Pedro Ben: porque você deve conhecer

Por Redação Entrecultura - 16/01/2017 10h13

Pedro Ben reúne em si diversos perfis válidos de aprofundar: jovem, universitário, artista de trabalho autoral e apreciador das novas e antigas tecnologias. Pode até não parecer, mas tudo isto tem muito a ver, está tudo interligado.

O músico que ficou bastante conhecido durante os anos em que tocou na banda Alcaçuz (álcool, açúcar e cuscuz), formada por ele e mais dois amigos, traz à tona experiências, vivências e questionamentos. Afinal, ser artista é ter uma cabeça pensante, não somente cheia de sons, mas também de ideias e concepções.

Pedro percorre a música por uma trilha estreita e tênue, entre o novo e o velho, desconsiderando seletividades para com este ou aquele.

Se você ainda não o conhece, esta entrevista é para conhecer.

Mas se já, então vale a leitura para conhecer melhor.

EC – Qual foi o teu primeiro contato com a música?

Pedro – Bem cedo. Por meu pai ser músico, a música sempre foi algo presente e natural em minha vida, meus tios e primos todos tocam/compõe, minha família dos dois lados se envolvem com a música e literatura. A lembrança mais antiga que tenho é escutando vinis do caetano, gil, chico, gal, bethânia, milton, novos baianos, clube da esquina, alceu e toda a mpb com meus pais. Também tenho recordações de ensaios em casa e das festas familiares que sempre rolava som. Porém comecei um pouco tarde a aprender um instrumento, quis ser baterista, lá pros 14 anos, pois antes de entrar na música eu só queria saber de desenhar.

EC – Qual a tua experiência em grupos musicais e/ou carreira solo?

Pedro – Minha primeira experiência foi participando de festivais estudantis de música na escola em que estudava. Participei de três, fui premiado em dois. Ainda na escola participei de duas bandas. Passei um tempo tocando profissionalmente com meu pai, tinha 18 anos nesse tempo, onde junto dele fizemos abertura de shows do Gilberto Gil e Chico César, viajamos e tudo mais, foi aí que fui me atentando para algumas coisas. Depois já na universidade de Jornalismo/Psicologia, surgiu a Filosofia de Farmácia que foi o ponta pé para a Alcaçuz, que posso dizer que foi a banda que passei mais tempo e aprendi muito. Mas já gravei, participei, produzi, toquei por aí, sou muito seletivo e vez ou outra sempre faço apresentações/gravo com meu pai, Assis Bezerra.

EC – tu já pensava em trabalhar com instrumentos digitais ou isso se deu de forma gradual?

Pedro – Sempre quis. A dificuldade para adquirir foi questão financeira mesmo.

EC – De que forma tu vê a música eletrônica?

Pedro – Eu vejo como um caminho natural da música. O som sempre esteve atrelado à evolução da tecnologia, então vejo a música eletrônica como uma gama de possibilidades sonoras que se pode alcançar e criar. Outra que a música em si, no que diz respeito a equipamento, necessita de aparatos eletrônicos, não separo analógico do digital, para mim um complementa e precisa do outro. Sou consumidor de alguns nichos de música eletrônica, escuto muito Justice, por exemplo.

 

EC – De que forma tu se utiliza da tecnologia?

Pedro – Para mim a função principal da tecnologia na música é alcançar uma maior qualidade e possibilidades sonoras. Me utilizo na busca deste fim.

EC – você enxerga o mercado tecnológico voltado para a música, em seu âmbito local? Você sente carência de recursos tecnológicos?

Pedro – Deixa muito a desejar. Mesmo na época em que a gente se encontra, ainda é muito difícil conseguir certos instrumentos ou equipamentos para música aqui na cidade. A maioria das vezes em que preciso adquirir algo, preciso recorrer a lojas de SP ou RJ. Isso dificulta e acaba influenciando na produção e desenvolvimento local neste quesito musical.

EC – quais são as tuas influências musicais?

Pedro – Para mim essa é uma pergunta fácil e difícil ao mesmo tempo. Escuto muita coisa, de quase todo estilo, para mim todo tipo de música pode me influenciar, ensinar e acrescentar, sou muito sonoro, gosto de pesquisar, ir atrás de algo que ainda não conheço, sou daqueles que “descobre” uma banda e saio ouvindo toda a discografia de uma vez, pesquiso sobre a vida dos músicos, projetos paralelos. Tenho uma lista de bandas para ouvir/pesquisar. Mas sou muito de fases e momentos, posso dizer que atualmente os sons que mais tenho ouvido são as bandas Unknowm Mortal Orchestra, Connan Mockasin, Silicon, Mac Demarco, Tame Impala, Badbadnotgood, Metronomy, Homeshake, Soft Hair, Toro y moi, Washed Out,The Whitest boy alive, Caetano Veloso, Cidadão Instigado, Curumin, muita guitarrada e um bucado de outros sons, mas um dia desse tava criando uma playlist de samba da década de 20 a 50, gosto de criar playslist, se tu me perguntar daqui uns 15 dias tá tudo diferente.

EC – pretensões de levar o teu trabalho para além do cenário local? Se sim, de que forma?

Pedro – Com certeza. Eu acredito mais em criar vínculos do que no marketing e propaganda convencionais. O que quero dizer é que eu funciono muito mais através de um contato pessoal do que impessoal na música. Eu não dou certo com mercado musical, rede sociais e afins. Vou deixar que minha música me leve aos lugares, se ela está me levando é porque aquele lugar vale a pena. Não quero sucesso, quero reconhecimento. Não vou viver para sempre, o sucesso é algo terreno, é um momento que vai acabar, já a música vai ficar enquanto houver existência na terra. Gostem ou não. O reconhecimento vai permanecer mesmo depois que eu me for. Minha música vai continuar depois de mim.

 

EC – Qual a relação entre a tecnologia e a produção musical local?

Pedro – Aos poucos está melhorando. Vejo e conheço músicos que estão se esforçando, estudando, pesquisando, indo atrás para conseguir. Ainda está muito no começo comparado a outros locais. Mas com o acesso a internet essa distância tende a diminuir mais rapidamente, vai depender da vontade dos próprios músicos.

 

EC – Como você enxerga o cenário musical local?

Pedro – Temos grandes compositores(as) e grandes músicos, em todos os estilos. Mas ainda temos um alcance muito pouco dentro da cidade e menos ainda fora dela e a nível nacional. Não vejo culpa e culpados, a questão é de participação e engajamento. O mercado põe certos estilos em alta, o público não se envolve tanto, a iniciativa privada e pública é delicada, alguns músicos alimentam vaidades, os eventos sofrem de equipamentos precários, as casas, produtores e parte do público “incentivam” o cover. Não vou me aprofundar muito nesse assunto, é uma pauta grande e poderia elencar vários pontos. Mas deixo uma questão: e se as bandas covers daqui fossem obrigadas a pagar direito autorais, como acontece em outros locais, ainda teriam tanta força? Qual risco há em ganhar dinheiro tocando um repertório já consagrado que não é seu? Só sei que quem perde são todos os músicos e todo o público, a longo prazo. Acaba que a cidade não se torna rota musical. Essa é minha resposta de hoje.

EC – De que forma o teu trabalho movimenta e intervém nesse cenário?

Pedro – Eu não sei dizer. Não tenho muito “controle” da minha música. Estou no começo, ainda tenho muito por fazer e aprender. Estou sempre produzindo e faço shows. Me vejo muito como um estranho no ninho. Já passei por situações ruins, principalmente no início. Prefiro manter uma certa distância e deixar minha música andar por si só. Mas espero que inspire quem quer iniciar algo autoral. Esse é meu convite. A música tá muito igual há um bom tempo. O público em geral está acostumado ou só quer ouvir mais do mesmo, algo que não precise digerir, os mesmos tipos de letras, as mesmas maneiras de cantar, as mesmas construções musicais. E alguns músicos acomodaram nisso. A música tá aberta a infinitas possibilidades ainda. Vamos virar esse som de cabeça para baixo. Esse é meu propósito.

EC – Há alguma(s) carência(s) ou excesso(s) no cenário local?

Pedro – Carência principalmente na qualidade ao vivo, não por parte dos músicos, mas dos operadores de som e de algumas casas sem preparo; e poucos estúdios que saibam gravar fora do formato. Não descrevo como excesso, mas o cover predomina perante o autoral. Não é mimimi nem reclamação. É só ir num evento autoral gratuito e num cover pago e veja a diferença de público. AUTORAL GRATUITO!! é fato. E não venha dizer que banda X tem público, o bom não seria a banda Y, Z, K e W também lotarem seus shows? Então o autoral em geral é ruim? O cover tem qualidade? O público não se interessa? É falta de incentivo público-privado? Deixo questionamentos. Quem sou eu para dar respostas.

EC – Quais as manifestações estão surgindo com o advento da tecnologia? Como a tecnologia pode auxiliar na qualificação de músicos no estado?

Pedro – A de efeito imediato é a melhora na qualidade dos discos em geral e a produção de clipes e vídeos na cidade. Auxilia que os músicos daqui podem ter um trabalho a altura do que está sendo feito no restante do país.

EC – o que você tem produzido atualmente?

Pedro – Neste ano, além do meu novo trabalho (Duben – música fora de moda) lançado em agosto, o qual já tenho munição para um segundo disco; gravei sintetizadores na minha música “Trejeitos” para o EP da Bia e os Becks, na faixa “Olhos de Fogo” para o disco da Eletrique Zamba, na faixa “Boca sequência” de Severo, o qual também produzimos e acompanho ao vivo; gravei uma versão da música “Esse menino” de Edvaldo Nascimento para o projeto Sintonia (de Ricardo Totte) e estou finalizando a produção de um disco de guitarrada instrumental do meu pai. Além de outras produções que não posso revelar ainda.

EC – como tu enxerga a relação entre público e o teu trabalho?

Pedro – Desse novo trabalho ainda não fiz nenhuma apresentação ao vivo e como disse não sou muito bom em fazer propaganda da minha música. Faço apenas o mínimo. Então por um lado isso prejudica essa “relação”. No caso da Alcaçuz essa relação estava melhorando com o passar dos anos, também fazíamos todo aquele marketing de banda e foram 95 shows de todo jeito. Apesar de ser bastante oneroso realizar shows aqui. Quero que “meu” público sinta o mesmo sentimento que sinto quando descubro uma banda nova. “Caralho, porque não ouvi isso antes!”. Me descubram. Não tenho pressa.

EC – O teu trabalho dispõe de que tipos de tecnologia?

Pedro – Basicamente todo o meu equipamento, que uso em gravações e em estúdio, que mescla digital e analógico. Em meu pedalboard uso atualmente os seguintes pedais: whammy da digitech, multifuzz/vintage distortion da nig, trip’n’fuzz da fire, delay/echo DE7 da ibanez, spring reverb da landsacape, phaser da cruzer e baby tuner da mooer (retirei o wah wah jim dunlop do set) ; guitarra uso três: uma fender stratocaster, uma squier mustang e uma outra stratocaster, Vester, cópia japonesa da fender; um sintetizador microkorg, teclado yamaha e um cubo fender frontman. A questão é você buscar o som que quer ouvir, buscar uma timbragem própria. Mas minha maior tecnologia é minha mente e a matéria-prima é a vida, a música, a literatura, o teatro, o cinema. Não adianta nada ter tudo isso e não usar criativamente. Eu tento.

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Um pouco mais sobre o seu novo trabalho, intitulado “Duben – Música fora de moda”:

“mundo exibicionista,vaidoso. relações induzidas e destruidas atrás de telas. vitrines do outro para o outro. assistindo de camarote a passarela de humanóides. nessas terras de nuvens selvagens. todos animais da mesma natureza. narcísica. egóica. psicologias. antropologias. populismos. economias. partidos em partes. em cima do muro partido. observações e histórias. estamos de olho em nós. solidão latente em meio a um limbo de dados. talvez informações. cabeça cheia. mau olhado. mente fechada. tanta gente e tanta coisa dessa gente toda. um parque de versões. uns versões dos outros. perdendo-se em indentidades. as máscaras tornando-se personas. o não ser desfragmentado. um ser pela metade. nunca precisou-se tanto não ser. banal,efêmero,descartável,rentável. exarcebado,até desnecessário. seguem na mesma velocidade em que descartam. nunca nada valeu nada e ao mesmo tempo nunca rendeu tanto. a arte ainda é necessária. porque ser é necessário. viver na guerra,escravidão, ignorância. talvez feliz. conceitos pré-conceitos. dicotomias esteriotipadas. gente antipática. todas fáceis de amar. criador e criatura. oprimido opressor. um par vagabundo. todos réus. todos juízes no purgatório de impulsos virtuais. indo só em tempos apocalípticos. devaneios cyberpunk. fibras eletromagnéticas tensas. vida fora de moda. tão na moda. farsas e fartas. os astronautas não querem voltar. gostamos de vir, ver e comer toda essa gente. aqui não há verdades, nem mentiras. aqui é o fim.”

– Duben

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Soundcloud:  https://soundcloud.com/duben-141745043/sets/musica-fora-de-moda-2016

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