ PTK, o Gilsão, WG, Preto Kedé, que foram me mostrando as coisas. De 2013 para 2014, quando estava sacando a galera, comecei a ter contato com a poesia, com a escrita, mergulhei na literatura e comecei a escrever, escrevia e não conseguia rimar, mas fui crescendo, quando não tinha rima, existia poesia, e minha linha de escrita sempre foi essa, de tapa na cara, de falar o que é preciso falar, porque o rap é isso.

Entrecultura: E o coletivo Narco Rap, como surgiu? Conte mais sobre sua trajetória nesse grupo.

Jão: Em 2014 conheci o Ícaro, e criamos o grupo. Apresentei o projeto e ele se jogou, começamos a trabalhar em cima disso. Acabou que o Ícaro teve uns problemas e se afastou e eu comecei a me apresentar sozinho como Narcorap. Depois, chamei mais algumas pessoas, o Nicolas e o Jênio, mas cada um tomou seu rumo. Eu continuo Narco. Em 2014 surgiu a Narco Crew, um grupo que tem grafiteiro, b-boy, beatmaker…

Entrecultura: Recentemente, você lançou o EP intitulado OMUP (Oscilações mentais de um preto). Fale sobre esse trabalho.

Jão: OMUP foi meu primeiro tiro, minha primeira tentativa de ser ouvido através dessas plataformas. Foi um processo demorado, escrevi várias coisas, fui avaliando as ideias, tentei fazer um álbum pelo Narcorap, mas vi que rolava a dificuldade de gravação, então fui nas manhas, escrevendo, fui me aproximando de produção, entendo mais do processo, e levei para a QuilomboLoucoBeats. Foi um processo de produção intensa entre o PTK e eu. Fui colocando o que eu sentia, essas oscilações mentais de um preto. Sinto que ainda existe um peso em ser um MC, porque sempre estamos tentando abrir os olhos da galera, tentando fortalecer, mas em certos momentos, de tanto apanhar, nos sentimos fracos. Tinha dias em que estava muito bem e dias que não, e pensei em abordar isso nas minhas escritas. Até que saiu esse nome. Tentei abordar um pouco da ideia sobre depressão, sobre essa conjuntura, sobre o abstrato. Tentei trabalhar a minha identidade. Meu primeiro EP tem me trazido vontade de viver, de fato.

Entrecultura: Como tem sido a sua experiência com o Slam?

Jão: Essa parada do slam para mim é uma novidade, mas me identifico muito. É uma novidade para geral no Brasil, principalmente em Teresina. Minha primeira experiência foi no Sesc Caixeiral em Parnaíba, até então, só sacava por vídeos de slams que rolavam em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Me identifico pelo fato de eu recitar há muito tempo, participo de saraus e organizo o sarau da Frei Style, a tradicional batalha que rola na Frei Serafim, e tem sido muito bom viajar nessa parada, quando estou de frente para a galera, do começo ao fim me arrepio, fico emocionado. Depois de ganhar a terceira edição do Slam Biqueira, tive a oportunidade de ministrar uma ação formativa no Sesc Caixeiral, passando um pouco do que estudei e do que vivi na poesia falada.

Entrecultura: Qual sua avaliação da cena local do Rap?

Jão: Grande parte da galera tem fortalecido a militância, tem ensinado a causa e a importância da cultura Hip Hop na quebrada. Tem outra parte da galera que acha que o bagulho é brincadeira, que acha que o importante é só levar dinheiro para casa. O que tenho a dizer é: faça, colha frutos e leve para sua quebrada, invista em projetos para inserir a galera. Use da cultura para viver bem sim, mas não faça e saia ostentando. Esse é o real sentido do rap, fazer prevalecer essa luta. Aqui tem uma galerona que tem fortalecido meu manifesto, me mostrando o caminho, como o Afronto, Reação do Gueto, Flagrante… Gosto também do desenvolvimento dessa minha geração, tenho visto uma galera se esforçando, estou vendo trabalharem muito, mas não adianta trabalhar por trabalhar, então, espero que essa nova geração, que é a minha, não esqueça da luta.

Narco Liricista (Foto: Lucas Santos)

Entrecultura: Você participou da última edição do Chapadão. Como foi essa experiência?

Jão: O Chapadão foi uma experiência muito boa. Observei também que nada que tinhas uma ideia política exposta direta venceu, porque eles não querem isso, querem apenas uma pessoa que cante tudo bonitinho. Sobre a estrutura, muito boa, foi muito bom trabalhar com a Tupi Machine, banda que me apoiou. O Hugo dos Santos chegou para mim oferecendo apoio, fui juntando as coisas, ensaiamos e eu aprendi muita coisa, firmei parcerias. O que ficou dessa edição do Chapadão, a qual cheguei na final, é que precisamos continuar trabalhando nosso som, nosso manifesto, batendo nessa tecla da luta. Cheguei desacreditado no Palácio da Música, quem é que sabia que eu ia soltar um manifesto daqueles? Mas cheguei até a final de cabeça erguida.

Entrecultura: E os demais planos e projetos?

Jão: Estou tocando alguns projetos com a Narco Crew, desenvolvendo projetos na comunidade, e já tenho alguns singles, muita coisa escrita, que em algum momento vou me estabilizar para trabalhar. Agora tenho escutado muito Blues, Jazz, R&B, e planejo lançar um EP de R&B.

 

Ouça o EP Oscilações Mentais de Um Preto:

Ficha técnica do EP:

Produção musical: Quilombo Louco Beats – @quilomboloucobeats

Produção executiva: Érica Santos – @badgsantos

Arte gráfica: Malcom Jefferson – @sr.malcom

Finalização: Washington Gabriel – @wg.corjacrew

Animação: Ambrósio Pentú – @ambrosio_pentu

Patrocínio: Mucambo Nuspano – @mucambonuspano

Comentários

Aline

Filho amado que o senhor abençoe sua vida sua carreira te amo meu amor sempre lhe admirei conte comigo sempre sua mãe e amiga acima de tudo sempre lhe admirei vc tem um futuro brilhante com fé em Deus vc vai longe meu preto nunca desista dos seus sonhos

27 jul, 2019 Responder

Comentar