Torto & Hendrix

Por Redação Entrecultura - 16/08/2016 16h01

 
Onde, em mim, a morte de Jimi Hendrix repercutiu com mais violência? Há mais de um ano, em Londres, eu havia dito com absoluta certeza: ele vai morrer. Onde, em Jimi Hendrix, eu vi o espectro da morte? Eu havia estado com ele, Carlo e Noel – mais uns três sujeitos – naquele enorme apartamento de Kensington e quase não falamos nada durante o tempo que fumamos haxixe e escutamos aquele álbum branco dos Beatles e mais alguns discos que não me lembro – nem poderia lembrar. Por que é que eu não sei, mesmo agora, escrever qualquer coisa mais sobre Hendrix, a não ser que, naquele dia, conferi a perfeita extensão de sua música em sua cara – obedecendo à ordem com que as duas coisas me foram apresentadas? Eu sei que não posso escrever jamais qualquer coisa sobre o assunto, sobre a tremenda curtição daquela noite etc etc.

 

Agora o homem está morto, menos ainda. Eu não ousaria – como não ouso sequer contar esse fato aos poucos amigos que ainda tenho. Interessa agora saber o seguinte: por que, diante o impacto que o conhecimento pessoal, social com o homem produziu sobre mim, ao ponto de não conseguir, depois, pelo menos “recordar” o tempo aproximado que tivemos, eu e Carlo, naquele apartamento – por que – sabendo de antemão sobre Jimi Hendrix – por que ainda me surpreendi e me abalei com a notícia de sua morte, no dia dela? Ou seja, voltando ao início: onde, em mim, a notícia conseguiu repercutir ainda com violência, me pegando de “surpresa”? A gente sabe que toda morte nos comunica uma certa sensação de alívio, de descanso. Não existe, pra mim, a menor “diferença” entre Hendrix que eu ouvia antes e o que posso ouvir depois, agora, de sua morte. Ele sempre foi claro, limpo, preto. Eu disse: o homem vai morrer, e não demora mais dois anos. Beneto e Ana ouviram, em Londres.

 

Eu ouvia os discos, sabia o homem – e, por cima, ainda o conheci pessoalmente e juntos, numa noite gelada de Londres, curtimos o barato de queimar haxixe e escutar os Beatles, com Carlo, Noel e mais uns três caras que estavam lá, criolos. Torno a perguntar: onde? Onde em mim? Jimi era “o homem que vai morrer” mas não havia datas em sua vida. Por que então uma data de jornal ainda me espanta e fere? Eu não sei (não posso, nem quero explicar por que eu, e muita gente mais, sabia de tudo desde muito tempo. Posso, com simplicidade, dizer apenas que eu sabia ler a sua música).

 

 

Texto – Torquato Neto; 14/10/1970

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