A questão Meduna e a demolição da dor, por Marco Antonio dos Santos

Por REDAÇÃO - 11/08/2021 15h21

Foto: Germano Portela  /  Portal ocorrediario.com

 

Teresina, a cidade que costuma enterrar sua memória sob os escombros das construções históricas demolidas, agora se vê em meio a um debate polêmico: o tombamento ou a demolição do prédio do antigo Sanatório Meduna.

 

O prédio foi adquirido pelo grupo Sá Cavalcante, que possui um shopping na área. Os boatos sobre uma possível demolição do local mobilizaram grupos contra o ato. Pessoas ligadas ao meio artístico e de gestão e produção cultural alegam que isso fere a Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo também se posicionou contra a suposta demolição, que após matérias jornalísticas sobre o caso, é negada pelos proprietários do local.

 

O lado que é a favor da completa derrubada do prédio é formado por pessoas que foram pacientes ou tiveram parentes internados na instituição. As lembranças dos maus-tratos infligidos aos pacientes ainda hoje atormenta o imaginário dessas pessoas, pois é sabido de todos como era falha e danosa a política manicomial brasileira, que inclui casos absurdos como o do Hospital Colônia na cidade Barbacena, como foi documentado magistralmente no livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. Na época, a eletroconvulsoterapia (ECT) era tida como um avanço, pois controlava imediatamente os surtos dos pacientes mais violentos. Só que o seu uso indiscriminado deixava sequelas gravíssimas e impossíveis de prever, e muitas pessoas que eram enviadas aos manicômios para se tratar de “problemas” como a homossexualidade, por exemplo, tornavam-se verdadeiros zumbis, fora a violência sexual que sofriam pacientes de ambos os sexos.

 

O grupo a favor da destruição do prédio do Meduna acredita que essa página sinistra da medicina piauiense pode ser enterrada junto com os escombros. É totalmente compreensível sua motivação. Mas quando entramos na questão patrimonial, a coisa se complica um pouco.

 

Todos sabemos da importância da preservação da memória. Construir e sedimentar a sensação de pertencimento ao local onde se vive é primordial para que a população goste de sua cidade, se sinta responsável pelo seu cuidado e também se sinta parte dela. A conservação do conjunto arquitetônico de qualquer local é a primeira coisa que chama atenção, por ser de grande impacto visual. Andar pelo centro de Teresina e vê-lo dominado por estacionamentos que ocupam hoje lugares que já foram grandes e belos casarões provoca uma sensação melancólica de que a cidade que conhecemos aos poucos está se transformando em uma coisa sem forma. Quando se derruba uma casa, muitas histórias se vão com ela. E nem sempre é bom esquecer certas histórias, para que as pessoas lembrem do que são capazes de fazer e sintam vergonha por isso. Claro que para algumas pessoas a experiência de passar em certos locais pode ser dolorosa, e é aí que entra o trabalho de gestão cultural. Numa época como essa, com um governo como esse, que mostra total desprezo pela produção cultural, destruir é de certa forma concordar com essa política. Então, por que não ressignificar um local?

 

 

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A transformação de locais com histórico de violência, dor ou opressão em espaços de criação e educação artística agrega muito mais à cidade, pois a arte nos faz transcender. E olhar para um espaço que já foi palco da dor se tornar um centro de acolhimento, crescimento e educação através da arte, pode nos mostrar o quanto o belo nos salva e sobrepõe a outras questões. A história do prédio não será apagada jamais, mas pode ser reescrita.

 

O Governo do Estado do Piauí, por meio da SECULT e do SIEC, tem transformado cadeias em centros culturais, por exemplo. O mais recente fica em Campo Maior. A cadeia de 1856 vai abrigar a Casa de Formação Cultural de Jovens e Crianças.

 

Isso não apaga a dor e sofrimento que já aconteceram nesses lugares. Mas com certeza tira o peso do ar de quem passa em frente atualmente, pois vê a vida e a arte suplantarem uma mácula histórica, ao mesmo tempo em seus tetos, paredes, portas e janelas não nos deixam esquecer do que a maldade humana é capaz de fazer em nome do bem.

 

Chega de destruir. Vamos reconstruir.

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