Balada Litherária: entrevista com Douglas Machado

Por Redação Entrecultura - 22/08/2020 15h56

 

A entrevista na íntegra, foram feitos pelo músico e poeta teresinense Thiago E.

Artífice do silêncio. Trabalhador da palavra. Operário diário do cinema. Curador de mostras. Documentarista. Roteirista. Editor de revistas e livros. Ficcionista. Quantas personas cabem em Douglas Machado? Inúmeras. Em quantas imagens podemos vê-lo em público? Para alguém que faz da vida um permanente diálogo com várias artes, fica impossível saber. Registro apenas que é teresinense nascido em 1964. Seus trabalhos no audiovisual começaram em 1987, na TVE-PI. Realizou produções em diferentes regiões do Brasil, na Suécia e na Espanha.

Como sócio da Trinca Filmes Ltda., produtora que trabalha com Cinema e Literatura, dando especial atenção ao Nordeste do Brasil e ao Sertão, dirigiu diversos filmes: Ensaios íntimos e imperfeitos (2015-2018); Poesia na madeira (2014); Wilson Martins – A consciência da crítica (2012); Na estrada com Zé Limeira (2011), João (2010); Alberto da Costa e Silva – O retorno do filho (2009); Luiz Antonio de Assis Brasil – O códice e o cinzel (2007); Um corpo subterrâneo (2006); O Sertãomundo de Suassuna (2003); H. Dobal – Um homem particular (2002); Cipriano (2001); Hora Zero – El Salvador depois da guerra (1994), dentre outros.

Douglas Machado também é editor da Hoblicua, uma revista anual de literatura, e dos selos Agarazul e meiomilheiro, publicando poesia, ensaio e romance. Como proceder com um cidadão inquieto assim? Alumbrador de público. Estudante. Formador de plateia. Professor Registro, enfim, que é preciso ouvi-lo.

Thiago E: Douglas, como começou sua paixão por cinema? E quando o audiovisual virou trabalho e razão de ser?

Douglas: Até onde minha memória vai, começou quando eu era ainda garoto. Por vezes os meus pais deixavam a mim e ao meu irmão mais velho (Marden Machado, crítico de cinema) no Cine Royal enquanto eles trabalhavam. O cinema, portanto, se tornou nosso parceiro constante. Inclusive, assistíamos o mesmo filme repetidas vezes. Cheguei a acreditar que seria esta a única maneira de assistir filmes (ainda hoje mantenho este hábito e vejo e revejo a mesma obra diversas vezes). Eis o começo! Garanto em dizer, também, que os filmes terminaram por nos formar enquanto cidadãos. A paixão começou desta maneira. Tem uma base sólida e inabalável. Sobre o audiovisual ter virado trabalho, parte integral de minha vida enquanto profissional, o crédito vai, sobretudo, para o Chaim Litewski. Ele estava, juntamente com o José Carlos Asbeg, à frente da TV Antares no final da década de 1980. Chaim sempre acreditou que eu poderia trilhar este caminho como profissão. Até mais do que eu mesmo. Em 1988, através dele, dirigi pela primeira vez um programa de TV. Tratava-se do Animando – uma espécie de coletânea de videoclipes, animações, bastidores de cinema, etc, com 30 minutos de duração (de segunda à sexta, às 19h). Posso dizer que este foi o passo inicial do meu trabalho.

Thiago E: Você já dirigiu documentários sobre os poetas H. Dobal, Ariano Suassuna, Alberto Da Costa e Silva, Zé Limeira etc. Fala um pouco sobre teu amor à poesia.

Douglas: A poesia tem um diálogo orgânico com o Cinema, desde o seu nascimento. Eis a base deste amor. Indico aqui a leitura do livro Esculpir o tempo, de Andrei Tarkovsky. Está tudo neste livro, toda a possibilidade de explicar este sentimento.

Thiago E: Além de cineasta, você é curador de mostras e responsável pela programação do Cinemas Teresina. Quais as alegrias e dificuldades de trabalhar com cinema no Piauí?

Douglas: Vamos deixar as dificuldades de lado? Sempre foi difícil trabalhar com cinema, seja no Piauí, no Brasil ou mesmo em grande parte do nosso planeta… redondo, por sinal. Ademais, te respondo em meio a esta pandemia da Covid-19, portanto, tudo que tínhamos antes nos parece mais fácil e mais possível se comparado ao cenário atual. Focando unicamente no trabalho como curador e programador do Cinemas Teresina, posso dizer que minha maior alegria é proporcionar um leque amplo de cinematografias que possam deixar nosso espectador num estado de alumbramento, compreende? Além de dividir conhecimento sobre a Sétima Arte através das sessões com debate, onde o espectador pode conversar diretamente com os cineastas, elenco e produtores; participar das masters classes com profissionais de ponta no mercado cinematográfico; assistir mostras e retrospectivas que ampliam o entendimento da produção audiovisual. Cinema, para mim, não deve se limitar a exibição do catálogo de lançamentos, unicamente. Tem que ir mais além, abraçar o espectador em sua inteireza. Sorte minha trabalhar com uma equipe e uma diretoria que compartilha dos mesmos pensamentos. Estamos, todos juntos, construindo nossa identidade aqui no Cinemas Teresina.

Thiago E: Você também é um dos editores da Hoblicua editora, publicando lindos livros, sobretudo, de poesia. Comenta sobre os autores já editados por vocês e quais os próximos lançamentos.

Douglas: Publicamos especiais centrando na obra de Alberto da Costa e Silva, Ariano Suassuna, Paulo Henriques Britto, Walmir Ayala bem como livros de poesia, ensaios e prosa. Dos livros de poesia, destaco “Tantum ergo”, do teresinense George Anselmo Isidoro. Autor pouco conhecido, mas com uma obra que nos chamou a atenção desde sempre. Tampouco devo esquecer “Pluvioso”, do escocês John Burnside e o “Poemas”, uma seleção de poesias do inglês John Clare – com organização e tradução do também poeta Alexei Bueno. Este livro foi finalista no Jabuti de 2018. Alexei também traduziu o belo ensaio “O nome e a natureza da poesia”, de A.E. Housman, que publicamos através do selo Meiomilheiro – livros com preço mais em conta. No campo da prosa publicamos apenas um livro até o momento: “Havergey”, do John Burnside. Uma ficção científica tendo como base uma viagem no tempo para discutir questões ambientais e de sobrevivência da humanidade. Livro bastante adequado para os dias de hoje, inclusive! Não saberia responder quais seriam os próximos lançamentos. As circunstâncias atuais impedem qualquer planejamento. Os livros continuam em circulação. Isso é bom. Os próximos passos dependem de muitas questões que escapam das minhas mãos.

Thiago E: No governo Bolsonaro, há uma dura perseguição às artes, manifestações culturais e, claro, ao cinema. Que avaliação você faz das produções tendo que lidar com tantos ataques?

Douglas: Nos créditos finais do Bacurau, os produtores listaram os resultados do que foi gerado de emprego no filme, além de fortalecer a construção de nossa identidade nacional. Este é um exemplo, mas podemos lembrar de vários filmes brasileiros que geraram o pagamento de impostos, geraram trabalho e um significativo respeito ao nosso Cinema. No calor da hora, lembro, por exemplo, de filmes como Chuva é cantoria na aldeia dos mortos [Renée Nader Messora e João Salaviza]; Greta [Armando Praça]; Azougue Nazaré [Tiago Melo]; A cidade do futuro [Marília Guerreiro e Cláudio Marques]; Arábia [João Dumans e Affonso Uchoa]; Temporada [André Novais Oliveira] e tantos outros. Contrário a um fato como esse, é o ódio à nossa própria identidade. Ponto. Como lidar com o ódio? Seguir cobrando os nossos direitos e trabalhando com esmero.

Thiago E: 10 filmes que você indicaria para pensarmos o Brasil.

Douglas: A lista dialoga com este exato momento sem estabelecer uma sequência de prioridades… todos os dez filmes que seguem podem e devem ser revisitados com igual interesse e entusiasmo: Bacurau [Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019]; Cidadão Boilesen [Chaim Litewski | 2009]; Katya [Karla Ho- landa | 2012]; o fim e o princípio [Eduardo Coutinho | 2006]; Estou me guardando para quando o carnaval chegar [Marcelo Gomes | 2019]; O prisioneiro da grade de ferro [Paulo Sacramento | 2003]; Divino amor [Gabriel Mascaro | 2019]; Martírio [Tatiana Almeida, Ernesto de Carvalho e Vincent Carelli | 2016]; Terra em transe [Glauber Rocha | 1967]; Tatuagem [Hilton Lacerda | 2013]. Certamente lembrarei de outros dez filmes logo após enviar esta lista. Todas elas engessam, de certa maneira, a dinâmica da memória. Vou acrescentar mais um para ficarmos ao menos com onze filmes. Particularmente, não gosto do número dez, prefiro números ímpares como o onze. Fecho o ciclo com Marighella, de Wagner Moura. Uma produção de 2019 que espero lançar aqui no Cinemas Teresina com a presença do Wagner para agigantar o debate.

Thiago E: Você dirigiu e escreveu mais de dez filmes. Todos tem a participação de Gardênia Cury na produção. Como é viver essa rara parceria?

Douglas: Eis a mais fácil das questões. Nos entendemos muitíssimo bem exatamente porque respeitamos, antes de tudo, o espaço de cada um. E temos consciência da responsabilidade de cada trabalho. Essa trinca [ela, eu e o trabalho] estabelece nosso território de caminhada. Não precisa complicar a vida.

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