Romance de Aline Bei foi tema de live desta quarta feira no perfil do Entrecultura, mediado pelo escritor Marco Antonio

Por REDAÇÃO - 20/05/2021 11h05

Desde que lançou O Peso do Pássaro Morto (Nós, 2017) e ganhou o Prêmio São Paulo de
Literatura em 2018, Aline Bei não para de ganhar admiradores e admiradoras, angariando fãs cada vez mais ilustres, seduzidos pela beleza melancólica de sua narrativa.

O “Pássaro” (como carinhosamente os/as fãs se referem à obra) não parou de voar um instante sequer, chegando ao teatro pelas mãos de Nelson Baskerville e pela belíssima atuação de Helena Cerello, num monólogo tão dilacerante quanto o próprio livro. Devido à pandemia que estourou ano passado, a peça foi produzida e encenada de maneira remota, utilizando a plataforma Zoom. Assim, o Pássaro foi pioneiro na adaptação do teatro para o formato digital.

Durante esse tempo, Aline foi maturando seu segundo romance, não deixando que em momento algum o sucesso lhe fosse um limitador criativo. Extremamente ativa nas redes sociais, sempre sensível e atenciosa em suas entrevistas, formatou gradativamente a bela obra que agora nos chega:
Pequena Coreografia do Adeus (Cia das Letras, 2021).

livro de Aline Bei, Pequena Coreografia do Adeus
Foto: Reprodução/internet

Se alguém esperava um segundo pássaro, frustrou-se. Sua marca narrativa está ali: a estruturação poética do texto, a visão microscópica das dores humanas e os desenhos mentais que ela nos põe na mente através dos olhos. A perda – tema sobre o qual a autora passeia com maestria – agora não diz
respeito a perdas externas da protagonista (amiga, cachorro, filho). Em P.C.A., Júlia Terra é uma personagem que se perde de si mesma, levada a esse caminho através da relação frustrada dos pais, na qual a mãe padece sob o manto da maternidade indesejada.

O pouco de amor que familiar que Júlia conhece vem a conta-gotas do pai, que, ao partir para outra vida, deixa a garota com a  responsabilidade de sobreviver na montanha-russa emocional da mãe, Dona Vera. Assim, vai
crescendo tentando se equilibrar na corda-bamba daquela vida, ensaiando sua coreografia do adeus. Como sempre, o texto de Aline Bei é carregado de simbolismos. O balé, pelo qual a personagem se apaixona em determinado momento e que se mostra como uma forma de amenizar a dor da solidão da garota, pode representar essa percepção de que sim, sua vida será um eterno equilibrar no solo escorregadio da sua relação com a mãe.

Aine Bei
Foto; Reprodução/Internet

 

Isso pode ter uma ligação com o trabalho da genial dançarina e coreógrafa Pina Bausch, influência confessa da autora. Pina Bausch revolucionou o mundo do balé e da dança ao conseguir traduzir em movimentos todas as variações do sentimento humano, como medo, raiva, angústia e felicidade, por exemplo. E cada etapa do crescimento de Júlia vai sendo um novo passo, passeando por essa gama de sentimentos, com seus próprios ritos de passagem.

Ao longo de seu caminho, vemos a personagem numa busca de si, que termina de uma forma que só a mente iluminada de Aline Bei poderia determinar.

A literatura brasileira passa por um momento fértil e politizado, capitaneado por mulheres, o quepor si só já muito significativo. Aline Bei, Gisele Mirabai, Helena Cerello, Clara Averbuck são só alguns nomes que vem dando a luz e a força feminina que esse campo das artes precisa. E há muitas outras, com seus pássaros e coreografias, aguardando o momento de serem descobertas pleo grande público. Todas são importantes.

Mas eu quero me dar o direito de terminar esse humilde escrito dizendo que sempre houve beleza nos trabalhos de todas as autoras citadas e não-citadas.
Eu só acho que Aline Bei é o brilho estrelar que faltava para completar essa galáxia e iluminar nossas almas.

Por Marco Antonio, escritor, Músico, Professor e Produtor Cultural.

Comentar