Uma carta aberta por Pedro Ben

Por Redação Entrecultura - 19/05/2020 12h30
(foto: José Ailson)

Cada disco ou trabalho artístico reflete o que vivemos em uma época de nossas vidas, uma espécie de fotografia do tempo. Venho compondo um repertório de afoxé e outro instrumental. São duas frentes aparentemente distintas, mas que dialogam dentro de mim. Um sobre minhas raízes familiar e outro sobre minhas inclinações ao experimentalismo.

Sempre aproximei música cantada da instrumental em todos os meus trabalhos musicais, onde pessoalmente não faço essa separação, tudo é música, música é sempre sobre comunicar algo, cabe a cada um identificar o que melhor lhe comunica. Gosto da ideia de comunicar sem voz – ou da voz apenas como um som sem texto – de cada vez mais me distanciar em fazer música dentro de uma estrutura tradicional. “Música tem que ter refrão, tem que ter solo, tem que ter três minutos … “ . Não, música não precisa ter nada disso e pode ter tudo isso. Não vejo motivos para não experimentar e desconstruir. Grande parte das músicas são estruturadas da mesma forma, nossos ouvidos tem poucas surpresas.

Tenho o cuidado e a tendência de sempre lançar discos conceituais, que abordem tanto uma temática em texto quanto uma estética em som, mesmo quando este texto seja apenas o título da música, e isto se basta. No “Música fora de moda”(2016), indaguei a vaidade das relações e o narcisismos dos egos em tempos de modernidade líquida e músicas descartáveis, no “1990” (2019) abordei o conceito do tempo e nostalgias, através da oposição silêncio versus ruído na sociedade do cansaço; apesar de não esperar que tudo isso seja absorvido ou percebido nos sons por quem ouve, ser entendido é meu último objetivo.

Sempre quis compor um disco que tratasse sobre síndromes e transtornos mentais – isso não tem a ver necessariamente por ser formado em psicologia – mas por ser consciente que toda a sociedade é doente em algum nível psicológico. Então, posso adiantar que o disco instrumental – que será o primeiro sem alter-ego ou dentro de uma banda – irá tratar sobre um desses distúrbios, de como ele se manifesta na noite: a insônia. Sendo esta apenas um sintoma de um transtorno maior, a ansiedade; talvez um dos problemas que mais afetam nossa atual sociedade, e mesmo muito antes dessa pandemia a qual enfrentamos. Sonoramente vai permear influências do lo-fi, chillwave e chillhop, através de uma estrutura de trilha sonora, ou seja, funcionará como uma única faixa e fará mais sentido na ordem em que o repertório será apresentado.

No momento me interessa muito mais compor algo que soe como uma experiência musical e não apenas como entretenimento ou algo a ser consumido, a ser codificado por algoritmos que indicam as músicas “perfeitas” a cada pessoa em sua bolha. Não é algo para alcançar multidões ou ganhar curtidas, como se vivêssemos em uma caixa de Skinner ou as relações fossem reduzidas a números, o sucesso é um impostor. O objetivo são sinestesias, como de quando se assiste um filme e não se sabe ao certo porque certa sensação vem a tona, a qual é ocasionada pela trilha sonora, as vezes imperceptível, pois atua muito mais como um fundo do que como plano.

Me identifico muito com o som lo-fi que vem sendo feito atualmente, de como é estruturado através de samples, beats e loops, onde qualquer um pode se expressar e compor uma música, sem precisar ser um músico profissional, em que sua guia é apenas seu ouvido e sensibilidade, sem envolver nenhum tipo de técnica extraordinária. Fazendo uma analogia, é muito do que o movimento punk representou em sua época, a máxima do “faça você mesmo”, e mais do que isso, a ideia de qualquer um pode e deve fazer música.

Este som presente nas inúmeras rádios e playlist lo-fi refletem muito o espírito da época em que estamos. São sons repetitivos, com batidas simples, uma pegada de jazz ou hip-hop, predominantemente instrumental, quando não, guiado por vocalizações ou diálogos, tudo isso regado a chiados, sons de chuva, o entardecer, um café, a noite e uma certa melancolia. São músicas que não carregam obrigatoriamente a utilidade de entreter ou serem produtos vendáveis, que não tiram a atenção de uma tarefa principal, o foco é relaxar, ler, estudar, realizar tarefas cotidianas e até dormir; Feito por “artistas” de nomes codificados, sem rostos e que não irão apresentar-se ao vivo. Tira do pedestal a persona de artista e o glamour do que é fazer música. No momento, quero que minha música se aproxime muito mais dessas condições.

Digo que esta maneira de fazer e se consumir música está em sincronicidade com nosso tempo, pois cumprem a função da nossa dificuldade em se desligar do mundo e simplesmente relaxar em silêncio, por estarmos sempre online; não são músicas para grandes eventos ou de estádios, nem para interação, são músicas para seu cotidiano, solidão e intimidade. Época em que é perigoso aproximar-se do outro. Ma já vínhamos vivendo assim, mesmo quando juntos em um local estávamos cada um conectado em seu mundo isolado, em sua realidade virtual. E é nesse momento que constatamos o quão precisamos do outro, de contato, de afeto, de reciprocidade, que vivemos em uma rede, que o que cada um faz interfere no todo e que não vivemos em um ilha. Quando conexão era uma palavra bonita, uma interação.

Acredito muito que todos nós temos potencial artístico, desde a infância, para criar, seja na música, desenho, pintura, escrita, atuação e etc, mas que somos castrados pelas imposições e escolhas sociais, e alguns de nós perdemos isso. Outros não conseguem mesmo que tentassem. A arte está aqui para provar o que sempre foi obvio, de que precisamos alimentar-se de arte e que o artista e a cultura é fundamental para o tecido social.

Não há previsão de lançamento de nenhum de ambos os trabalhos, mas eles estão acontecendo, mesmo que ainda só no quarto dimensões. Em breve eles irão nascer aos ouvidos que não somente os meus. Posso dizer que o próximo terá como título “Zeitgeist” e será um trilha sonora de sons dadaístas para frustrações psicológicas, para todas aquelas pessoas que lidam e convivem com a ansiedade, medo, preocupações, pânico, insegurança, solidão e insônia. Feito para estes tempos, que refletem o que estou/estamos vivendo agora.

 

Pedro Ben (músico, produtor musical & fundador do selo quarto dimensões)

Quarto Dimensões – Ao Vivo no FragmentadoLab

Playlist selo Quarto Dimensões
Instagram

Comentar