Marco Antônio Santos lança seu primeiro livro: “Exercícios de Desafeto”.

Por Redação Entrecultura - 12/01/2022 13h16

Texto: Neto Brahn.

 

Hoje (12) às 19h30 no bar Tinindo, Marco Antônio Santos lança seu primeiro livro “Exercícios de Desafeto”. O portátil livrinho vermelho possui 119 páginas injustamente distribuídas em 43 contos. O acabamento gostoso da editora cancioneiro, acolheu com graça o projeto gráfico de Lucas Rolim. Antes mesmo de abrir, o livro é um bom exercício visual e de tato.

O Prefácio assinado pela escritora piauiense Vanessa Trajano põe as cartas na mesa contrariando a receita prescrita no título. E logo de cara percebemos que entramos num labirinto de espelhos em que cada lance de olhar revela o contrário do contrário. “Exercício negado: tem muito amor em jogo”, ela diz em negrito para em seguida recobrar que as palavras do autor ocuparam um espaço em sua memória que deveria pertencer à turva imagem do primeiro encontro entre os dois.

O portátil livrinho vermelho, que começa a ficar cada vez mais pesado, tem outra assinatura especial. Lá na quarta capa (ou atrás do livro) o renomado escritor J. P. Cuenca sentencia: “Exercícios de Desafeto é tudo o que o título não propõe”. O contrário do contrário surge novamente. “Santos é um narrador apaixonado – pela vida e seus detalhes, que ele recolhe com obstinação e invejável poder descritivo”. Ele arremata fazendo qualquer escritor debutante sentir-se um Machado de Assis, “seria já um livraço de autor consagrado. Como livro de estreia é muito mais que isso”.

Quanto aos contos lá dentro, não caberá a nós do Entrecultura criticar. Somos demais apaixonados pelas palavras do autor, como pela pessoa do Marco Antônio que tantas vezes colabora conosco no site e nas mesas de Teresina. Seria demasiado meloso e absolutamente constrangedor para o leitor. Nossas desculpas! Mas pelo dever do trabalho, aqui abaixo tem uma despretensiosa entrevista com Marco Antônio Santos, reveladora de sua origem literária e do labirinto de espelhos.

 

Lançamento do livro “Exercícios de Desafeto” de Marco Antônio Santos.

Data: 12/01/2022

Horário: 19h30

Local: Bar Tinindo no bairro Ininga – zona leste. (próx. ao Condomínio Santa Mônica)

Instagram do Autor: Marco Antônio Santos

 

 

A ENTREVISTA

 

Você é Formado em Artes com Habilitação em música. Isso é vantagem ou desvantagem para o ofício da escrita?

A grande vantagem foi ter professores como Reginaldo Carvalho, que dentro da Cultura Popular e da História da Música, algumas das disciplinas que ministrava, fazia questão de contextualizar com a criação literária da época. E falava com tanto prazer de literatura que me instigava a ir à biblioteca procurar qualquer livro que ele indicasse. É assim aconteceu com Suskind e Goethe, por exemplo.

 

Como se deu seus primeiros contatos com a literatura? O que você lia e o que te influenciou?

Lembro de ler um livro chamado “Carapintada”, da série Sinal Aberto, na 7ª série. Depois minha mãe me deu o livro “O Vencedor”, do Frei Betto. Mas tive um hiato nos livros por conta dos quadrinhos. A Teia do Aranha, ao contrário do que muitos pensam, tinha muito drama psicológico. Eram histórias antigas republicadas pela Editora Abril. Depois, cheguei no André Takeda, que tinha aquela linguagem de música pop. Mas o que me fundiu a cabeça mesmo foi o “O ladrão de Sonhos e outras histórias”, do Ivan Ângelo. Anos depois, conheci o Ivan e ele autografou meus exemplares. Tenho tudo do Ivan. Ele é o maior. Quando li o conto “O lado de dentro da gaiola”, pensei: escrever se aprende escrevendo. E me identifiquei com o garoto da história. E comecei.

 

Você se considera o escritor que diz, nas palavras da escritora Vanessa Trajano, “o indizível”? O que é esse “indizível” e por que você diz e outras pessoas não?

Eu nunca parei pra pensar nisso até a Vanessa dizer. E eu acho que quando ela diz isso é porque eu gosto de uma literatura crua, indigesta, que te faça mudar de posição na poltrona. E o melhor de fazer isso é falar da realidade que nos incomoda. Eu não quero um texto mágico no sentido de inventado, eu quero a magia de transcrever a realidade. Não sei se consegui, mas estou tentando.

Tem muitas histórias de separação, de violência, coisas que atravessaram minha realidade ao longo dos anos, às vezes como espectador às vezes como parte do processo. Então exercitei esses “desafetos” na escrita.

 

“Exercícios de desafeto”. Por que você deu esse nome e qual sua opinião sobre o comentário que o J. P. Cuenca fez acerca do título? 

Quando ele diz que o livro é o contrário do que o título diz, acho que é por que afeto, na acepção pura da palavra, é o que nos afeta. E o que mais afeta nosso ser, para mim, é o amor. Por mais fodido que seja. E existem formas e formas de amar, até odiando.

 

Como surgiu a ideia do livro?

Eu resolvi criar um primeiro blog que nem lembro mais o nome. Era horrível. Mas depois passei para o www.coracaosonoro.blogspot.com, onde exercitei a maior parte desses contos e que as pessoas começaram a ler e se interessar. Mas meu ritmo é lento, demorei para organizar os escritos como um livro.

 

Como foi o processo de escrita?

As pessoas adoram que o autor seja o narrador. Mas não é. Só que o narrador vive em mim. E eu posso não ser uma boa morada (rs). O fato é que não tem método para mim. Eu penso num tema e começo a escrever. Ou então ouço ou vivencio algo que me toca muito. Tem uma coisa autobiográfica, mas não é um diário. Geralmente o que mais me machuca é o que me leva a escrever.

 

Por que você escolheu escrever contos?

O conto é um gênero maravilhoso, por que o tempo dele é elástico: você puxa até onde quiser, ou não. Dá para construir e destruir um universo inteiro em meia página. Ou dez. Mas o que gosto mesmo é do ritmo. Literatura tem que ter ritmo. O conto está para a literatura como a canção pop para a música. Curto, rápido e certeiro.

 

Seus contos são eróticos? Tem hálito do Bukowski?

Li pouco Bukowski. Mulheres, A Mulher mais linda da cidade…

Mas peguei um pouco do que achei legal naquela narrativa explícita, às vezes escatológica. Ele tem aquela coisa beat fatalista, que para mim hoje funciona mais como um parâmetro literário do que enquanto gênero. Não dá para escrever aquelas obras de novo. Quem escreve Kerouac é Kerouac.

Os meus contos tem muito sexo. Mas não é um sexo pornográfico. Às vezes nem erótico, eu acho. Tem muito sexo cansado, como válvula de escape ou protocolo de manutenção de relações desagastadas.

Eu li Anais Nïn, Emanuelle Arsan e Hilda Hilst – que amo -, mas não conseguiria fazer uma literatura “erótica”, porque para mim o erotismo já está dentro da gente e está subentendido dentro da narrativa. Acho que pode ser uma coisa de época. A literatura contemporânea é sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Para mim tudo é recurso, não finalidade.

 

Como é no Piauí publicar o primeiro livro?

O Piauí é foda por que te dá um material do caralho para escrever e não um mercado para te consumir.

Não tem mercado editorial. Tem editoras independentes, geralmente de autores e autoras, que as criam para poder publicarem suas obras. Pense no trabalho que isso dá. E ainda tem que fazer campanha de pré-venda, pedir para as pessoas comprarem, aquela coisa “ajude o autor piauiense”, “valorize o que é daqui”. Uma merda. Eu quero que as pessoas comprem e leiam meu livro. Mas eu não vou pedir. Eu quero que as pessoas valorizem o que eu faço, mas se elas acharem que tem qualidade. O critério tem que ser estético, não geográfico.

Mas é uma experiência boa poder publicar e falar sobre isso com o André Gonçalves, com o Alex Sampaio, com a Vanessa Trajano, o Adriano Lobão.

É legal se sentir parte disso.

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