Quando o vento sopra, é porque tá na hora

Por Redação Entrecultura - 09/06/2016 16h33

Olá, queridos e queridas!

Farei deste espaço um baú nostálgico onde a linha entre o real e o imaginário seja tão tênue quanto a que separa amor e ódio.

Não tenho objetivo nenhum senão o de compartilhar com vocês as coisas que se passam na minha cabeça, algumas fruto de minha vivência, outras de meu pensar. Espero que gostem e que também desgostem. O importante é não ficar parado e se expressar do jeito que desejar.

Bem, sem mais delongas, boa leitura!

 


Era por volta de quatro da tarde e o sol já começava a baixar de modo que vários pontos de sombra iam surgindo por detrás das casas, muros e construções inacabadas. Já dava para sentir o vento soprar e quando o vento sopra, é porque tá na hora.

– Hoje eu vou cortar e ainda vou arrastar! – pensei ambicioso. Minha mãe tinha saído para trabalhar e só voltaria à noite: tudo o que eu tinha de fazer era empinar no quintal de casa mesmo e entrar antes dela voltar.

Da sala de casa dava para ouvir os primeiros movimentos lá fora. Dava para reconhecer o som de pés descalços ou mal calçados caminhando e depois parando num ponto fixo. Estavam combinando algo…

– Estica a linha até o fim do campo. – alguém falou.

– Hey, deixa cerol pra mim também, o meu tá fraco! – resmungou o outro. Mal ouvi aquilo e já senti meu corpo tremer de excitação e ansiedade. Os adversários já se preparavam para a batalha de uma guerra que duraria por toda a minha juventude.

Corri para o quarto e peguei a minha pipa que estava escondida debaixo da cama. Era feita de seda em formato de “X” com as cores preto, amarelo e verde (lembrava um pouco a bandeira da Jamaica) e com um rabo de fita azul, feito de saco de lixo. O rabo estava meio embaraçado e eu até pensei em desembaraçar, mas mudei de ideia. “Melhor fazer isso só na hora de amarrar a linha”, pensei comigo mesmo. De dentro do cesto de roupa suja, tirei o meu tubo de linha. Era um tubo misto de linha nova e velha, todo sujo, mas que dava para o gasto (quando o tubo de alguém era misturado, a gente costumava implicar com essa pessoa trocando a palavra “Metros” por “Nó”. Se o tubo era de 400m, por exemplo, a gente chamava de “tubo de 400 nó”).

Voltei para a sala com a pipa e a linha e deixei-as sobre o sofá. Coloquei a chave na porta, mas minha mão tremia de ansiedade e quase não consegui abrir. E quando pensei que já tinha acabado, o abrir da porta revelou a grade externa, cujos dois cadeados eu também teria de abrir.

Ao passar pela porta, senti o mundo à minha volta: capim para quase todo lado intercalado por pistas e calçamentos. Sons distantes de carros e motos misturados ao de alguma casa tocando reggae faziam a trilha sonora daquela tarde. Era o mundo me dizendo “e aí, muleke, tá pronto?”… E aquele mundo se chama Santa Maria.

Eufórico, eu já conseguia sentir o cheiro da disputa pairando pelo ar. Era um cheiro singular que misturava capim, cola branca e de madeira (essa última fede pra caramba), papel de seda amassado e tala de coco (madeira que se usa para construir o esqueleto da pipa).

Corri vuado pro quintal para pegar o potinho de cerol, o qual eu escondia numa fenda da pia que ficava lá fora. Balancei o potinho e senti que o pó do vidro estava muito grosso, concentrado. Adicionei, então, um pouco de água à poção mágica para diluir melhor o pó do vidro até sentir que a concentração estivesse equilibrada, então entrei em casa para pegar o tubo.

  Como o quintal de casa era pequeno, tive de esticar a linha dando várias voltas, prendendo cada volta em alguma ponta de cimento que ia encontrando por entre os tijolos do muro. Alguns pontos iam quebrando e derrubando a linha no chão. Então eu ia amarrando em pontos mais firmes e tomando cuidado para não deixar cair novamente, pois se isso ocorresse com a linha encerada, ia sujar toda de terra… E qualquer empinador que se preze sabe bem que cerol sujo de terra só dá numa coisa: pipa indo embora.

Linha esticada, comecei a passar o cerol. Com cuidado, fui passando a poção e observando bem para não deixar ficar grossa. Se o cerol for grosso demais, a linha pesa e dificulta as empinadas; se ficar muito fino, o cerol não aguenta mais do que um corte. Tem de estar no meio termo, bem passado e bem seco. É o que a gente chama de “linha de faca”.

Mal acabei de passar o cerol, meus olhos se encheram de brilho ao ver a primeira pipa subir. Não devia ter nem uns 3 palmos de tamanho, mas era de seda e tinha um formato legal, uma cruz vermelha de fundo branco. Perguntei-me se quem encobriu aquela pipa quis homenagear a Inglaterra ou se foi somente por fazer mesmo (era ano de copa do mundo e nessa época a gente costumava fazer pipas de acordo com a bandeira da seleção dos jogadores preferidos).

Mal subiu a primeira pipa, a segunda alçou voo. Devia ter uns 3 palmos de tamanho, feita de seda num formato “bandeira da Austrália” e tinha um rabo enorme. “Aí sim, rapaz! Isso é que é, máquina”, xavequei. Era tão grande e robusta que quando o seu dono a empinava, dava para ouvir o som do atrito da seda e das fitas do rabo com o ar. Era uma bicha lindona, óh!

Mais pipas começaram a subir e aos poucos o azul do céu foi ficando colorido, o que me fez lembrar de me apressar para subir a minha também e cortar geral (nisso eu já tinha abandonado a meta de entrar pra casa antes da minha mãe chegar, queria apenas empinar e aproveitar aquele momento, mesmo que me custasse uma surra, um castigo ou os dois). Corri à pia para lavar o cerol restante das minhas mãos, pois a cola já estava começando a secar na minha pele.

Lavei-me às pressas de modo que ainda dava para sentir vestígios de cola por entre meus dedos e unhas, mas a batalha já havia começado e isso já não importava. Naquele momento, eu não era mais uma simples criança: era um guerreiro duro o suficiente para suportar os cortes nos dedos causados pelo cerol, machucados nos pés causados pelas topadas e até o sol escaldante sobre a pele nua das costas magras (essa dureza toda só resistia até a hora do banho, porque quando a água batia na ferida, doía pra caramba!).

Olhando pro céu, comecei a pensar que cada pipa era como um dragão e o meu estava prestes a subir também. Éramos cavalheiros templários em busca de uma emoção que fizesse tudo aquilo valer à pena. E como fazia… Éramos garotos e garotas sem passado e sem futuro, filhos diletos do presente e da infinidade criativa de um mundo infantil.

Voltei para checar a linha, passando os dedos em formato de pinça para ver se o cerol já tinha secado. Não somente já estava seco como tinha ficado bacana!

O grande momento havia chegado.

Na batalha das pipas você tem de ser bom empinando, mas tem de ser melhor ainda correndo, porque caso a sua seja cortada, dependendo do vento e da distancia que a pipa está, dá para correr atrás dela e pegar de volta.

No céu, mais pipas começavam a aparecer e os primeiros cortes a ser colocados. A cada vez que uma pipa ia embora, alguém gritava lá fora “ow, trisca!!!”, “Dian, nem sentiu!”, “Toma, tisga véia”. Dava para ouvir os gritos e sons de varas de bambu se chocando na luta acirrada para pegar as pipas antes mesmo delas caírem no chão.

Uma pipa é muito mais do que uma pipa. É um depósito voador de esperança.

Correr atrás de uma pipa é uma loucura. São frações de segundos onde nada mais importa senão ter aquela pipa em mãos. Você dá tudo de si e no fim, mesmo sem a pipa, resta o coração acelerado, o corpo suado e o calor no peito. É rajada de morfina no sangue de quem nem começou a estudar ciências ou biologia (e que talvez nunca venha a estudar, no caso daqueles que conheceram o trabalho antes dos livros, quando não o crime).

À beira de uma explosão de ansiedade, voltei correndo para dentro de casa e peguei a pipa. Segurei-a pelo cabresto e já ia me preparando para correr novamente para o quintal, quando tropecei no rabo embaraçado da pipa e desabei por cima dela.

Houve um estalo, depois apenas silêncio.

 


 

Há certos conhecimentos que não se adquirem na escola. O mundo está cheio de pessoas geniais vivendo sob uma marquise ou viaduto, bem como também está cheio de diplomatas imbecis.

E para quem estiver interessado em aprender a fazer pipas:

 

Comentários

Marina Beatriz

Fiquei me perguntando se foi uma memória sua que você escreveu.

10 jun, 2016 Responder

Marcus Sousa

Sim, eu vivenciei isso há alguns anos, quando morava na Santa Maria. Além desta, há várias outros causos que vivi por lá. 🙂

14 jun, 2016 Responder

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