“Asas do Desejo” de Wim Wenders – Por Marco Antonio dos Santos

Por REDAÇÃO - 19/08/2021 17h43

 

 

Há 34 anos, Wim Wenders cunhou aquela que seria sua obra-prima: Asas do Desejo. O filme, lançado em 1987, traz um diretor mais maduro e lírico do que nunca. A premissa por si só já é puro lirismo filosófico: o anjo Damiel se apaixona pela condição humana através da pessoa de Marion, a bela trapezista que o faz sentir vontade de mudar sua existência.

 

Numa Berlim repleta de anjos, os mesmos acompanham os seres humanos, ouvindo todos os seus pensamentos e, com sua aproximação, tentam confortá-los de alguma forma. O que nem sempre dá certo, como no caso do suicídio (spoiler acaba aqui, assista). Mas apesar de estarem sempre perto, eles veem tudo em preto e branco, não tem as sensações físicas, e essa ausência de cor é metáfora perfeita para a vida dos anjos de Wenders. Sem sentir, não há cor. E essa ânsia de sentir vai consumindo Damiel, mas não como uma angústia, e sim como uma ânsia pela descoberta, pelo novo.

 

 

 

Nesse aspecto, o trapézio de Marion ilustra bem sua vida, um equilibrar diário à espera de algo melhor porvir. E a isso assiste, encantado, seu anjo enamorado. Cassiel, o anjo companheiro de Damiel, é a representação do medo do desconhecido, que poderia ser até uma alusão ao mito da caverna, de Platão. Cassiel prefere a segurança da eternidade do que a fugacidade da satisfação que o colega tanto almeja. E Marion é a estopim dessa decisão, quando Damiel diz que vai “se jogar de cabeça”.

 

Como a cereja do bolo, ainda há performance de Nick Cave numa boate, onde a plateia está êxtase enquanto o Cave personagem de sim mesmo tem o pensamento lido pelos anjos. Uma beleza só.

 

Não é possível descrever de forma justa com palavras a linguagem visual de Wim Wenders. É de uma poesia que só pode ser captada com olhos e ouvidos atentos. Quando percebemos, o diretor também nos deu asas, nos envolvendo na condição dos anjos.

 

Aproveite a queda.

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