78 anos do poeta, jornalista , cineasta e compositor Torquato Neto – Por Marco Antonio Santos.

Por Redação Entrecultura - 09/11/2021 17h29

texto: Marco Antonio Santos

 

 

Torquato Pereira de Araújo Neto seria apenas mais um nome caso não tivesse sido escolhido pela arte com vetor de uma das criações mais originais da cultura brasileira. Dono de uma das mentes mais brilhantes da turma da Tropicália, com seu texto denso e sagaz deu corpo a canções que se tornaram emblemáticas do movimento, como “Geleia Geral” e “Mamãe Coragem”. Intelectual sem arrogância artística, poeta em essência, questionador. O jovem de dezesseis anos que foi continuar os estudos no colégio Marista encontrou lá um outro jovem Gilberto Gil. Alguns anos depois, foi dar no Rio de Janeiro com a turma da Bahia, da qual era o mais destacado poeta.

Na cidade maravilhosa (na época pré-milícia) andava ao lado de gente do quilate dos Irmãos Campos, Décio Pignatari, Hélio Oiticica e Ivan Cardoso. Trabalhou em vários jornais, sem nunca ter concluído o curso de Jornalismo. Se enquadrar não era bem a onda de Torquato. A mente artística inquieta precisava de espaço para expandir suas ideias.

Um tanto cansado da música por conta da censura, também desencantado com o caminho estético que alguns amigos tomavam, terminou por romper com alguns. Resolve explorar sua faceta cinematográfica, estrelando o filme Nosferatu, de Ivan Cardoso, e produzindo seus próprios Terror da Vermelha e Adão e Eva no Paraíso do Consumo.

Poeta de alma sensível, Torquato queria mesmo era um pop brasileiro que elevaria a antropofagia dos modernistas a outro nível, como podemos perceber nesta declaração sua:

 

“Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido”.

 

Torquato Neto completaria hoje 78 anos de vida. Não tenho dúvidas de que a MPB teria seguido um caminho mais libertário em termos criativos se ele ainda estivesse entre nós. Mas o homem nos deixou a obra, e essa está perene para que todas as gerações futuras possam apreciar e aprender com o trabalho deste grande gênio que se foi.

Recentemente, o artista visual Guga Carvalho laçou o filme Torquato Imagem da Incompletude, que lança um olhar sobre a pouca explorada persona cineasta do nosso poeta maior, com imagens belíssimas e depoimentos de contemporâneos, amigos e pesquisadores de sua obra.

Parabenizamos, onde quer que esteja, o homem que foi imortalizado na cajuína cristalina de Teresina.

 

“Um poeta desfolha a bandeira

e a manhã tropical se inicia

resplandente, cadente, fogueira

num calor girassol com alegria

na geléia geral brasileira

que o jornal do brasil anuncia.”

 

Ave, Torquato.

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