Entrevista: Demetrios Galvão apresenta “Reabitar”, seu mais novo livro de poemas

Por Thais Guimarães - 12/11/2019 00h11

 

Demetrios Galvão

A poesia tem esse poder, essa energia mágica em que a palavra é o elemento condutor. Em meio a tantos ruídos de uma realidade desfocada, precisamos ter serenidade para garantir a saúde mental, manter o corpo inteiro e reabitar a casca corpórea do pensamento”. Estas são as palavras de Demetrios Galvão, que recentemente lançou Reabitar, seu quinto livro de poemas, pela editora Moinhos.

O livro em questão, segundo o próprio autor, é sua obra mais orgânica, com uma linguagem que busca se aproximar mais do público leitor. É um reabitar de sua criação poética, como afirma Demetrios.

Com 30 poemas, ilustrações de Rogério Narciso e pósfácio escrito por Wanda Monteiro, Reabitar é um trabalho que foi movido pelas inquietações do poeta com o momento presente.

O Entrecultura bateu um papo com Demetrios Galvão, que falou com mais profundidade sobre a referida obra. Confere!

Entrecultura: Como você concebeu o livro Reabitar? Foi escrevendo os poemas que deram forma ao livro ou, do contrário, pensou a concepção de um livro e a partir disso escreveu os textos?

Demetrios Galvão: O Reabitar veio provocado pelas energias desse tempo, desse momento estranho da história do Brasil que nos afeta terrivelmente. Ao final de 2017, eu não tinha a mínima ideia de que no início de 2019 estaria com um livro pronto para ser publicado. Mas, esse clima do país me provocou de uma forma atravessada e sem esperar, comecei a escrever uma sequência de poemas que se somaram a um punhado de outros textos que tinha. Logo percebi que todos estavam ligados de alguma forma. E além dos temas centrais, percebi que a minha escrita estava tomando outra forma e isso me animou bastante. Desse ponto em diante, comecei a pensar no livro, no seu corpo e direcionei os trabalhos. Reabitar é um livro que ainda estou entendendo, ele veio muito rápido e me surpreendeu. Aos poucos, estou aprendendo a lidar com ele, seja lendo os poemas nos saraus e buscando a melhor forma de dizê-los ou falando com amigxs e perguntando a impressão delxs sobre a leitura. Acho muito louca essa coisa de escrever um livro e não conhecê-lo totalmente, não dominá-lo e precisar compreender. Um exercício de refletir sobre a própria criação.

Entrecultura: O que muda desse para seus livros anteriores?

D.G: Acho que consegui chegar mais perto das pessoas, dos leitores. Encontrei a potência da palavra em sua simplicidade, em seu estado mais sensível. O reabitar do livro é também um re-abitar da própria palavra e da minha criação poética. É um desdobrar de ideias em um percurso que vem de longe, um pensamento que vem agregando experiências. Esse livro é o meu trabalho mais orgânico, com um conceito que o atravessa do início ao fim. Sinto que ele tem uma voz redonda, um som suave. Ao mesmo tempo em que é um discurso político de resistência. Uma resistência sensível, subjetiva, imaginária – a elaboração de uma energia que sustenta a vida, um tipo de energia que é própria do universo da arte. Nesse ponto, o livro traz uma dimensão metafísica, uma espiritualidade contida na palavra poética.

Entrecultura: Quais foram suas inspirações para escrever essa obra?

D.G: O mundo à minha volta em toda a sua diversidade – o amor, o ódio, a desilusão, a esperança, a vida, a morte, o medo, a coragem, o afeto, a luta, o enfrentamento, etc. Mas pontuo algumas coisas que julgo importantes e que me fizeram pensar bastante nesses últimos dois anos: o mundo não vai acabar agora, como também, não podemos morrer facilmente. Além do que, quando felizes, desafinamos os domínios da morte e pensamos lugares em que deus não alcança. Essas provocações poéticas norteiam todo o livro, principalmente nos poemas Enigma Necessário, A Mensagem do Santo, Reabitar 1 e 2, Rotação dos Vivos, O Prazer do Encontro, dentre outros. Nesse trabalho busquei realizar algumas travessias entre dimensões – visível/invisível, material/imaterial, memória/esquecimento, vida/morte – compondo um universo que não deseja representar o óbvio, pelo contrário, busca ampliar o mistério da vida pela força da poesia.

Entrecultura: Ao apresentar o livro, você fala em reabitar o pensamento, influenciando assim o domínio da palavra, em um momento onde a comunicação tem dado lugar a ruídos. Qual o papel da poesia nesse contexto?

D.G: A poesia funciona ao mesmo tempo como um abrigo e um espaço de enfrentamento. Lugar de onde se pode desenvolver uma reflexão sensível e também para arremessar alguns molotovs. Acredito que a poesia tem esse poder, essa energia mágica em que a palavra é o elemento condutor. Em meio a tantos ruídos de uma realidade desfocada, precisamos ter serenidade para garantir a saúde mental, manter o corpo inteiro e reabitar a casca corpórea do pensamento. Assim, acredito que a poesia é uma substância, um alimento de primeira necessidade para esse nosso momento.

Entrecultura: Como se deu a interação com o Rogério Narciso, que assina as ilustrações do livro?

D.G: O Narciso é um amigo com quem tenho desenvolvido parcerias e interações nesses últimos anos. Ele tem um trabalho que acho fantástico, consegue sair do universo banal das representações e vai para o campo do estranhamento, constrói um a mais. Gosto de como a arte dele é provocadora, além do fato de ser um cara inteligente, sem os instrumentos de desenhar na mão. O desenho que está na capa do Reabitar é de 2016, foi uma encomenda que fiz, como ilustração para um poema do meu livro anterior. Esse desenho diz muito sobre o meu universo poético. Inclusive, o tenho tatuado pelas mãos do próprio Narciso. Além do desenho da capa, o livro traz uma sequência de ilustrações, uma espécie de narrativa visual, que o Narciso criou para conversar com os poemas. Mas, antes da parceria do Reabitar, ele já havia ilustrado a edição de Nº 8 da revista Acrobata e essa experiência foi, também, muito rica pra gente e fortaleceu a amizade.

Entrecultura: Como fazer para adquirir um exemplar de Reabitar?

D.G: Deixei o livro em poucos pontos de venda, até o momento somente na Tocatta e no sebo Papiro. Estou mais interessado em vender o livro diretamente para o leitor,então,as pessoas podem me procurar pelas redes sociais (Facebook, Instagram), me encontrar nos saraus, ou me convidar para tomar um café, que levo o livro. Essa interação direta tem me interessado mais.

Entrecultura: E quanto aos demais projetos relacionados a poesia?

D.G: Nesse momento a ideia é divulgar o livro, trabalhá-lo da melhor forma para que chegue ao publico leitor e seja visto/lido. Também estou me dedicando à nova fase da revista Acrobata que, nesse momento, está ganhando a sua versão digital e existirá como um portal, com publicações constantes e também com todo o acervo disponível das nove edições impressas. Além desses trabalhos, estou finalizando uma circulação pelo projeto Arte da Palavra, promovido pelo SESC. Estou no processo de digerir essas experiências para entender o que fazer com isso que aprendi, ministrando oficinas de escrita criativa.

Sobre o autor:

Demetrios Galvão, nasceu e vive na cidade de Teresina/PI. É poeta, editor e professor. Autor dos livros de poemas Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011), Bifurcações (2014), O Avesso da Lâmpada (2017), Reabitar (2019) e do objeto poético Capsular (2015). Em 2005 lançou o CD de poemas Um Pandemônio Léxico no Arquipélago Parabólico. Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem ministrado ao longo de 2019 a oficina de criação literária “Habitar a palavra e esticar e esticar o mundo: a escrita poética coo potência humana” pelo Arte da Palavra/SESC. Atualmente edita a revista Acrobata.

Comentar