Arte como tática de guerrilha: intervenções artísticas em protestos chamam atenção em Teresina

Por Redação Entrecultura - 08/06/2018 09h00

O conceito de arte-guerrilha surgiu na década de 60, e consiste na utilização da arte como tática dos movimentos sociais. Alguns trabalhos, como o Minimanual da Arte Guerrilha Urbana, do Coletivo Aparecidos Políticos, explora o tema, apresentando uma série de ideias para intervenções artísticas e políticas, como cartaz, lambe, stencil, grafitti, dentre outras.

Em Teresina, o movimento tem crescido em decorrência de acontecimentos diversos. O crescente número de feminicídios na nossa capital ou a conjuntura política local e nacional, inspiram artistas como Luciana Leite, a Lu Rebordosa, a criar e a investir na arte como tática de guerrilha.

Lu Rebordosa

As últimas intervenções de Lu Rebordosa têm como pauta o feminismo. Em um ato realizado recentemente em decorrência dos inúmeros feminicídios em Teresina, Lu Rebordosa instalou, nas grades do Palácio de Karnak, cartazes que retratavam mulheres mortas apenas pelo fato de serem mulheres. Lu, que é professora de artes, também produziu uma série de adesivos que estão se espalhando pela cidade, com mensagens ressaltando a importância do empoderamento feminino. Em entrevista ao Entrecultura, Lu Rebordosa falou um pouco sobre suas últimas ações.

Entrecultura: Nos movimentos sociais muito se fala sobre arte como tática de guerrilha, o que você entende por isso?

Lu Rebordosa: A arte como uma tática de guerrilha é como uma arma mesmo, uma forma de resistir, de lutar contra o sistema, contra as relações de poder que nos oprimem, que oprimem as mulheres, a comunidade LGBT, as negras e os negros, os jovens… A gente sabe que o Estado, que deveria agir em favor da população, defende cada vez mais as elites e os interesses do Capital, e hoje estamos vendo pessoas pedindo intervenção militar, gente sendo perseguida por estar falando sobre empoderamento feminino, comunidades sendo atacadas, então, o que podemos fazer enquanto “artevista” é usar a arte como uma tática de resistência, para combater essas injustiças

Entrecultura: Qual sua experiência pessoal com essa tática?

L.R: Uso essa tática há muito tempo. Minha experiência começou a se intensificar em 2013 quando comecei a fazer parte de movimentos coletivos e a partir de ocupações, quando começamos a fazer proposições na cidade, ocupando espaços urbano e intervindo nestes espaços, praticando e transformando esses lugares, mas, não era simplesmente chegar lá e pensar que estava salvando, fazendo algo por um espaço abandonado, porque esses espaços não estão abandonados, o que ocorre é que esses locais e os sujeitos que lá vivem estão diariamente invisibilizados e silenciados pelo sistema, marginalizados. Então, a arte como “art atack” é justamente para conseguir garantir que essas vozes sejam ouvidas, que essas narrativas sejam respeitadas.

Entrecultura: Recentemente, cartazes produzidos por você ganharam destaque em um ato em Teresina pelo fim do feminicídio. O que ajudou na composição daquele material?

L.R: Os cartazes surgiram nesse ato, mas, a partir desse ato eu comecei a desenvolver essa pesquisa e essa inspiração foi justamente para não deixar que essas mulheres sejam esquecidas, para não deixar que os assassinos, os responsáveis continuem impunes, para dar voz às mulheres e para mostrar para a sociedade como essas mulheres existem, são nossas irmãs, nossas filhas, nossas mães, nossas avós, nossas vizinhas, nossas amigas, nossas professoras, são nossas companheiras. Então, para fazer esses cartazes, com uma pesquisa extremamente dolorosa eu revi casos da época da ditadura, quando crianças, uma de sete anos e outra de oito, foram sequestradas, torturadas, estupradas e mortas e os culpados, que todos sabiam quem era, foram absolvidos.

Entrecultura: Além dos cartazes, que outro tipo de material artístico pode ser utilizado como forma de manifestação em atos como esse que aconteceu?

L.R: Além dos cartazes, que são uma potência muito grande na tática de guerrilha, as instalações têm forte impacto, não só visual mas comunicativo e social mesmo. Essas instalações podem ser desde uma garrafa com frases motivacionais perdida na rua, a um sticker (adesivo) em um poste gritando quem tem medo de buceta ou a uma rua tomada por gaiolas questionando “Fora da gaiola, voa?”, a arte de guerrilha não tem limites e a gente usa para sair desas gaiolas invisíveis, para combater mesmo essas relações de poder desiguais, injustas, genocidas … é arte e corpo como potência criativa permeada por afetos e atravessamento que inventa conhecimentos através da vivência, do olho no olho, dessa revolução e reXistência diária. Vamos a Luta! subverter e “desafinar o coro dos contentes”!

Fotos do acervo pessoal de Lu Rebordosa.

 

#Entrecultura

Comentários

Clarice

DesAntenados sumam! Acabou a invisibilidade, ação e voz a todos
Valeu Lu

04 jul, 2018 Responder

Comentar