João Vasconcelos: 30 anos na cena cultural de Teresina

Por Thais Guimarães - 19/11/2019 23h38

João Vasconcelos tem muito o que dizer. Comemorando 30 anos de atuação na cena cultural da cidade, o coordenador do Complexo Club dos Diários/Theatro 04 de Setembro, terá sua história contada em um livro escrito por Marleide Lins. Enquanto não lança a obra, João Vasconcelos bateu um papo com o Entrecultura, resgatando memórias e apontando novas perspectivas para sua vida, que se mistura com a arte.

Nascido e criado no município de Beneditinos até os 17 anos, João começou a se encantar com a atuação ainda pequeno, aos seis. “O ano era 1972, as TVs chegavam em poucas casas. Meus pais são protestantes da igreja Assembleia de Deus, e na casa de protestantes não podia ter televisão. Então, eu saía para assistir nas casas das comadres de minha mãe, e foi onde me apaixonei pela televisão, pela telenovela, lembro da novela Selva de Pedra, que me marcou, me apaixonei ali pela Janete Clair. Acredito que a arte sempre esteve comigo”, recorda.

Em 1983, ele chega a Teresina para estudar. Na capital, vislumbrou uma possibilidade de estudar cinema. “Encontrei um curso de cinema no antigo Edifício Saraiva (Praça Saraiva) e me inscrevi, mas era um golpe, deram um calote na cidade e foram embora. Chegaram a dar umas aulas e desapareceram. Aí eu esqueci um pouco”, conta.

Dois anos depois, João vai ao Teatro 04 de Setembro assistir a espetáculos na histórica Semana Chico Pereira, é quando encontra a oportunidade de fazer aulas de teatro. “Naquela época ainda não tinha a Oficina Permanente Procópio Ferreira. Assim, fiz oficina com Lorena Campelo, nesta época quem dava aulas era Lorena e Arimatan Martins”, relembra.

Sua estreia foi em 1989, no espetáculo Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado, uma montagem realizada pelo grupo Raízes, onde João Ficou por muitos anos. Em 1998, foi para o grupo Harém, de onde já foi presidente.

Outro palco de atuação de João Vasconcelos são seus estabelecimentos. De 1994 a 2017, ele manteve bares e restaurantes no Centro, sempre cedendo espaço para arte e cultura. Certamente você já deve ter frequentado algum deles sem conhecer quem estava por trás: Elis Regina, Café das Seis, Em Cena, Arte de Comer, e seu último, o bar do Club dos Diários, que ficou sob sua direção até 2017.

Sempre se dividindo entre atuação, produção e empreendedorismo, João encontrou seu maior desafio em 2015: o da gestão cultural, quando foi nomeado para coordenar o maior equipamento de cultura do Estado.

“Em 2015 fiz 50 anos e recebi meu maior presente, a coordenação do complexo Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro. Nesse período, dentre outras coisas trouxemos de volta a sessão de cinema, que estava suspensa há mais de 10 anos, criamos o Projeto Terças na Casa, que contempla teatro, música e dança uma vez ao mês, retomamos o projeto Seis e Meia e Boca da Noite, que estavam parados há um ano, e criamos o Café Literário Genu Moraes”, destaca.

Um grande e histórico desafio para quem gere um teatro é a questão do acesso. Para João, o público precisa ser conquistado desde cedo. “Falta as pessoas serem provocadas na sua infância, na sua adolescência, porque você não pode gostar do que não conhece. Acredito que assim o teatro multiplicaria o público que tem. No entanto, acompanho isso há 30 anos e vejo que essa realidade vem sendo mudada, porque hoje temos outros provocadores da cultura, vide o Sesc e a Fundação Monsenhor Chaves. Ainda assim, muita gente tem medo de vir ao teatro, acham que não podem pagar pelo ingresso, que o teatro é para a elite, e não é assim, se for observar o perfil da maioria que faz teatro, são pessoas de pouca condição financeira, isso no país inteiro, e é a arte que salva essas pessoas”, avalia.

Neste ano, Joãofoi eleito presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Piauí (Sated-PI), onde se depara com o árduo trabalho de mobilizar a classe artística. “É o mesmo problema de sempre, há uma evasão. O Sated é muito importante, mas praticamente quem está presente é a equipe da direção. A classse artística geralmente só vem quando precisa, então um sindicato desse não pode ser forte, ele só é forte quando conta com seus filiados”, coloca.

Outro alvo da dedicação de João Vasconcelos é o Instituto Trama Cultura, inaugurado há um ano, cuja estrutura conta com um teatro de bolso, biblioteca, sala de ensaio para dança e teatro e quadra esportiva. O local também oferece hospedagem para artistas e agentes culturais de fora, que vêm a Teresina participar de alguma atividade. Em breve, também terá um estúdio de gravação musical, que prestará serviços para músicos por preços populares.

O ano de 2019 marca a estreia de João em uma direção teatral, com a peça Jovita, ou a Heroína de 1865, uma montagem do texto de Jônathas Batista. Com sua vasta experiência nos palcos, como contra-regra, ator, produtor e diretor de musicais de nomes como Elis Regina, Torquato Neto e Frank Sinatra, uma direção totalmente teatral foi uma experiência nova, que Vasconcelos vem cumprindo com competência, recebendo elogios de nomes importantes do teatro, como Arimatan Martins.

Cena do espetáculo “Jovita, ou a Heroína de 1865” (Foto: Arimatan Martins)

Nesses 30 anos de andança, João Vasconcelos faz profundas reflexões sobre seu eu atual. “Sou o mesmo, só que mais consciente, mas, quanto mais consciência, mais medo, então a cada dia tenho mais medo de fazer as coisas, porque você passa a ser mais cobrado. Mas tudo o que eu faço é por amor e com amor. A questão financeira é necessária por uma questão de sobrevivência, mas, se o foco for esse, quem lida com arte nem trabalha, porque na vida artística nessa cidade, em média 90% das pessoas que fazem, pagam para fazer”, reflete.

Por fim, João ressalta o valor das parcerias e de reconhecer todas as contribuições no fazer artístico, sobretudo quando se está a frente do maior complexo cultural da cidade. “Sempre agradeço. Ao Fábio Novo, à Bid Lima, às parcerias, que são constantes nesse complexo, pois ninguém faz nada sozinho, agradeço à classe artística que me dá esse crédito, que divide e multiplica comigo, e agradeço ao público, que prestigia a cena, porque o espetáculo só existe se o público vier”, conclui.

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