Planolândia: o disco conceitual de Pedro Ben, Davi Abel e Iegor Rainer

Por Thais Guimarães - 05/11/2019 00h14

Planolândia é o título do disco lançado recentemente por Pedro Ben, Davi Abel e Iegor Rainer, do selo Quarto Dimensões. O álbum é o primeiro de uma trilogia que os músicos/produtores pretendem gravar. Mesclando o instrumental com música eletrônica, o projeto tem como base e inspiração os conceitos cósmicos do cientista Carl Sagan e do escritor Edwin Abbott Abbott.

Capa do disco “Planolândia”, assinada por Assis Bezerra

O trabalho conceitual do trio atesta que mensagens não são dadas somente através de letra. Apesar de não apregoarem que Planolândia é um disco político, os artistas dão ao público um recado carregado de pensamentos e crítica social.

Com seis músicas e capa assinada por Assis Bezerra, Planolândia está disponível no Youtube. Cosomos, faixa que abre o CD, já ganhou videoclipe, que também foi disponibilizado no Youtube, e pode ser acessado através do Entrecultura TV.

O Entrecultura entrevistou Pedro Ben, Davi Abel e Iegor Rainer, que deram mais detalhes dessa experiência musical. Confere!

Entrecultura: Como surge o projeto “Planolândia”?

Iegor Rainer – O projeto surge da ideia inicial do Pedro Ben de fazer uma trilogia de álbuns baseados em conceitos cósmicos. As três músicas principais do álbum já estavam em processo de composição quando o Pedro chegou com as referências temáticas, a partir daí, os interludes, as nomenclaturas e o fluxo de continuidade do álbum foram baseados no conceito da Planolândia, criado por Edwin Abbott Abbott e disseminado por Carl Sagan.

Davi Abel – Na verdade, Planolândia é parte do projeto. A Quarto Dimensões vem abordando questão existenciais relacionadas a objetos do universo desde sempre. Por conta da grande demanda de músicas a serem lançadas, Pedro pensou em criar uma ramificação de álbuns dentro do conceito filosófico e astronômico de Carl Sagan, surgindo assim a ideia de uma trilogia, na qual a primeira é Planolândia.

Pedro Ben – Eu queria dar um sentido estético as composições que estavam sendo criadas, e já tinha essa vontade de arquitetar tudo em uma trilogia, queria dar um significado semiótico a toda essa saga sonora. Não é porque é instrumental que não há algo a dizer, há muita coisa sendo dita que o ouvinte tem que desvendar. É um disco conceitual.

Entrecultura: Que papel cada um de vocês desempenha nesse trabalho?

Abel – Não temos funções definidas ou algum tipo de hierarquia, prioridade ou importância, nós somos simplesmente artistas com um amor em comum pela exploração e experimentação artística, seja ela na música, na arte visual, ou performática. Cada um compôs alguma das músicas, e cada um contribuiu na composição do outro, tornando no fim uma grande mistura em que todos são responsáveis mas que ninguém se sente responsável. Além da parte sonora, o resto acontece de forma bem impulsiva, a medida que as necessidades vão aparecendo alguém se oferece para produzir, então não é algo previamente definido ou pensado na hora de criar o projeto.

Rainer – Todos nós fazemos todas as funções em algum momento e creio esse ser o objetivo do projeto, todos se envolverem diretamente em todas as etapas da produção, da composição ao momento em que é lançado.

Ben – É um trabalho completamente colaborativo, as funções não são fechadas, vão acontecendo naturalmente, participamos e conversamos sobre todas as etapas coletivamente.

Pedro Ben e Davi Abel (Foto: Flávio Lopes)

Entrecultura: Como foi o processo de composição das seis faixas do álbum?

Abel – Antes da ideia do projeto, ou até mesmo do conceito, três faixas do álbum já estavam compostas, uma de cada um de nós. Depois que definimos do que iria se tratar, apresentamos as composições e cada um contribuiu para que elas se tornassem congruentes entre si, e com uma certa ligação entre os artistas envolvidos, foi tudo bem natural e espontâneo, como sempre é entre a gente, o que resultou nesse álbum incrível.

Rainer – Durou aproximadamente 4 meses e sempre que tivemos a oportunidade de nos reunirmos, alguma ideia nova saía para o álbum. Atualmente moro em outra cidade, então às vezes acontecia com todos juntos, às vezes, via computador. Foi um processo 100% caseiro, com o equipamento que temos ao alcance e uma pitada de ciência.

Entrecultura: O projeto é livremente inspirado na obra “Cosmos”, do cientista Carl Sagan, e na “Planolândia”, do escritor Edwin Abbott Abbott. Como os nomes citados de fato influenciaram esse trabalho?

Ben – Iegor e eu somos fãs da série Cosmos, do Carl Sagan, e vez ou outra conversávamos sobre. Então, pensei em usar essa admiração comum em forma de música, pois gosto de acrescentar um fundo literário e conceitual aos discos. A explicação de Carl sobre a quarta dimensão desemboca nos conceitos do escritor Edwin Abbott Abbott, que descreve o que seria a “planolândia”, daí vem até a relação com o nome do selo/grupo Quarto Dimensões, porém a partir de um viés mais filosófico, que afirma que os seres sonoros habitam a quarta dimensão. A ideia da trilogia é explorarmos todos esses planos, o bidimensional, o tridimensional e assim alcançar a quarta dimensão de fato.

Rainer – As composições e escolha dos timbres das musicas permeiam as produções eletrônicas dos anos 80 com o uso de sintetizadores analógicos clássicos, que são bem presentes também na trilha sonora da série de Carl Sagan, Cosmos. Em relação à nomenclatura das músicas, existe uma relação direta com o conceito da Planolândia, de Edwin Abbott Abbott, onde um ser tridimensional visita um ser bidimensional em sua própria realidade e o transporta para uma experiência em três dimensões, deixando-o maravilhado e ao mesmo tempo confuso.

Entrecultura: Como foi a parceria com Assis Bezerra, que desenhou a capa de Planolândia?

Abel – A arte da capa já estava pronta o tempo todo. Na verdade, é uma ilustração da HQ Veia Fatal, do próprio Assis, e ela caiu como uma luva, pois coincidentemente consegue definir de forma visual toda a complexidade conceitual que precisávamos expressar, parece que foi feita sob medida. E obviamente, o fato de vir de casa nos deixou mais felizes e orgulhosos com o resultado.

Ben – Sempre quis usar alguma arte do meu pai como capa de algum disco, era uma vontade antiga. Como o Davi explicou, o desenho já existia, e fui um dos editores da Veia Fatal, e de fato, visualmente descrevia perfeitamente o conceito do álbum. Na arte há referências ao quarto, a esfera e aos planos que fazem parte do conto da Planolândia. A referência ao quarto, em um primeiro trabalho, é importante, pois apresenta o que nós como grupo somos, pois produzimos nossas músicas de maneira caseira dentro de nossos quartos, onde cada um cria seu universo.

Entrecultura: Cosomos, faixa que abre o álbum, ganhou um videoclipe. Quem assina a produção? Qual foi a inspiração?

Rainer – As imagens foram gravadas em um celular por mim, na Praia do Farol, em Luís Correia, antes de todo o processo do álbum começar. Posteriormente, já com a temática e faixas bem definidas, as relações das imagens com a música vieram naturalmente, ainda usando a série Cosmos como referência. Fiz a edição das imagens e produção do vídeo, que fará parte das apresentações audiovisuais da banda, que irão acontecer em breve.

Iegor Rainer e Pedro Ben (Foto: Rafael Marques)

Entrecultura: A faixas de Planolândia falam muito sobre conceitos bastante em evidência na atualidade (esquerda, direita, acima, abaixo, criaturas planas). Como a atual conjuntura influencia este trabalho?

Ben – A meu ver, o ser humano é naturalmente político, e qualquer ato pode ser político. A música sempre esteve próxima do campo político, e só porque é música instrumental não quer dizer que uma mensagem não pode ser apresentada. Me preocupo com política, pois afeta nosso cotidiano diretamente e vivemos em uma coletividade, mas meu campo não é a militância, e sim a música. Com ela tento passar uma visão, apesar de que obrigatoriamente não acho que a música deva sempre estar em militância. Para mim a música é liberdade, e tem várias funções, seja entretenimento, contemplação, crítica, comemoração, autoconhecimento, dentre tantas outras. Por conta do que estamos passando recentemente no que diz respeito a política, me sinto incomodado e quis de alguma forma adentrar nesse campo e pontuar alguns fatos. Para mim, às vezes uma frase ou conceito, um som, diz muito mais que que uma letra, texto ou discurso inteiro. Falar menos e observar mais lhe traz aprendizado, saber ouvir e saber a hora de se expressar. As pessoas precisam exercitar a interpretação, a imaginação; se elas perdem essa capacidade, de simbolizar, ficamos estagnados à relações pobres e sem afetos genuínos, ficamos a beira de flertar com a irracionalidade. O título “Criaturas Planas” traz isso, o interessante é porque faço uma analogia com os conceitos da própria planolândia. Um ser bidimensional que não consegue compreender o plano tridimensional, o caso do quadrado que não consegue interagir com a esfera, é a analogia para as “pessoas quadradas” de pensamentos rasos, preconceituosas, conservadoras, que não contextualizam os fatos e possuem comportamentos e pensamentos políticos destrutivos, essas pessoas estariam presas na planolândia, ainda com uma visão primária, cega e fechada sobre a realidade. Não há pessoas que acreditam que a terra é plana? Há mais coisas sendo ditas, que tem a ver com política, mas eu não vou entregar tudo. O não dito diz muita coisa. Não é um disco político, porém é uma saga cósmica e política, como a essência do ser humano é. A mensagem está dada, agora o público precisa decodificar.

Entrecultura: Esse é mais um projeto do selo Quarto Dimensões. O que mais de novidade podem nos adiantar?

Abel – O restante da trilogia. Ela já está pronta e no ponto para lançar, com uma certa trabalhada em questões complementares, elas estarão por aí aptas para serem ouvidas.

Ben – Continuaremos com nossas produções contínuas, seja coletivamente ou solo, lançando discos, novos músicos, e realizando nossas próprias festas e shows. Mas sobre esse trabalho especificamente, o próximo passo é a gravação de um audiovisual.

 

Ouça agora Planolândia:

 

 

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