As mulheres na prateleira

Por Redação Entrecultura - 25/04/2017 14h12

Arianne Pirajá e Luciana Lis – Uma conversa sobre o papel da mulher na literatura. Foto: Diego Noleto

Se a Literatura, que muitos autores consagrados dizem não servir para nada, a poesia então, um pequeno braço de todo esse corpo, quase um nada de um todo completo, serve para quê? Para coisa alguma. Mas podemos dizer que para tudo. Pode servir apenas para refletir sobre isso mesmo, ou para se ouvir palavras lindas, difíceis e que não têm significado algum.

A reflexão me veio ontem, ao ouvir as palavras outrora escritas por poetas como Cacaso, Chacal, Ana Cristina Cesar, Torquato e outros que integravam o grupo dos poetas marginais ou Geração Mimeógrafo. Meu coração sangrava, mas de êxtase, de contemplação e daquela sensação de estar vendo a vida pela primeira vez.

O Sesc Centro Teresina, dando continuidade ao projeto Trilhas Literárias, realizou ontem a segunda edição do Sarau Segunda com Letras, no espaço Café Art Bar Genu Morais, anexo ao Teatro 4 de Setembro. Porque não basta apenas reunir poetas, amantes de poesia e nem divulgar e promover a literatura, mas é preciso abrir os olhos e ouvidos para tamanho poder de recriar mundos e cenas, de crítica sobre nossa vida cotidiana, de trazer prazer para pequenas coisas da vida que só a poesia (e a literatura) pode fazer.

Com um pouco de poeira pelos cantos e com cheiro de reboco novo, dava pra ouvir a melodia de Olha Morena, do cantor e compositor Naeno De Monsenhor Gil. Pelo salão, uma galeria de quadros dos Diretores do Teatro e um banner com as fotografias dos escritores Torquato Neto, Wally Salomão, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal, Paulo Leminski e Waly Salomão. É um espaço galeria com sofás, cadeiras, pessoas, e uma arquitetura moderna retrô – um piano de calda, inerte num canto.

Natércia Garrido, professora mestre do curso de letras da Universidade Estadual do Maranhão, em Timon, pega o microfone e sai a cantarolar poesias de Leminski, Torquato e dos outros. Ela integra o grupo “Você gosta de poesia?”, com uma proposta de intervenção sobre poesia marginal, lendo, interpretando e exclamando versos tão delineados e cortantes. O grupo, que surgiu em setembro do ano passado, utiliza a proposta para fazer refletir a poesia marginal dos anos 70, e repensar seus significados no momento presente, com o Brasil de embate social e de política ferida.

Rhusily Régis e Roger Rafaell – Alunos do curso de letras da UEMA –Timon ; integrantes do grupo “Você gosta de poesia?”. Foto: Diego Noleto

A escolha por esses autores vai de encontro sobre aquilo que entendemos sobre o que é literatura. Sempre se considerou a literatura boa como algo da elite, ou aquela literatura acadêmica, mas o que se produz no cotidiano não pode ser considerado arte? Os poetas marginais foram um dos primeiros a discutirem isso e a questionarem esse modo de fazer poesia e arte em geral”, explica Natércia Garrido, mestre em Literatura, professora e poeta.

O sarau tem continuidade com a discussão sobre a participação da mulher dentro do universo da Literatura. Como se sabe, a inserção feminina no mundo da leitura já é muito recente e sua participação como criadora/autora e como protagonista de suas próprias histórias é tão mais recente que contamos nos dedos. A mulher, se personagem, sempre foi marginalizada e oprimida, salvas exceções. Mas, a partir do momento que assumi seu papel enquanto criadora nós – leitores – passamos a identificar seus dramas pessoais e anseios, com a perspectiva própria feminina.

A escritora Ananda Sampaio fez o pré-lançamento do seu livro de crônicas memorialistas, “O Vestido”. Já a poeta Arianne Pirajá e a jornalista Luciana Lis trouxeram questões importantes, como a pequena participação da mulher como leitora, sua difícil entrada na produção literária, as barreiras em aceitar a mulher autora, as diversas formas de opressão contra a mulher dentro da literatura, assim como o mundo feminino que é sempre retratado sobre o olhar do homem, sobre a perspectiva da dominação, do patriarcalismo e do machismo. A escritora e também poeta Vanessa Trajano expôs alguns pontos do seu trabalho que trata da figura oprimida da mulher, e das suas diversas formas de opressão na literatura.

Estava previsto o lançamento do livro “O Avesso da Lâmpada”, do poeta Demétrios Galvão, que, infelizmente, não compareceu – melhor assim. Nada contra o escritor, mas é que era uma noite das mulheres. Certo que tínhamos lá a presença de Torquato, Salomão, Leminski e dos outros, mas eles estavam a ver navios, a passear a esmo na avenida iluminada. Era noite da Ana Cristina César, noite de Genu Morais, da Vanessa, da Luciana, da Ananda, da Natércia e de todas elas.

Ouvíamos os versos:

Só quero saber do que pode dar certo Não tenho tempo a perder” melodiados.

Sentíamos uma nostalgia reversa com

Minha terra tem palmeiras, onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. Ficou moderno o Brasil, ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre”.

 

E é ainda preciso compreender a transitividade e efemeridade de si mesmo com

Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura”.

A reflexão proposta pela professora Natércia me fez lembrar o embate na Academia Carioca de letras, no Rio de Janeiro, na última semana. Numa oportunidade para se homenagear a poetisa Carolina de Jesus, o professor de Literatura Ivan Cavalcanti Proença, o primeiro palestrante da noite, soltou um “Isso não é literatura”. Por quê? Se é escrito, seja mesmo pela pessoa simplista da senhora Carolina, a semianalfabeta e catadora de lixo – que foi publicada em 24 países –, devemos mesmo usufruir da sua dialética simples, mas profunda e visceral, um caso raro de quando os menos favorecidos fazem da literatura sua arma de apoio e combate.

Já avaliando minha própria culpa, quando troco aqui meus livros de lugar na estante, e vejo poucos nomes de mulheres, sinto uma ausência de sentido. É preciso, com urgência, as mulheres na prateleira.

Repórter: Diego Noleto.

Comentários

Natercia Garrido

Obrigada pela crítica sensível e perspicaz, adoramos Diego e Joana! Abraços e ate a próxima!

25 abr, 2017 Responder

Natercia Garrido

Que crítica sensível e perspicaz, Diego, adorei seu texto!!! Abraços e até a próxima! 😉

25 abr, 2017 Responder

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