Os Escarros Poéticos de Tarciana Ribeiro

Por Thais Guimarães - 22/01/2020 09h00

“Nunca consegui refletir a vida sem associá-la à escrita”. É o como a poeta teresinense Tarciana Ribeiro avalia seu trabalho. Tendo começado a escrever ainda na infância, a escritora lembra que seu primeiro poema veio aos 11 anos, fruto da imaginação e de reflexões de uma criança calada, porém observadora. Tomando gosto pela escrita, Tarciana foi organizando seus textos e eis que surge o projeto “Escarros Poéticos”, onde a escritora faz jorrar tudo o que sente e pensa.

Com textos publicados em duas antologias, Antologia Líquida e POESIS 2019, Tarciana está sempre pensando mecanismos de multiplicação da poesia. Atualmente coordena outro projeto, o “Lambe de Longe”, que hoje faz circular lambes com poemas em pelo menos quatro cidades do Brasil. O Entrecultura bateu um papo com a poeta, que falou mais sobre sua arte, percepções e inspirações. Confere!

Tarciana Ribeiro

Entrecultura: Qual a sua história com a escrita?

Tarciana Ribeiro: Bom, eu realmente não recordo sobre quais foram os meus primeiros textos. O que recordo é que eu sempre tinha um diário e que eu reconheço… a forma como eu descrevia os acontecimentos era prolixa e meio dramática (risos). Creio que essa “estrutura” foi crescendo, até que eu escrevi os primeiros poemas, que eram bem imaturos, aos 11 anos. Tinha um fichário com todos eles escritos. Eu era uma criança bem calada, tive vários problemas na adolescência, entre eles a descoberta da depressão, então ficava fechada no meu universo escrevendo, e mesmo com vários acontecimentos psicológicos favoráveis, nunca consegui refletir a vida sem associá-la à escrita. Vou vivendo e escrevendo.

Entrecultura: Como e quando surge o projeto “Escarros Poéticos”?

T.R: Logo após uma sequência de acontecimentos terapêuticos, compreendi através da psicologia que o texto era uma forma de expurgo. Eu já estava razoavelmente bem e então comecei a me relacionar socialmente de forma mais ampla, foi aí que eu conheci diversas pessoas que liam o que eu escrevia e que falavam sobre a publicação, sobre divulgação. Os textos já existem há alguns anos, mas foram somente expostos em 2014, pela primeira vez no evento “INTINERARTE”, que ocorreu na Potycabana e reuniu diversos trabalhos artísticos. Como eu sempre gostei de ilustrações e as que eu mais gosto são produzidas por mulheres, resolvi criar a princípio um blog. E o nome de escarro vem desse conceito: jorrar, expurgar, botar pra fora.

Entrecultura: Podemos perceber em Teresina um crescimento na visibilidade dos trabalhos de mulheres escritoras, embora ainda fique muito aquém do esperado. Como você avalia isso?

T.R: Avalio de forma positiva, acredito no potencial das escritoras que aqui nasceram ou residem. O que me entristece é uma limitação e até uma vibração de competição que não deveria existir. Aqui em Teresina pode-se observar que sempre os poetas (homens) estão de certa forma “unidos”, movimentando o cenário cultural, enquanto as poetisas/escritoras se prendem a um círculo único que mais parece de amizade e identificação do que de expansão poética. Isso me entristece um pouco, mas me abstenho e só observo. Creio que cada pessoa deve ser respeitada por suas escolhas e sempre sou grata a todos os grupos de mulheres e grupos de gêneros mistos que me acolhem e que gostam dos meus escritos. Sempre fico feliz quando reconheço a evidência do impulsionamento do texto de uma mulher através de outras mulheres. Acho que a pretensão atrapalha o seu desenvolvimento pessoal como escritor e acredito que o “aquém do esperado” vai se dissolvendo à medida em que todos evoluímos. Com o tempo, para quem tem a sensibilidade de observação, bate um cansaço. Você só quer estar escrevendo tranquilo, sem a pressão de pertencimento. Ano passado eu e outros escritores de Teresina (não só mulheres) ganhamos uma publicação em uma Antologia Nacional pelo Concurso Vivara. Não houve manifestação de felicidade a não ser entre nós, que recebemos o resultado de que nossos textos foram publicados. Creio que se a publicação tivesse partido de “nomes já conhecidos nas rodas literárias teresinenses” o burburinho seria outro. O que sinto é que existem nichos, aos quais é muito difícil pertencer, e que você realmente tem que estar ao lado de quem te enxerga enquanto você é só um(a) “escritor(a) de Instagram”, mesmo que já faça parte do hall impresso. Ademais, qualquer movimentação poética é mais válida do que a “aceitação” em si (risos). O que importa é fazer a roda poética girar dentro dessa cidade que merece toda a atenção cultural que infelizmente não tem, a depender dos governantes. No fim das contas, somos todos ativistas poéticos que, com respeito e empatia, podemos ocupar o mesmo espaço sem rasurar a memória um do outro. Aproveito o espaço para agradecer às pessoas que sempre acolheram os meus textos desde o princípio e que fizeram esforços para que chegassem à população através de exposições, pequenas impressões, zines, adesivos e livros impressos: LuRebordosa, Mariana Paz, André Ângelo, Elizabeth Silva, Alisson Carvalho, João Henrique Vieira, Ozeias Alves, e aos estabelecimentos que já proporcionaram encontros literários sempre me incluindo. Gratidão.

Entrecultura: Seus textos sempre vêm acompanhado de imagens. Como é essa relação?

T.R: Como mencionado anteriormente, sempre gostei de ilustrações, da sensação imagética e sinestésica que se pode ter observando traços, cores, formas e cenários. Sempre que escrevo um texto imagino uma cena (ou lembro-me de uma cena), então peço licença à ilustradora escolhida para que ela me conceda a imagem que melhor represente os monólogos, que hoje recebem o título de “Devaneios de Olga”.

Entrecultura: Qual a importância das redes sociais para o seu trabalho?

T.R: Eu gosto de arquivos digitais. Acho a rede virtual um espaço incrível de memória, por mais que sofra modificações e readaptações o tempo inteiro. Todos os textos publicados ficam salvos em forma de manuscrito, mas confesso que o primeiro contato é sempre no Word. Tive uma professora uma vez que tentava explicar esse processo por meio do que ela chamava de “síndrome do pensamento acelerado”. O que ocorre é que a palavra “escarro” também explica isso… Eu passo muito tempo sem escrever, observando as leituras de mundo que são feitas para a construção do texto, que são em sua maior parte autobiográficos. Desta forma, o texto, antes mesmo de ser escrito, já passa por alterações, porque são inspirações contínuas sobre atos, pensamentos, acontecimentos, desfechos e quando ocorre o insight ou a frase que vai servir de apoio para o desenvolvimento de todo o texto, é que sento e então digito tudo até terminar, ininterruptamente. Para mim é a forma mais fácil. Não consigo escrever de pedaço em pedaço, por isso concluo a ideia antes de passá-la para o computador, que é meu arquivo (risos).

Entrecultura: Onde podemos ter acesso aos Escarros Poéticos?

T.R: O mundo virtual nos proporciona conhecer vários outros escritores de diversos lugares, então desenvolvi um projeto chamado “Lambe de Longe” em que os poetas de cada cidade escolhem ao menos cinco textos de outros poetas para transformar em lambe, sempre identificando o Instagram para ser localizado pelos transeuntes. Creio que a poesia, a prosa, o monólogo e todas as variações de textos poéticos devem atravessar os limites geográficos e impressos, proporcionando assim um alastramento cultural e visionário. Os escarros estão disponíveis no instagram @escarrospoeticos, alguns textos estão no site MeArt.com e em formato de “lambe” em algumas cidades do país, como Teresina, São Paulo (SP), Parnaíba (PI) e São Luís (MA).

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