Jorge Elô nos fala sobre o primeiro congresso nacional de quadrinhos online e sua experiência como pesquisador e quadrinista

Por Redação Entrecultura - 03/06/2016 10h52

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Na próxima segunda-feira, dia 6 de junho, começa o I CONAHQ, um congresso todinho sobre histórias em quadrinhos. O evento é nacional, gratuito e online. Pra você saber mais sobre o que vai rolar, entrevistei um dos organizadores, o artista Jorge Elô. Boa leitura e não esquece de fazer sua inscrição, como diz o Criolo: ainda há tempo!

 

   1) Como surgiu a ideia de fazer um congresso sobre quadrinhos online?

David, meu sócio, já havia trabalhado com esse modelo de congresso online, com outros temas diversos. Ele me procurou porque gostaria de fazer algo no ramo artístico e como ele sabia que eu transitava em diversas linguagens, me chamou para a gente pensar em algo.  Quadrinhos é uma paixão nossa e também é objeto das minhas pesquisas, decidimos que dentro das várias linguagens artísticas, os quadrinhos seria ideal para o formato online do congresso, principalmente pelo desenvolvimento dos quadrinhos publicados na internet, os chamados Webcomics.

   2) Pra quem está interessado no CONAHQ, como funciona a inscrição?

É muito simples. Basta acessar o site www.conahq.com.br e inscrever o seu email. Assim que você o inscreve, tem que ir à sua caixa de entrada para confirmar sua inscrição. Pronto! Depois é só conferir a programação e aguardar, pois por volta de uns 40, 30 minutos antes de cada palestra, enviaremos o link para as salas de transmissão dos vídeos.

   3) É comum quadrinistas mulheres falarem da falta de espaço para mostrarem seus trabalhos e vivências na cena dos quadrinhos (eventos em que de todos os convidados e palestrantes não há uma mulher), é pensando nessa crítica, que o CONAHQ traz entre os 25 temas, 9 mesas com mulheres palestrantes?

É interessante que uma das convidadas, a Thais Gualberto, está discutindo exatamente isso. Ela vai abordar tanto essa ausência de mulheres em eventos especializados em quadrinhos quanto vai mostrar que há sim quadrinistas mulheres que produzem material de qualidade e que a maioria dos leitores desconhece.  Por outro lado, a quantidade de mulheres palestrantes no CONAHQ ainda poderia ter sido maior, tendo em vista a quantidade de quadrinistas talentosas que temos atualmente. A lista não ficou maior, pois algumas  que foram convidadas não puderam participar por motivos diversos. Quando convidamos os palestrantes para participar do congresso visamos a excelência do seus trabalhos, e com certeza, temos muitas, mas muitas quadrinistas com trabalhos maravilhosos, e por isso elas também estão no Congresso.

   4) Por falar em mulheres e quadrinhos, esse ano o recorde de artistas mulheres indicadas para concorrer no prêmio Eisner, o maior prêmio de quadrinhos do mundo, foi quebrado mais uma vez, o total foi de 49 mulheres e 61 indicações em 2016, isso mostra que o cenário dos quadrinhos está mudando de alguma forma?

Exatamente. Mostra que, com o crescimento das HQ’s nacionais, diversos autores(as) puderam mostrar seus trabalhos, ganhando reconhecimento e visibilidade. E nesse meio, a mulheres vem notadamente ocupando cada vez mais espaço, se organizando e produzindo bastante, seja em coletivos ou individualmente. Eu mesmo curto demais a produção das palestrantes do CONAHQ, de acompanhar mesmo. Uma quadrinista que acompanho e gostaria muito que tivesse participado é a Iara Naika, mas vamos ver se a convencemos  participar da segunda edição. É um pouco do que a Thais fala na palestra, é preciso que os homens conheçam a produção feminina de HQ’s, para quebrar o preconceito de que HQ’s femininas são voltadas exclusivamente para mulheres. Isso não é verdade. A Iara faz morrer de rir independentemente do gênero de quem a lê.

   5) O CONAHQ visa muito a produção independente, há temas como fanzine, considerações sobre lançar por conta própria ou por editora a hq, como tu vê o cenário brasileiro?

Vamos ter várias palestras voltadas para isso, como também temos palestrantes que trabalham para o mercado americano de quadrinhos e vão falar para gente como conseguiram chegar lá. Mas a produção independentemente dos quadrinhos de fato é um tema forte no Congresso, devido ao fato da maioria dos palestrantes produzirem de forma independente. Só para se ter uma ideia, durante a divulgação do Congresso, quatro palestrantes estão com obras em site de financiamento coletivo, sendo que, se não me engano, todos já bateram a meta e vão conseguir publicar os seus quadrinhos. Isso é muito interessante, inovador e revolucionário para a produção independente, seja de quadrinhos ou qualquer outra linguagem artística.

    6) É um dado muito bom quatro dos quatro quadrinistas que tentaram um financiamento conseguiram, fazer hq hoje tá mais acessível?

Não apenas produzir, como fazer circular. Seja através de redes sociais ou mesmo de financiamentos coletivo como citamos acima. Outro fator importante são pequenas editoras voltadas exclusivamente para publicação de HQ’s. Paulo Lisboa, um dos nossos palestrantes, tem uma editora e vai falar um pouco sobre isso para a gente.

   7) Como se deu a escolha dos temas e palestrantes?

Os primeiros palestrantes foram aqueles que eu já conhecia pessoalmente ou apenas pela internet. Aos poucos fomos fazendo pesquisas e convidando, até que chegamos a essa programação incrível que tenho muito orgulho de saber que faz parte do I CONAHQ. Não foi fácil partir do zero, mas a gente tem muito a agradecer a todos que acreditaram na ideia. Realmente o resultado está muito superior ao que esperávamos. O sentimento de gratidão é o que resume esse momento.

   8) Como é o cenário de quadrinhos em Campina Grande?

Ainda é bem pouco movimentado. Estamos tendo um crescimento nas artes visuais, mas ainda não temos uma grande gama de produção de histórias em quadrinhos. Espero que o CONAHQ ajude a mudar isso

   9) Tu já participou de coletivos como o coletivoWc, teve a experiência com a plataforma Catarse, pra conseguir fundos pra uma publicação, que pontos tu ressalta do que tu absorveu  do coletivo e das possibilidades que a internet traz com esse tipo de plataforma ?

É de extrema importância. Eu sempre acho que quanto mais – melhor, sempre fui daqueles que gostam de compartilhar e de aprender com os outros. Os projetos que faço sozinho são meus quadros, até porque os faço nos meus momentos necessários de solidão.

O coletivo WC mesmo era bem interessante, cada um publicava seus quadrinhos de forma independente, mas, quando a gente ia fazer nossa revista, a Sanitário, a gente delimitava um tema e todos faziam uma história baseada nesse tema.

Na palestra da Laura e Aline elas vão tocar, por cima, nesse assunto, em relação ao coletivo ao qual fazem parte, o Mandíbula, que a Renata Rinaldi também participa. Então percebemos que os coletivos são importantes para gerar uma interação entre os artistas, para instigar a produção e a internet tem um papel fundamental nisso, uma vez que é através dela que os coletivos e os financiamentos ganham vida.

 10) Falando em publicações tuas e de coletivos, como foi participar e lançar os volumes 1 e 2 da hq Sanitário ?

Particularmente eu achei muito importante. Como disse, escolhemos um tema e todos trabalharam em cima dele. A diversidade de histórias que surgiram com o mesmo tema deixou claro a criatividade do coletivo. Também amadurecemos profissionalmente. A primeira edição ainda é um pouco amadora, a segunda já ganha corpo e a terceira (que infelizmente não atingiu a meta no cartase) tá muito bonita. Infelizmente o coletivo se dissolveu, e por isso não sei quando poderemos pensar em publicar a terceira edição.

   11) Tu passeia por vários campos, vídeo, escultura, quadrinhos, como é a transição e a forma do processo criativo? Como é experimentar essas diferentes liberdades de criação?

Eu sempre achei que a Arte é uma coisa só. É uma linguagem onde tentamos falar aquilo que as linguagens tradicionalmente usadas não atingem. Se falar verbalmente bastasse,  eu não produzia,  apenas me sentaria e conversaria. Pronto, estava resolvido o problema. Ocorre que vemos que apenas a escrita não basta, então vamos à imagem. Depois vemos que ela estática também não tá dizendo tudo, e então partimos para o cinema. Quando o cinema não possui a capacidade de expressão necessária de algo sólido, tocável, recorremos à escultura. E isso eternamente, não acho que tem um fim. Não tem como se calar, assim como não tem como dizer tudo num único suporte. Não consigo.

   12) O que te faz escrever? Quais os questionamentos, temas, ideias que passam pela tua cabeça que tu para e diz: isso aqui merece um roteiro, isso vai virar hq ou quem sabe ,um vídeo?

Algumas necessidades já surgem no seu suporte específico para mim. Aprovei em um fundo de incentivo à cultura um projeto chamado O Causo da Botija. Trata-se de uma animação, que está em processo de produção (bem atrasado devido ao atraso dos repasses estaduais e federais, alguns dos problemas enfrentados por quem vivência o financiamento público). Quando surgiu o tema, eu poderia ter feito uma HQ, poderia ter escrito um conto ou quem sabe gravado um filme com atores, casaria muito bem com a história. Mas, ocorre que, quando ainda estava no processo imaginativo, enquanto ainda pensava sobre a história, só conseguia ver animada na minha cabeça, com personagens caricatos em cores vibrantes. Não tinha como não ser uma animação, é como se o tema escolhesse o suporte… Não saberia explicar de forma mais direta do que isso: Cada assunto surge no seu suporte (ou mídia) especifico para mim. Evidentemente podemos fazer a adaptação de um tema para todos os suportes existentes, acredito nisso, mas quando surge na minha cabeça, já surge pronto, no formato que irá ganhar vida.

   13) Algumas pessoas pensam que toda hq precisa necessariamente ser sobre super-heróis, como tu vê essa questão?

Na verdade esse foi o nicho que mais ganhou popularidade. Mas se a gente lê Gen pés descalços, Preto & Branco, Maus, Persépolis, entre outros, percebemos que não é preciso ter super-heróis para ser uma grande história.

   14) Os fãs de quadrinhos reclamam muito das adaptações de hq para o cinema mas há também muitas adaptações de obras da literatura para o universo dos quadrinhos como tu enxerga as adaptações?

Eu atualmente estou estudando sobre isso. O livro “Uma teoria da adaptação”, da Linda Hutcheon, é uma obra importante para essa discussão. Vemos que a maioria da crítica das pessoas é porque elas esperam que a adaptação seja fiel a obra adaptada, mas não é necessariamente essa fidelidade que torna a adaptação interessante ou não. Há milhões de outros aspectos a serem analisados, nunca se esquecendo que uma adaptação é uma outra obra, totalmente independente da obra fonte. Tanto que ninguém tem que ler o quadrinho ou o livro para poder entender o filme, basta apenas que ele veja o filme e pronto. Também é importante saber que o processo inverso também ocorre, filmes que viram livros, HQ’s, peças de teatro e etc. O mais interessante para mim não são as críticas daqueles que leram primeiro e depois não gostaram da adaptação, mas a admiração daqueles que gostaram tanto do filme que foram buscar ler a HQ ou o livro para conhecer mais a fundo a história.

   15) Vi uma fala tua dizendo que tá estudando literatura e quadrinhos no mestrado, ainda há muito preconceito com quadrinhos na academia ou as histórias em quadrinhos são uma espécie de nova paixão nas universidades?

Pelo menos no programa que participo é algo bem sóbrio. Nem preconceito nem paixão. Apenas estamos vendo a potencialidade dessa linguagem e estudando de que maneira elas propagam discursos, criticam outros e são responsáveis pela produção de subjetividades.

   16) Pra fechar essa conversa, que renderia mais horas e horas: quem vai participar do CONAHQ pode esperar o quê do evento?

Acho que o melhor. Foi algo feito com muito carinho, dedicação e esforço. Como disse, começamos do zero, só com a cara, coragem e recursos próprios. Acreditamos mesmo e deu muito certo. Tanto que já passamos dos cinco mil inscritos e esse número só tente a crescer. Por isso peço a todos que já se inscreveram que compartilhem e convidem seus amigos. Quanto mais pessoas participar, mais teremos feedbacks, e com certeza, faremos do CONAHQ um congresso ainda mais forte e importante no cenário brasileiro de HQ’s

Texto: Ariadne Chaves

 

 

 

 

 

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